Alataj entrevista Tha_guts

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Inquietação. Busca pelo novo. Liberdade criativa. Essas são algumas características presentes no perfil artístico de Tha_guts, projeto de Augusto Pereira que já se revela muito promissor e totalmente original. A identidade sonora presente em todos os seus releases até aqui é surpreendente, visto que todos os seus trabalhos se conversam, cada um possuindo suas peculiaridades e significados distintos. 

Unindo novamente sua narrativa musical abstrata com referências históricas e contextuais, Tha_guts deu vida ao seu novo EP na última sexta (27), Sandinista, com assinatura da Sonido Trópico. Além das três faixas originais produzidas para o disco, há também a presença de dois remixers: Lui Mafuta e Renato Cohen. Uniu-se então diferentes percepções e o resultado foi um trabalho recheado de referências latino-americanas misturadas com as linhas de baixo orgânicas de guto, sua marca registrada. 

A ocasião nos rendeu a oportunidade de questioná-lo para entender tudo o que ronda e o que está dentro de sua mente tão peculiar. Ouça o disco na íntegra logo abaixo enquanto você desfruta da entrevista com o artista:

Alataj: Olá, Guto! Tudo bem? Obrigado por topar essa conversa com a gente. Na sua própria biografia consta que, além de DJ e produtor musical, você é produtor audiovisual e multi instrumentista. Quando você se profissionalizou nisso? Conta um pouco mais pra gente?

Tha_guts: Oi, pessoal! Tudo certo, obrigado. Esse lado mais visual já estava em mim faz tempo. O meu trabalho com áudio precisa ser constantemente anexado as imagens, assim como o trabalho com imagens precisa do áudio. Mesmo gravando no estúdio eu imagino um cenário que aquele ruído na minha cabeça faça sentido. Então acabou sendo mais um complemento do meu trabalho como artista do que uma profissão paralela, raramente realizo algum projeto nesse meio que não esteja conectado com música. 

Te vemos como um artista bem jovem, mas que possui um leque de referências bastante avançado. Quando exatamente esse consumo de informações (que vão além da música) se intensificou e como isso reflete hoje no seu perfil artístico?

Eu sou um sujeito curioso, sabe? Quando não estou trabalhando, estou pesquisando sobre diferentes temas. Por exemplo, eu sou formado em História. Teve um tempo que eu pensava realmente em um futuro distante como universitário, mas hoje eu vejo que me formei na área por total inquietação da minha parte. Eu sou um ser inquieto. Essa ansiedade se for traduzir em palavras me leva para diferentes propostas e consequentemente influências diversas. 

A maioria das suas faixas são lançadas de forma independente, sem visar qualquer tipo de lucro. Por quê você optou por se posicionar desta forma? Qual o principal objetivo com a música na sua vida?

Bem, eu não posso dizer que nunca nenhuma música minha possa ser endereçada à venda, mas não é uma necessidade que eu sinto no momento atual. Minhas músicas foram feitas pra tocar e no momento minha postura é facilitar o máximo o acesso.

Achamos sempre interessante conhecer a visão do artista da região onde ele está inserido. Como você vê o atual momento da cena gaúcha? Em quais aspectos ela evoluiu desde que você ingressou na indústria e o que falta para o estado ser reconhecido como referência artística a nível global?

A lente focal acaba atingindo menos os espaços fora do eixo RJ-SP. Como muitas vezes nós brasileiros temos um certo comportamento colonial na valorização da música produzida no Brasil, isso se reverbera dentro do país. No sul, especificamente  acredito que precisa se estimular que tenhamos uma cultura maior de representatividade inclusive no número de produtores. Existem ótimos trabalhos sendo realizados atualmente aqui, mas não tendo força como unidade é mais difícil contestar os espaços engessados do sistema e mercado. 

Plastic Noise (álbum), Mirror (EP), Moog Lovers (EP) e agora mais um EP com três originais e dois remixes. Entregar trabalhos mais encorpados é uma prioridade para você? Qual sua visão sobre isso?

A produção é uma espécie de cria que por vezes ficamos lambendo por meses ou até anos. Nunca se escutou tanta música como na atualidade. Os trabalhos que realizei desde o início foram os mais honestos e acidentais possíveis, no que diz respeito ao conceito. Então é difícil dizer como podem soar os trabalhos daqui pra frente, mas garanto que sempre de modo que procurem traduzir em som essa minha ambiência turva e mutável de influências. 

Aproveitando sobre seu workflow: como você tem evoluído o processo criativo com o passar dos anos? Desde o primeiro disco até este lançamento as coisas são feitas da mesma maneira?

De fato hoje eu componho e gravo em um processo bem menos acidental que no começo. Porém, o sentimento é o mesmo. A sensação de estranhamento ao ouvir o que se está sendo produzido ainda encontra-se ali intocável. Então aos poucos tudo vai criando sentido e daquela imagem borrada sai uma track de fato. 

Indo mais a fundo neste lançamento pela Sonido Trópico, sonoramente percebemos bastante ritmos latinos e linhas de baixo mais orgânicas, mas na essência também existe um certo tom de liberdade, certo? Como foi o processo organizar todos esses elementos nesse EP e quais mensagens que você buscou transmitir em Sandinista?

Sandinista pode ser considerado um trabalho manifesto. Talvez de tudo que eu já produzi acabou se tornando a proposta mais pretensiosa, mesmo que não fosse a intenção original. Quando se produz as músicas os acidentes no processo moldam mais o produto final que o propósito. Nesse EP, tudo estava mais claro e direto. A linguagem é mais dura e primitiva e isso acaba expondo mais as intenções. 

Esse resgate da América Latina é mais que necessário no atual momento político e cultural que vivemos no país. Em uma sociedade que não é sido contemporânea consigo só o que avança é a tecnologia, e mesmo a curto prazo isso tem gerado um efeito catastrófico no que diz respeito aos poucos direitos conquistados. É um sentimento de pertencimento ainda tímido em nosso país, mas que tem ganhado força. Com base em trabalhos como o label da Sonido Trópico que evidenciam todo essa origem potencial ao mundo.

Artwork by Ju Sting:

Para finalizar, uma pergunta pessoal. Nós enxergamos a música como uma forma de conexão entre as pessoas. E para você, qual a razão da existência dela na vida humana?

A troca nas relações humanas na música é o que torna tudo real, é importante percebermos como isso é libertador. No fundo parece clichê, mas o que importa são as pessoas por trás dos selos, marcas, bandeiras que elas trazem, a música proporciona isso. Essa organicidade que só funciona em um contexto fluído.

As experiências humanas transcendem a experiência do trabalho. Nos conectamos com as pessoas e não com os produtos. Com quem eu divido experiências de alguma forma interage com o artista, o ser humano, do projeto Tha_guts e não com o projeto em si. O projeto é tão abstrato quanto um sentimento ou uma sensação. Nada pode ser mais recompensador que isso, a autêntica razão da existência da arte na vida humana.

A música conecta.


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