Alataj entrevista Steve Rachmad

Atualmente baseado em Amsterdam, Steve Rachmad pode e deve ser considerado um dos ícones do techno em toda sua história. Notável por lançamentos em alguns dos selos mais importantes da comunidade global, assim como por gigs em alguns dos lugares mais incríveis do planeta, Steve é um verdeiro herói do nosso tempo.

Apesar de gozar de posição privilegiada no cenário internacional. Rachmad não é o tipo de artista que perdeu a humildade conforme suas conquistas se tornaram mais frequentes. Ao invés disso, ele segue na busca por uma maior conexão com suas máquinas no estúdio e com o público no dance floor. Tal postura é reconhecida não somente pelos seus fãs, mas por players importantes do mercado, como Ricardo Villalobos, Joris Voorn e Marc Romboy, que já colabraram com sua música através de remixes com caráter atemporal.

Buscando reinventar-se constantemente como DJ, Steve Rachmad segue flertando intensamente com o que há de melhor no universo house/techno e não pensa duas vezes quando é necessário abrir o leque de opções para comprovar a base de suas raízes musicais, um perfil sonoro que pode ser descrito como trilha de toda uma geração. A nosso convite, esse lendário DJ e produtor holandês respondeu algumas perguntas com exclusividade ao Alataj. Confira:

Alataj: Olá, Steve! Tudo bem? Não tenha dúvidas que é uma grande honra falar com você. Sua história na música já ultrapassa a barreira de duas décadas. Atualmente, o que te mantem plenamente motivado para seguir criando e trabalhando em alto nível?

Steve Rachmad: O que faz continuar é o mesmo encanto: ver como a música evoluiu e ainda está evoluindo. Eu a descobri muito cedo e cresci junto com ela, foi uma espécie de privilégio. Estou vivendo meu sonho, vivo da música e estou constantemente em contato com ela. A vida de DJ é muito difícil às vezes e não é tão glamourosa como alguns pensam, mas ainda assim sou grato pela oportunidade de viajar o mundo, conhecer novas pessoas, compartilhar minha música, aprender e crescer ao longo do caminho. É a principal direção para mim. Para ser sincero, além de produção e DJing, não há muitas outras coisas que eu gostaria de fazer na vida. Eu sempre fui fiel à minha própria visão da música, é como uma jornada na qual estou constantemente me reinventando como DJ e produtor.

Secret Life Of The Machines é certamente um dos marcos de sua carreira. Emocionalmente, como você se encontrava no período de criação desse álbum? Você sente que ele repercute bem frente a uma nova geração clubber?

Secret Life Of The Machines é certamente um dos pontos mais importantes da minha carreira. Ainda tenho muito orgulho dele, representa onde eu estava naquela época, musicalmente e tecnicamente, enquanto explorava todo esse mundo que eu descobri através dos sons de Detroit. Não havia um objetivo específico que eu tinha enquanto produzia o álbum, estava apenas ficando mais confiante como produtor e depois de alguns EPs, comecei a focar no álbum. Acho que ainda se dá bem com as novas gerações, apesar de que eu queria dar uma nova cara ao material, o álbum seria remasterizado e relançado com alguns novos remixes meus e de alguns produtores que admiro muito.

Percebo que, aos poucos, a figura e o conceito por trás de um bom DJ tem se transformado. Na sua visão, o que diferencia um bom DJ atualmente comparado há 20 anos? Aliás, tem alguma diferença nisso ou é basicamente sobre colocar as pessoas pra dançar?

A profissão de DJ mudou ao longo dos anos, assim como a música. Hoje em dia, se você ouve a música eletrônica popular, é mais sobre construir um grande show e trabalhar o público de um clímax para outro. Não tenho problema com isso, apenas não é minha vibe. Sempre me vi mais como um artista do que um “animador”. Sou apenas um cara tocando música, tentando interagir com o público, procurando por um ritmo que faça as pessoas dançarem. Felizmente, ainda há muitas pessoas que gostam desse tipo. Também ficou mais confortável, seja com a compra de músicas novas, DJing, produção ou lançamento da sua própria música. As pessoas que estão por aí desde os primeiros dias sabem quanto esforço era preciso e são gratas por cada novo desenvolvimento.

Com seu projeto Sterac, você lançou por labels como Klockworks, Delsin Records e M-Plant. Na sua concepção, quais pontos diferenciam seu trabalho como Sterac e Steve Rachmad?

É o meu “eu” techno e o meu “eu” mais diverso. Sob o meu nome me sinto livre para fazer qualquer coisa que eu goste, pode ser deep house ou techno melódico. Como Sterac, eu mergulho profundamente no techno, aquele techno clássico, muitos sons de Detroit, atmosferas sombrias, assim como o material pesado baseado nos anos 90. Isso me deu mais liberdade e tornou as coisas mais interessantes não só para mim, mas também para o público. Eu acho que as pessoas, especialmente a jovem geração de frequentadores de clubes e festivais, são muito mais abertas, o que é ótimo para nós que gostamos de tocar diversos cenários.

A cena de Amsterdam tem catapultado uma leva significativa de artistas interessantes para o globo. De que forma a atmosfera artística da cidade contribuiu para sua avaliação enquanto músico?

Amsterdam sempre esteve bem no centro da dance music, incorporando sons da Alemanha, Bélgica, França, Reino Unido, assim como discos importados dos EUA. Quando essa nova música dominou, a cidade fez parte do processo e como você disse, começou a catapultar seus próprios artistas e sons. Nós respiramos todos esses estilos diferentes, o que levou a um som próprio. Também me inspirei em tudo o que rolou aqui, embora no meu caso a vibe de Detroit estava mais próxima. Quanto a cidade, ainda está acontecendo, ainda está contribuindo para a música eletrônica. Muitos novos artistas e promoters da cena, muitos eventos acontecendo o tempo todo. É incrível morar aqui, por isso eu nunca me mudei para outro lugar.

Fale um pouco sobre suas experiências no Brasil. Na sua visão, o que o nosso público tem de melhor?

Estou sempre feliz quando retorno para o Brasil, sempre tenho momentos ótimos, sejam eles em clubes ou festivais. A cena é realmente vibrante e as pessoas estão totalmente se divertindo, acho que é a parte mais importante. Uma das minhas gigs preferidas foram Circuito no Lago há alguns anos e Tantsa em 2017. Mal posso esperar para tocar no Brasil novamente!

Planos, novidades e lançamentos. O que podemos esperar de seus projetos para 2018?

Eu finalmente mudei de estúdio e estou na última fase do setup, tempo para terminar muitas faixas que estiveram por aí, faixas que tenho tocado em vários sets. Estou trabalhando agora no remix para Detroit Swindle, um remix para Truncate e uma faixa na Reclaim Your City. É isso por enquanto.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música é um fio eterno que em grande parte define quem eu sou. Tudo começou aos 12 anos, quando meu pai me deu meu primeiro mixer, que era muito simples, comecei a brincar e aprendi a mixar. Comprei meu primeiro disco e logo comecei com edição simples, recortando e colando com um gravador. Essa fase já carregava um peso importante na minha vida, comecei a ficar realmente obcecado. Aos 15 anos fiz minha primeira gig em um pequeno clube de Amsterdã, naquele momento era a época dos anos 80, disco, electro e dance (continua meu período musical preferido e a parte mais importante da minha coleção de discos). Toda essa obsessão logo começou a trazer alguns resultados concretos. Nesse momento, a música se tornou uma das principais coisas da minha vida e não saiu da minha cabeça desde então.

A MÚSICA CONECTA.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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