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Vitrola | A profundidade musical de Jards Macalé em seu disco de 1972

Cantor, violonista, compositor, arranjador e ator: Jards Anet da Silva, ou simplesmente Jards Macalé, viveu a música com intensidade. A pouca habilidade com o futebol rendeu o apelido de Macalé, um jogador do Botafogo não muito querido pelas torcidas na época. O apelido reverberou bem no ambiente musical e já na década de 60, ainda muito jovem, Jards estava trabalhando em um ótimo nível.

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Após algumas experimentações com músicos da época, Macalé foi convidado para dirigir um show de Maria Bethânia em 1966. Mais tarde, em 69, passou a acompanhar de perto o Tropicalismo e em 70, esteve em Londres para visitar os músicos baianos exilados. Naquela época, Macalé já tinha músicas gravadas por nomes do calibre de Gal Costa, Bethânia e Clara Nunes. Logo após seu retorno do velho continente, veio a decisão de gravar um LP Solo, que veio para mudar completamente os rumos de sua carreira.

Jards Macalé (1972), é quase que um álbum homônimo. O disco é considerado um dos trabalhos mais inusitados da história da música brasileira e marca a transição de Jards para via pop, ao mesclar rock, samba, eruditismo, jazz, bossa-nova, tropicalismo, melancolia e sofrimento em altas doses. O LP foi gravado as pressas, com prazo apertado para produção e características minimalistas.

Olhando de forma panorâmica para o trabalho, é possível observar uma atmosfera crua, anti-comercial e com algumas letras bastante melancólicas, como na faixa de abertura, Farinha do Desprezo. Revendo Amigos, um forrock presente no álbum, chegou a ir para censura 12 vezes antes de ser aprovada. Seu lado mais sofredor aparece em evidência no álbum, como no sucesso Mal Secreto, com versos que relatam uma vida de consciência no sofrimento.

Além dos destaques individuais das faixas do disco, os nomes que fizeram parte do processo criativo de Jards Macalé (1972) fizeram total diferença no excelente resultado que o álbum obteve. As letras foram entregues pelos poetas José Carlos Capinam, Torquato Neto, Duda Machado e Waly Salomão e pelos compositores Luiz Melodia e Gilberto Gil. Na parte instrumental, alguns dos mais expressivos músicos da geração, como o baterista Tutty Moreno e o guitarrista Lanny Gordin, já famoso na época da Tropicália.

A ousadia artística de Jards, como já era de se imaginar, não funcionou frente ao público. A venda foi baixa e o artista acabou sendo tirado de catálogo. Em 73, logo após o lançamento do disco, o cantor brasileiro idealizou a criação de um concerto em celebração aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O encontro rendeu um álbum com participação ade artistas como Paulinho da Vila, Milton Nascimento, Gal Costa, Edu Lobo, Chico Buarque e Raul Seixas.

A pouca aceitação frente ao público da época é compreensível, principalmente se levarmos em conta a profundidade do disco de 72. Enquanto alguns dizem que esse estilo de trabalho jamais daria certo por aqui, nós preferimos acreditar que sem essa ousadia, a música brasileira jamais seria tão conceituada mundo a fora. Afinal de contas, quantos grandes músicos do país foram influenciados por Jards Macalé?

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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