Augusto Olivani aka Trepanado é também conhecido como metade do duo Selvagem, projeto brasileiro que tem entregue um trabalho muito sério e com isso ajudado a ampliar os horizontes do público frente ao sons de pista ou não – é até difícil categorizar o que eles tocam e pesquisam. Entretanto, sua vida na discotecagem começou muito antes disso e é possível creditar parte do sucesso que seus projetos possuem atualmente à experiência adquirida nos anos anteriores.

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Entre 2005 e 2006, Augusto teve uma festa/dupla prévia chamada Marra. O projeto passou pelo Milo Garage, um pico clássico da cena indie paulistana, e chegou a tocar no Vegas várias vezes. Fora do Brasil, Trepanado comandou o sound system de alguns lugares clássicos, como o Chez Moune (antigo cabaré lésbico em Pigalles, Paris, onde o Jeremy Underground era residente), Bar Marmont (anexo ao Chateau Marmont em Los Angeles) e o Sub Club em Glasgow, numa festa organizada por ninguém menos que Optimo.

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Frente ao seu atual projeto, ele e seu parceiro Millos Kaiser levaram o Selvagem para festivais e radio shows consagrados, como Nuits Sonores, Dekmantel (São Paulo e Amsterdam), Tribaltech e Beats in Space. Da festa/dupla nasceu a Selva Discos, gravadora que tem cavado algumas preciosidades da música nacional, como o album sampler Brasileira de Maria Rita. Nesse bate-papo aprofundamos estes e outros assuntos interessantes sobre a caminhada de Olivani. Vem com a gente:

1 – Olá, Augusto! Tudo bem? Prazer falar com você. Entre 2005 e 2006, você participou de um outro projeto, dono de uma abordagem mais indie. De que forma essa experiência contribuiu para sua carreira enquanto DJ e produtor? Quais são as melhores lembranças que você traz desse período?

Pra mim foi nessa época em que as barreiras entre os gêneros começaram a cair – aquela coisa bem segmentada que dominou mais ou menos de 1998 até 2004 deixou de fazer sentido, não tinha razão para não misturar techno com deep house, ou rock com disco, como se fazia antes. Eu sempre ouvi de tudo desde adolescente (de Chic a Slayer), mas naquela época me deu uma sensação de que o “ecleticismo” foi legalizado. Dava para ouvir grime (DMZ, DJ Rupture), rap (MF Doom, Madlib, Antipop Consortium), minimal (Villalobos, Akufen) e indie-disco (LCD Soundsystem, Rapture, !!!) sem grandes encanações, era um momento ainda bem inocente e deslumbrante, cheio de descobertas. É esse senso de abertura que eu carrego até hoje, de buscar sons incríveis em qualquer lugar – apesar de eu ter fundações bem sólidas na disco e na house music.

2 – Eu li em alguma entrevista sua com o Selvagem, que as pesquisas do projeto são bastante voltadas para aquilo que muita gente não está mais procurando, ou nunca imaginou inserir em um set. No momento, quais estilos e artistas estão sob o seu radar?

Sim, a Selvagem tem esse espírito desbravador, o que leva a uma busca incessante por músicas fora do radar. Posso falar de algumas coisas que peguei recentemente, como a reedição de um álbum do produtor sul-africano Professor Rhythm pelo selo Awesome Tapes From Africa, e o LP Where Were You da dupla M-M Deluxe, também da África do Sul, que são desse estilo de house de andamento devagar chamado kwaito, que antecede ao apartheid (peguei mais coisas nessa linha, tipo uma artista com nome incrível chamada Yvonne Chaka Chaka). Nessa onda étnica tem também essa onda de zouk/compas da virada dos anos 80 para os 90, tipo uma lambada caribenha das colônias francesas (Antilhas, Guadalupe, Martinica) – até saiu uma coletânea bem legal sobre o gênero chamada Digital Zandoli. Eu sou viciado em house italiano também, que era uma parada bem relegada até pouco tempo, mas que moldou meu gosto lá atrás, então tô sempre atrás de discos que não conheço – coloquei alguns no mix. De atualidades eu tenho a sorte de conhecer bastante gente talentosa que sempre me passa coisa nova, como o Leo Lipelis (um russo que lança pela L.I.E.S. e anda colaborando com o Andy Butler do Hercules & Love Affair) e o Alexandre Mouracade (Splic Secs, Sonns), e tô sempre de olho no que caras como Omar S, Jan Schulte, Paranoid London, DJ Sotofett e Anthony Naples tão lançando.

3 – Chez Moune, Bar Marmont e Sub Club são apenas alguns dos lugares icônicos onde você já se apresentou. Fale um pouquinho sobre cada uma dessas noites e quão importante elas foram para sua caminhada.

Na época em que aconteceram era quase que um hobby indo longe demais – um pouco parecido com o que aconteceu com a Selvagem (obviamente em menor escala). Como eu ainda trabalhava como jornalista na época e viajava com alguma regularidade, alguns amigos me escalavam pra tocar com eles. O Chez Moune é um cabaré lésbico centenário em Pigalle, bairro bem boêmio de Paris, e eu conhecia o Guido Minisky (que hoje faz sucesso no Acid Arab), que era o booker, e ele me colocou pra tocar numa noite – e escalei outro camarada, o Cosmo Vitelli, pra tocar comigo, fizemos back2back a noite toda, foi bem intenso (clube pequeno, sem retorno, galera alucinada). O Bar Marmont é anexo ao Chateau Marmont, mítico hotel em Los Angeles (quem ficar curioso pra saber tudo que já rolou por lá é só dar um Google – tipo, o John Belushi morreu de overdose lá, foi onde o Led Zeppelin andou de moto pelos corredores, por aí vai), e toquei numa segunda-feira  – foi devagar pra ser sincero, mas valeu só por ter o Macaulay Culkin todo torto encostado no balcão. Já o Sub Club em Glasgow é reconhecido como um dos melhores clubs da Europa, tem mais de 20 anos de história, o Optimo (minha maior influência) tinha residência ali e foi a dupla que me chamou pra fazer um all-nighter lá em 2013. Se eu tivesse parado de tocar no dia seguinte já teria realizado um sonho da vida toda.

4 – Acredito que a cena de São Paulo vive um momento de efervescência bastante especial, principalmente se levarmos em conta a variedade de estilos e públicos que estão sendo trabalhados. Na sua visão, quais são os próximos passos para o cenário artístico da cidade continuar evoluindo?

Para ser sincero, acho que o momento de maior efervescência já passou. Claro, existem vários núcleos consolidados, fazendo eventos cada vez mais caprichados, superprofissionais, e dá pra notar cada vez mais festas novas aparecendo. Mas está muito caro produzir eventos, as festas começam a se canibalizar e a onda conservadora tem crescido de tamanho, e não deve demorar pra ver no underground paulistano um inimigo. Acho que esses eventos que são quase minifestivais – com três pistas voltadas pra duas, três mil pessoas – vão continuar dando o tom no próximo ano, mas a tendência é o retorno dos “clubinhos” – casas para 300 pessoas -, onde as pessoas tenham uma experiência mais intimista, menos superlativa.

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5 – O Hugo Capablanca já fez uma track com referência ao seu alter ego Trepanado, não é mesmo? Como isso aconteceu? Vocês são amigos hoje em dia?

A gente se conheceu através de uma comunidade secreta de trocar música na web uns 10 anos atrás e ele é bem interessado em contracultura, misticismo, anarquia etc. Começamos compartilhando um gosto pelo diretor de cinema Alejandro Jodorowsky e acabamos engatando um papo sobre trepanação, a prática cirúrgica anciã que serviu de inspiração pro meu pseudônimo. Foi daí que veio a faixa. E sim, continuamos conversando regularmente – há uns três anos tivemos uma noite bem louca em Berlin, depois dele tocar num bar/clube chamado King Size. Ele que tá lançando a faixa do Sharif Laffrey que coloquei no mix, uma que sampleia Pet Shop Boys.

6 – Sabemos que você possui um relacionamento especial com Franz Ferdinand, especialmente com o baterista Paul Thomson. Como esse intercâmbio cultural tem rolado?

Eu conheci o Paul em 2006, a primeira vez que fui pra Glasgow, através dessa turma que orbitava ao redor do Optimo, e sempre que a banda vinha pro Brasil a gente se encontrava, ia comprar disco com ele, ele vinha jantar em casa, armávamos umas festas pós-shows e ele tocava com meus discos. A gente se viu a última vez no ano passado, quando fomos de novo pra Glasgow (a Selvagem tocou no Sub Club num evento do Resident Advisor), saíamos em gangue, é sempre ótimo. A gente sempre troca música, ele começou a fazer uns remixes por conta e também tá com um projeto novo muito bom, curiosamente chamado AMOR (tem uma música chamada “Paradise” que é incrível, lembra Arthur Russell).

7 – Selva Discos: vejo que os trabalhos com o label estão indo muito bem. Quais são os próximos lançamentos e planos da gravadora para o futuro?

Agora até o fim do ano eu e o Millos devemos ter quase que todo o cronograma de lançamentos de 2018 planejado – trabalhar com europeu força você a pensar com bastante antecedência. Vamos começar uma série de singles 12” com a faixa original de um lado e um remix do outro – prensagem bem alta, 45 RPM. O primeiro é de uma canção da cantora Marlui Miranda chamada “Tchori Tchori”, com um remix do Jonas Rocha (Joutro Mundo), e depois tem “Baianá” dos Barbatuques com um edit do Jan Schulte. Também vamos começar outro ramo dedicado a trabalhos que nunca foram lançados oficialmente – o primeiro é do fim dos anos 80, chamado Múmia, criação do Kodiak Bachine, baixista da banda de dark/new wave paulistana Agentss.

8 – Selvagem enquanto festa: de que forma vocês tem buscado posicionar a festa no cenário cultural de São Paulo e quais surpresas as próximas edições reservam para o público?

A gente tem tentado fazer festas que misturem o que fazíamos no Paribar/Praça Dom José Gaspar (de graça, no cair da tarde) com essa pegada mais club, entrando na madrugada, e também explorando lugares além do centro da cidade. Mas nossa estética não é de fazer festa em galpão, não é um formato que nos faça sentir à vontade. Para novembro vamos trazer o Matias Aguayo (Coméme, Kompakt), vai dar uma liga legal – além do pedigree techno que ele carrega, ele também traz essa faceta multicultural que a gente gosta tanto.

9 – Qual foi o norte que você utilizou para gravação desse mix?

Quis fazer numa linha um pouco diferente do que faço dentro da Selvagem, um pouco mais direto ao ponto, sem tantas saídas pela tangente (em termos de passar por vários estilos no mesmo set), mas incluindo bastante música nova (algumas exclusivas), descobertas recentes e “etnicidades”, além de trazer texturas que fazem parte do meu som – tipo o house italiano de que falei antes.

10 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

É uma forma de estabelecer conexões interiores e exteriores. Muitas vezes eu consigo me expressar melhor através das músicas que toco e ouço do que verbalizando sentimentos – me sinto melhor compreendido através dela. Então é tanto extensão quanto eixo.

A música conecta as pessoas!