Saindo do Lollapalooza 2016 com meus amigos estávamos em dúvida sobre qual seria a melhor festa para ir, afinal tem tanta coisa acontecendo em São Paulo que é fácil errar e difícil trocar de lugar uma vez que errou – é longe e custa caro (o metro fecha meia noite.) Perguntamos por aí e só se falava na tal de Mamba Negra, nunca tínhamos ouvido falar, mas confiávamos nas pessoas que deram a dica, então lá fomos nós. Chegando na frente da fábrica abandonada que era o local dessa edição da festa – a Mamba costuma trocar de locais – e vendo todas as pessoas lindas, diferentes, livres e do bem que frequentam as festas do coletivo já sabíamos que tínhamos feito a escolha certa. Explorar a locação da festa foi uma das nossas partes preferidas, o andar de baixo (que na verdade já era o segundo andar, pois o primeiro só contava com os banheiros, a entrada e a mesa aonde vendiam-se os ingressos) tinha uma som mais calmo e vários graffitis incríveis espalhados pelas paredes caindo aos pedaços. A escada que levava para o terceiro andar estava tão quebrada que me surpreendi por não ver ninguém caindo, o visual do local era inóspito, misterioso e, exatamente por esses motivos, infinitamente lindo.


Foto por Georgia Kirilov, câmera descartável 35mm.

Quando entrei na pista principal não acreditei no que vi e ouvi, um acid techno derretendo as paredes do galpão que estavam iluminadas com luzes vermelhas e um grupo enorme, mas não aquele enorme desconfortável, dançando no meio da fumaça que pairava ali devido a uma mistura de cigarros (e afins) e gelo seco – acredito eu? – e se libertando ao som da música que era completamente viciante. Não conseguimos ir embora até as 9 (e quando fomos embora nos arrependemos) e de manhã o local só ficou mais cativante. As pessoas não paravam de chegar (mesmo que muitas tinham ido embora) e a mistura de gente lá dentro era fascinante. Todos coexistindo de uma maneira orgânica: prova de que as intenções do coletivo estavam se materializando. Foi amor a primeira vista, cheguei em casa e procurei o site da Mamba para somente encontrar uma sátira audio visual que faz todo o sentido para quem já foi na festa, porém não explica coisíssima nenhuma de onde aquilo tudo veio. Fiquei com todas aquelas perguntas me bombardeando a cabeça. Foi ai que a ideia da entrevista surgiu, se você conhece a Mamba pode entender melhor, se você não conhece a Mamba… Bem você vai querer conhecer. Música de verdade por gente que faz a diferença! 

1- Como e quando a Mamba foi criada? Quem está envolvido com o projeto?

A Mamba surge em maio de 2013, num momento de efervescência cultural e política no centro de SP. A música eletrônica ganha força na cena underground fora do clube e nós nos conhecemos trabalhando para criar esse contexto de festas de rua, em locações degradadas, festivais autogeridos, ocupações estudantis e artísticas. Somos fruto destes encontros e choques entre artistas e coletivos, mas sobretudo da necessidade de criar meios de produzir e circular a nossa produção, sem ficar refém da proposta limitada do mercado do entretenimento e da relação de “público-cliente”.

O eletrônico feito ao vivo e a música orgânica sempre foram elementos complementares fundamentais na pesquisa sonora da festa. Somos produtores, músicos, DJs, videomakers, arquitetos, artistas visuais, técnicos e performers. A Mamba é Serpente no horóscopo Chinês, e nós duas também – Laura Diaz aka CARNEOSSO e Carol Schutzer aka Cashu, idealizadoras da festa. Somos (bu)serpentes, trabalhamos em bando na noite. Alexandre Lindenberg é responsável pela identidade visual de todas as festas. Os artistas residentes são Exz, Benjamim Sallum e Teto Preto – a jam-eletrônica da festa formada por L_cio, Zopelar, Bica e Laura Diaz. As luzes são feitas por Diogo Terra Vargas e Paulinho In Fluxus e o Leonardo Dileo faz as pesquisas de locação e coordena som de algumas festas. Recentemente quem tem feito a produção das festas, planejamento e sound designer são os queridos do Fractal Mood e Magra Coelho, que conduz a equipe de caixas e seguranças que trabalhavam com a gente desde o inicio.


Foto por Natasha Hollinger na Mamba Negra no Cine Marrocos – Junho 2014

2- Falei um pouco sobre minha experiência e o quão surpresa eu fiquei com a locação, eu acompanho muito o backstage da criação de diversas festas e sei como é difícil conseguir alvará, então achei impressionante o estado de São Paulo autorizar tal ocupação. Ouvi falar então que existe uma parceria entre a Mamba e o governo pois vocês ajudam os moradores de rua que ocupam esses lugares com um pouco do lucro da festa, procede? Podem me explicar um pouco mais sobre o processo?

A Mamba não tem nenhum tipo de parceria com o governo do estado de São Paulo. A Prefeitura e as Subs têm dialogado para emissão de autorizações de eventos de rua e nas praças. Nunca propusemos ações de assistencialismo com relação à questão dos moradores de rua e entendemos que nossa maior contribuição à essa população é oferecer nosso trabalho gratuito e um espaço de convívio social, musical, audiovisual.

Em 2014, durante a ocupação da Ouvidor 63, o aniversário de um ano da Mamba concatenou todas as pessoas que estavam na ocupação e artistas de fora. Cobramos entrada e fizemos bar. Ninguém ganhou cachê de nada. Todo o dinheiro foi revertido pra arrumarmos os banheiros, cozinha do prédio e reformas da elétrica. Mais tarde, na ocupação do Cine Marrocos, fizemos arrecadação de livros pro espaço cultural e alimentos. Além disso, doamos metade da bilheteria pra ocupação.

3- Vi que para a próxima Mamba tem até evento no RA rolando (parabéns!) e que um dos admins é o L_cio, ele tem alguma relação com o coletivo?

O L_cio é um dos nossos artistas residentes e co-fundador do Teto Preto. Se apresenta em live solo, marcado por produções originais e parcerias com CARNEOSSO (Laura Diaz – composição e voz), Filipe Massumi (composição e cello), Carol Schutzer (voz) e outros artistas. Além disso conduz a Rádio Vírusss, uma rádio quinzenal que transmitimos online às quartas.

4- É bem difícil decifrar o que é Mamba pelas redes sociais, tanto o Face quanto o site tira o visualizador da zona de conforto, porém não oferece muita informação concreta. Eu honestamente, tendo ido na festa, amei e acho que reflete muito da identidade tanto visual quanto espiritual da festa, porém vocês podem me explicar um pouco mais sobre o porque desse approach?

A Mamba, com toda sua faceta festiva, tem um potencial forte de articulação e tensionamento de questões culturais, sociais, morais e de saúde pública. E nós, na parte que nos cabe, existimos para lidar com essas polêmicas através da nossa linguagem, da nossa produção e principalmente da nossa ação.

A Mamba antes de tudo é uma F(R)ESTA. Procuramos ir para lugares que estão em estado de abandono, marginalizados pelo próprio poder público, deixados de lado pela especulação imobiliária, ocupações e espaços autônomos. Sair da “zona de conforto”, portanto, sempre foi nossa proposta. Isso se reflete tanto na nossa linguagem cifrada em posts e eventos, quanto no artístico em constante mutação e experimentação. A forma anda junto com o conteúdo, e o conteúdo tá aí e em cada pedacinho. Tem que passar pela experiência.


Capslock e Mamba Negra no buraco do Anhangabaú, Sp na Rua – Agosto 2015.

5- Como se faz a escolha do line up? Existe algum estilo de musica eletrônica em mente? Cada festa tem um tema?

A Mamba começou procurando as intersecções da música eletrônica com a música orgânica. Nessa trajetória, além dos DJs residentes, já recebemos bandas de jazz, jams eletrônico-acústicas e shows de bandas de música autoral e experimental. Com o amadurecimento da pesquisa, começamos a dialogar com o formato de LIVE, música eletrônica original feita ao vivo ou produzida pelo artista.

Ao longo do processo fomos nos aproximando mais do techno. Por outro lado, temos um acúmulo de influências vindas também do house, deep, da música brasileira e da canção ao instrumental. No entanto não gostamos de restringir nosso gênero. Muitas vezes os gêneros musicais atuam no sentido de limitar nossa criação. Estamos sempre abertas procurando gente nova e artistas que apresentam novas identidades, que buscam outros caminhos além dos tradicionais, que tem sonoridades em intersecção com o que estamos produzindo e tocando. Algumas vezes, abrimos chamada para novos artistas tocarem no lounge ou recebemos DJs de fora que estão em passagem por São Paulo. Cada festa tem um tema estético-musical que permeia o trabalho de luz, projeção, performance, escolha de locação e produção de material gráfico (web e impresso).


Diogo Terra Vargas_ Mamba Negra Aniverçério de Dois Anos – Maio 2015

6- Nessa última os momentos mais marcantes na pista para mim foram recheados de acid techno, coisa que é bem difícil de se achar nas pistas brasileiras, de onde vocês tiram referencias?

Sempre temos dificuldade de falar em gêneros musicais, principalmente porque eles podem restringir as experiências. Temos muitas influências globais algumas como techno de Detroit, Berlim, música popular (brasileira e internacional), house, deep, low, entre outras. Mas a forma de colocar todas elas juntas é no geral bem brasileira, pelo fato de sermos brasileiros.

7-  “serpente peçonhenta de hábitos noturnos e libidinosos. bote rápido e fatal. terreiro eletrônico de paralisergia.” De novo, para quem já foi em alguma Mamba acho que essa descrição é simplesmente exata, porém para quem ainda não teve essa experiência, vocês podem explicar um pouco sobre como se cria essa sensação de paralisergia?

Não tem o quê explicar. Tá aí já. É só se jogar e virar cobra.


Laura Diaz e Carol Schutzer, foto por Leandro Menezes

8- Durante a festa vi muita gente vestida como queria, alguns sem roupa, gente se amando, gente sentada, gente conversando, explorando o lugar, se libertando mesmo, uma energia sem igual. Como guiar a energia da festa para que assim seja? Sei que muito vem do público, mas tem toda uma organização por trás que guia a aura do local, como é esse processo?

Desde o início a Mamba surgiu por essa intenção de criar espaços-experiências de liberdade, ainda que episódica. As pessoas vão justamente por isso. Nós produzimos a Mamba e somos público da cena também. Isso surgiu de maneira bem orgânica nesse contexto de efervescência em São Paulo.

Nas ocupações, na rua, nos eventos fechados, cada ação buscou, com tentativas e acertos, criar essa outra via de atuar na cena cultural. Passar por essas experiências é fundamental para construirmos uma rede de atuadores muito além da Mamba. Ou seja, a gente tem uma identidade coletiva e multifacetada em constante transformação. Acho que só esses fatores juntos já acabam ativando discussões que constroem esse lugar de liberdade sexual, cultural, política.

Trabalhamos entre pessoas que se dão bem e se sentem a vontade, cada um com sua autonomia. Bom saber quando dá certo, porque também não controlamos o humor das pessoas, apesar de conduzirmos através da música e sermos sensíveis ao que está acontecendo na cidade e na vida das pessoas.

9- Vocês estão trabalhando em algum projeto no momento? Podem dividir com a gente?

Temos outros projetos paralelos dentro da Mamba. A Rádio Virusss, que surgiu com a necessidade de criar espaços livres de apresentação e divulgação para produtores e DJs da cena independente de São Paulo e também de outros estados é uma transmissão online realizada quinzenalmente às quartas-feiras. A BemLixo, que é uma marca de camisetas feitas por Bóris Rodrigues, usando a técnica de serigrafia alternativa, com camisetas velhas e garimpadas em brechó. Atualmente estamos inscrevendo um novo ataque da Mamba no mesmo edital que fizemos ano passado, o Redes e Ruas.


Foto por Georgia Kirilov, câmera descartável 35mm.

10- Defina Mamba Negra em uma frase.

“serpente peçonhenta de hábitos noturnos e libidinosos.
bote rápido e fatal. terreiro eletrônico de paralisergia.”