Pauline Oliveros, acordeonista e compositora americana, uma das figuras centrais nos primeiros desenvolvimentos da música eletrônica, publicou em 1970 um artigo no The New York Times intitulado And Don’t Call Them “Lady” Composers. No texto, ela questionava que tipo de autoimagem as meninas poderiam construir em um mundo que insistia em desencorajá-las a participar de atividades consideradas masculinas. Mais de meio século depois, a pergunta ainda ecoa.
O debate sobre igualdade de gênero na música eletrônica avançou muito nos últimos anos. A presença feminina nos line-ups cresceu, novas redes de apoio surgiram e coletivos dedicados a fortalecer a atuação de mulheres na indústria ganharam visibilidade. Ainda assim, quando deslocamos o olhar do palco para o estúdio — o lugar onde as ideias se transformam em música — percebemos que a disparidade continua evidente. A produção musical segue sendo um dos espaços mais masculinizados dentro do ecossistema da música eletrônica.
Esse cenário se forma muito antes da primeira faixa ser finalizada. As raízes estão em processos culturais que atravessam educação, acesso à tecnologia e estímulos recebidos desde a infância. Durante décadas, meninas foram desencorajadas a se aproximar de áreas associadas à ciência, engenharia ou eletrônica — campos que, direta ou indiretamente, compõem o universo técnico da produção musical. Enquanto meninos eram incentivados a explorar aparelhos, softwares e equipamentos, muitas meninas cresciam ouvindo que esses territórios não eram “para elas”.
Essa diferença de estímulo cria um efeito dominó que se manifesta mais tarde na formação profissional. Em cursos de produção musical, engenharia de áudio ou sound design, a proporção de mulheres ainda costuma ser significativamente menor que a de homens. Não se trata de falta de talento ou interesse, mas de um percurso que frequentemente exige mais insistência para ser iniciado.
Há também fatores práticos que pesam nessa equação. Produzir música demanda tempo, investimento financeiro e acesso a equipamentos e softwares especializados. Em uma sociedade onde mulheres ainda acumulam jornadas múltiplas — entre trabalho, estudos e responsabilidades domésticas — dedicar horas ao aprendizado técnico pode se tornar um desafio adicional. Quando se soma a isso a diferença salarial histórica entre homens e mulheres, o caminho tende a se tornar ainda mais estreito.
Além das barreiras estruturais, existe uma dimensão simbólica difícil de ignorar: o sentimento de pertencimento. Em ambientes majoritariamente masculinos, muitas produtoras relatam enfrentar questionamentos constantes sobre sua competência ou autonomia criativa. Ainda hoje, não é incomum ouvir comentários insinuando que uma produtora tem ajuda masculina na criação de suas músicas ou que sua presença em determinados espaços se deve mais à imagem do que à habilidade técnica.
Esse tipo de percepção cria um ambiente de vigilância permanente. Pequenos erros são amplificados, decisões estéticas são mais julgadas e a validação do trabalho muitas vezes precisa vir acompanhada de uma prova extra de competência. Para muitas mulheres, esse processo gera insegurança ou sensação de deslocamento dentro de um espaço que deveria ser, antes de tudo, criativo.
A situação se torna ainda mais complexa quando observamos os recortes de raça, classe e identidade de gênero. Mulheres negras, pessoas trans e artistas LGBTQIA+ frequentemente enfrentam obstáculos adicionais para acessar formação técnica, equipamentos e redes profissionais. Em um mercado que historicamente favoreceu determinados perfis sociais, a diversidade ainda encontra limites concretos para se desenvolver plenamente.
Apesar dessas dificuldades, mudanças importantes vêm acontecendo. Nos últimos anos, iniciativas voltadas à capacitação técnica de mulheres ganharam força em diferentes regiões do Brasil e do mundo. Oficinas, cursos, coletivos e plataformas de apoio têm criado espaços onde produtoras podem aprender, trocar experiências e desenvolver suas próprias identidades sonoras com mais segurança.
Essa rede de apoio tem um efeito multiplicador. Quando uma mulher ocupa o estúdio, outras passam a se enxergar ali também. A representatividade deixa de ser apenas simbólica e passa a operar como estímulo concreto para novas trajetórias. Referências femininas visíveis — seja em catálogos de gravadoras, em créditos de produção ou em projetos educacionais — ampliam a percepção de que esse território também lhes pertence.
O crescimento gradual de produtoras lançando músicas, abrindo gravadoras, ministrando cursos e ocupando funções técnicas dentro da indústria aponta para um processo de transformação em andamento. Ainda não é uma mudança completa, mas é um movimento que altera lentamente as bases do cenário.
No fim das contas, discutir a presença de mulheres no estúdio não é apenas uma questão de números ou representatividade em estatísticas. Trata-se de ampliar o campo criativo da música eletrônica, permitindo que mais experiências, referências culturais e perspectivas sonoras façam parte da construção desse universo.
A história da música eletrônica sempre foi feita por pessoas que desafiaram estruturas e abriram novos caminhos. Hoje, garantir que mais mulheres tenham acesso pleno aos meios de criação — do aprendizado técnico ao domínio do estúdio — é parte fundamental desse mesmo processo de questionamento e expansão. A transformação pode ser lenta, mas ela já está em curso. E quanto mais vozes ocuparem esse espaço, mais rica e diversa será a música que dele emerge.