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A música conecta

Alataj entrevista DJ Anaum

Por Ágatha Prado em Entrevistas 05.08.2021

DJ Anaum é um nome constante no cenário cultural e musical curitibano, sobretudo em meio ao movimento Trap e Hip Hop da capital. Desde a infância envolvido com a cultura do skate, ele descobriu através de fitas cassetes e VHS sua paixão pela música e pela discotecagem. 

Discípulo de DJ Primo, um dos grandes mestres da cultura Hip Hop e turntablist do sul do país, Anaum iniciou sua carreira produzindo beats para grupos de Rap e tocando em bailes Black de Curitiba, construindo sua identidade baseada na liberdade estética do Bass Culture, Trap, Funk, Twerk e do Breakbeat. 

São quase 20 anos de estrada e uma trajetória que inclui o comando da festa Cambalacho – uma das maiores festas dedicada ao Trap e Hip Hop do Brasil -, apresentações em festivais do calibre da Tribe, Tribaltech, Universo Paralello e Lupaluna. Ele também já compartilhou palcos com os medalhões Afrika Bambaataa, Dj Craze, Tropkillaz e The Funk Hunters.

Quando está em frente às pickups, Anaum dá uma verdadeira aula de mixagem. Entre scratchs, backspins, cortes abruptos e um repertório fascinante e versátil, ele encantou a todos em sua apresentação da 103ª edição do Alataj Lab. Tanto é que ele ganhou programa próprio, o Freestyle, que será mensal e estreia aqui no Lab nesse próximo sábado (07).

Batemos um papo com ele para conhecer um pouco mais sobre a história da sua carreira, referências que ele carrega em sua bagagem, além das novidades acerca de seu novo programa. Acompanhe!

Alataj: Olá Juliano, tudo bem? Obrigada por conversar conosco! Vou começar perguntando sobre algo que sempre fomos curiosos em saber: por que DJ ANAUM e como você começou no universo da discotecagem?

DJ Anaum: Salve, Família! Tudo tranquilão? Essa história é engraçada, a coisa começou pelo bairro, aquele rolezinho clássico de skate pela cidade. Era início dos anos 2000, eu e meus amigos éramos fissurados nos roles de skate, a internet ainda não era aquela coisa, muito cara, discada e ainda tinha aquela história do Bug do milênio [risos]. 

Enfim, além do skate a gente pirava em videogame, como toda molecada da época. Do videogame veio a pira da tecnologia e a gente curtia jogar pelo PC. O acesso à informação, ou seja, as novidades sonoras, álbuns, equipamentos,discos, músicas, softwares era muito restrito, de difícil acesso para meros adolescentes quebrados da época. Porém, no nosso bairro a rapaziada do skate era muito unida, e tudo que aparecia a gente compartilhava uns com os outros. Minha principal fonte de referência, estilo desde moda à música, eram as revistas e vídeo magazines de skate. Posso citar minha maior referência da época como a 411VM. A gente tinha um double deck de vídeo cassete e alugava os VHS nas locadoras da época e fazia as cópias e distribuía entre os amigos. Era por lá que a gente sabia das novidades sonoras, desde Rap, Hardcore, Metal, e muita música eletrônica que rolava nos vídeos. 

No final de cada sessão dos vídeos apareciam os créditos e lá a gente descobria o nome dos artistas. Conheci muita coisa boa que ouço até hoje por lá, tipo Fugees, Cypress Hill, Beastie Boys, Wu Tang Clan, Chemical Brothers, Prodigy entre outros clássicos atemporais. Nessa mesma época surgiu o MP3, os gravadores de CD e algumas plataformas ilegais de download de música, a famosa pirataria – quem lembra do Napster, Audio Galaxy, o próprio IRC e o clássico SoulSeek que usamos até hoje ?. Além disso tudo eu, como herança do meu pai, adorava programas de rádio e existia alguns especializados de Black Music nessa época. Eu tinha um double deck de fitas cassetes e ali surgiram minhas primeiras mixtapes, no formato REC, PLAY, PAUSE gravado ao vivo dos radio shows. Meus coroas tinham uma pequena coleção de LPs onde eu já me arriscava nos riscos. Comecei a criar minhas próprias coletâneas e distribuia os CDs entre os amigos e a coisa foi crescendo. Eu sempre fui o menor da turma, meus amigos já eram maiores de idade e eu ainda DE MENOR, assim foi meu primeiro apelido no bairro [risos]. 

Um desses amigos era profissional no skate e viaja o mundo em competições e sempre trazia as novidades pra gente curtir. Uma delas foi um VHS do DMC da Technics, o maior campeonato de DJs do mundo, assisti, pirei e falei é isso que eu quero fazer. Na mesma época existiam alguns points que a galera se cruzava e o povo era misturado. Tinha a loja da Drop Dead no Shop Mounif Tacla, na praça Generoso Marques, que além de skate shop tinha várias tapes e CDs importados e eu não tinha grana pra comprar, mas ficava ouvindo. Já fui até expulso da loja [risos], mas era assim o acesso que a gente tinha. 

Um dos caras que trabalhava lá era o Saudoso Alexandre, conhecido como DJ Primo, referência máxima na história do Hip Hop nacional. Nos tornamos amigos e a história ficou mais fácil. Eu estudava à noite, trampava o dia todo de office boy e fazia uns bicos consertando computadores. Eu acompanhava as idas do Primo para São Paulo e fui conhecendo muita gente que me acolheu. Sempre que sobrava uma graninha eu comprava uns discos. Da mesma forma eu juntei uns trocados e comprei um mixer Gemini PMX de dois canais e um toca disco sem direct drive da CCE. Nessa epoca a galera do Rap nacional lancava os singles em LP, e  meus primeiros LPS foram da Porte Ilegal e se chamava Batidas e Efeitos. Tinha uns beat e uns efeitos pra fazer uns scratchs, eu já brincava no Fruit Loops e deixava um beat rolando num canal e no outro tentava uns scratchs. 

Em uma viagem pra galeria do Rock – que era do Rap também – ,em SP, eu descolei um material muito foda que mudou minha vida: um VHS do DJ Q-BERT chamado Do it Your Self, onde ele ensinava uns moves básicos de scratchs e etc. Nessa mesma época fui DJ de alguns grupos de Rap de Curitiba como O Dozeaba e Mocambo. Os comparsas do Rap eram altos e costumavam me chamar de Anão. Fui convidado pra tocar numa festinha e acabou ficando o apelido. Com o passar do tempo dei um upgrade estético e ficou Anaum. Enfim, tem muita história que vou contando nas edições do Freestyle no Alataj.

O Hip Hop é uma das grandes bases para o seu desenvolvimento musical até aqui. Quais foram seus grandes mestres, e quais suas principais referências, as que ocupam um lugar especial em sua bagagem?

Minhas principais referências sempre foram os amigos, quem acolhe e quem tá perto, quem ensina e aprende, posso citar alguns aqui. Meu mestre mentor foi DJ Primo, meu padrinho Ze Gonzales, e Mano Eibe da Lapaz me ensinou muito. Meu parceiro DJ Jeff Bass e DJ Ploc, sempre agregando. O Hermes me ensinou muito sobre breaks, Jean Villegas, Rodrigo Carreira e toda cena old school under CWB. Agora os gringos eu tenho vários prediletos e referências até hoje, como Mix Master Mike, Jazzy Jeff, Dj Craze, Bambaataa, Kool Herc, Spinna entre vários outros que não me passaram na cabeça no momento, mas com certeza vai rola muita coisa deles no nosso Radio Show.

Você é um adepto da cultura “turntablist”, e com o tempo temos visto o movimento caminhar junto com a tecnologia, com softwares como o Serato Timecode, e até mesmo softwares como o Phase, que permite que o DJ toque com um vinil sem o uso da agulha – apenas com sensores de transmissão. O que você acha dessas novas tecnologias? Você tem preferência por ser mais fiel à cultura do vinil oldschool, ou curte se aventurar por esses novos recursos?

Acredito que um bom DJ conversa com qualquer equipamento, aliás assim que eu defino um BOM  DJ. A cultura Hip Hop sempre teve como aliado os toca discos desde os primórdios, onde os loops ou drum breaks eram feitos manualmente nos LPS, assim se dava início aos freestyles e os mestres de cerimônia. Eu sempre fui adepto dos pratos girando, sou um amante dos toca discos, mas acredito que a tecnologia só facilita nosso trabalho. Sem preguiça dá para performar até nas pequenas controladoras. Sou adepto da interface há muito tempo, comecei com o Final Scratch e depois fui para a primeira placa do Serato. Hoje uso a interface direto no mixer Rane Serato, o que facilita na performance na utilização de efeitos e hot cue points. Adoro discotecar com meus discos, mas também amo performar usando as novas tecnologias, o que cair na nossa mão a gente tira uma pira.

Para você, quais foram os melhores momentos da cena Hip Hop e Trap em Curitiba, e como você analisa o contexto atual do movimento  na cidade?

Curitiba sempre foi um dos berços da cena nacional de Rap, Hip Hop, Trap entre outros, daqui saiu grandes nomes da cultura, inclusive vencedores de Grammys tais como Nave, Laudz entre outros grandes nomes que ainda fazem história. Curitiba ainda está amadurecendo a cena, a cada dia surgem novos adeptos da cultura caminhando com o momento atual. Hoje com a internet o céu é o limite, mas temos muito o que crescer ainda, principalmente como contratantes, produtores e etc. Ou seja, ainda acho que falta muita estrutura comparada a cena eletrônica, mesmo o Hip Hop sendo o som mais ouvido no mundo e que também não deixa de ser música eletrônica.

Você é uma das mentes por trás da Cambalacho, uma das festas que mais marcou a cidade de Curitiba durante mais de dez anos, recebendo nomes internacionais como Dj Rex Rider até grandes nomes da cena brasileira como Tropkillaz e 16 Toneladas, além de comandar o palco de grandes festivais como TribalTech e Festival Satelite. Quais suas melhores lembranças da Cambalacho até aqui, e como ela contribuiu para o desenvolvimento de sua carreira como artista?

A história do Cambalacho, o saudoso baile do Macaco, merece uma entrevista exclusiva. Foram anos de história, e quem sabe logo estaremos novamente nas pistas. Tive grandes oportunidades de tocar ao lado de grandes mestres como Afrika Bambaataa, Dj Craze, Dj Nelson, entre outros malucos que eu nunca imaginei dividir um palco e ainda na minha festa. A ideia do Camba sempre foi a fusão sonora seguindo os caminhos do som das ruas, dos guetos, do underground, a ideia é misturar todo mundo com o nosso jeitão. Quem viveu, dançou muito. Logo a gente aparece novamente. O Cambalacho foi meu sangue, tudo que vivi como artista eu joguei lá. Conheci grandes amigos e sacudimos as pistas mais loucas do Brasil todo. Além do que, foi o responsável pela minha evolução como artista e produtor. Logo terá uma edição do nosso programa freestyle especial com o CAMBALACHO. Aguardem.

Durante a pandemia, você começou a desenvolver um projeto musical com som de frutas e sintetizadores. Conta pra gente de onde surgiu essa ideia? Você tem planos de seguir em frente com esse projeto?

Sou fascinado pela tecnologia e pelo finger drumming, amo as máquinas de beats, como a MPC e a Maschine. A pandemia trouxe a possibilidade de experimentar. A ideia foi criar um viral, somado com as minhas primeiras experiências junto ao Touch Board, Arduino e Ableton. Acabou que tive a ideia de montar uma MPC com frutas, acabei fazendo um com bananas, o vídeo explodiu e fiz outros com melancia e frutas diversas. Logo menos eu vou lançar uns novos bem malucos. A ideia viajou o mundo e vi muito gringo imitando o role. Eis o motivo de eu usar beats de Funk pra rodar o mundo. Aproveito pra agradecer meus amigos malucos que toparam me ajudar nessa ideia doida. E lembrando que as frutas foram aproveitadas depois do uso, fizemos alguns drinks.

Estamos felizes em dar boas vindas ao seu novo programa mensal aqui no Lab do Alataj, que vai começar agora dia 7 de agosto. Como está sua expectativa para o Freestyle, e o que você está preparando para esses primeiros episódios?

Eu to mega animado, sempre acompanhei a plataforma do Alataj. A minha ideia é trazer toda essa minha bagagem para os episódios do programa. O nome Freestyle é algo que não me prende a um só estilo, e também a prática do DJ open format não se resume somente a discotecagem Pop. A ideia é passear em temas específicos que fazem parte do meu repertório musical, além de trazer convidados de outras cenas e estilos para brincarem nos estilos urbanos e etc. Tem muita coisa legal pra acontecer nos nossos sábados mensais. O primeiro episódio será um tour por esses estilos, que serão abordados mensalmente. Desde Rap, Breaks, RnB, Trip Hop, DnB, Guetto Tech, Jazzy, Boombap, Trap, Ragga, Dub, brasilidades entre outros estilos que conversam tranquilamente. Além dos sets, a gente também conversa um pouco sobre cada estilo abordado durante os programas.

E quanto ao retorno gradual às pistas de dança, está ansioso? Como você acha que vai ser essa volta em Curitiba?

Nunca fiquei tanto tempo na geladeira, não vejo a hora de começar a sacudir o povo novamente, espero que a imunização total chegue logo, porque eu gosto mesmo é de fervo na pista.

Curitiba está pronta para mostrar o que tem de melhor na cena como um todo. Que haja respeito devido aos artistas que ficaram desamparados durante quase dois anos, e também do público que nos aguarda cheio de vontade.

Por fim, finalizamos com uma clássica do Alataj:  O que a música significa para você?

Música pra mim é liberdade pura, amor e união. Um ritual mágico onde quem ouve é igual a todos por ali. A música me salvou e eu carrego esse fardo para eternidade.

A música conecta.

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