Em algum momento do início de 1990, um jovem de Catford entrou num clube em Londres chamado Milk Bar e saiu de lá diferente. Matt Edwards, que anos mais tarde o mundo conheceria como Radio Slave, descreve aquela noite como uma experiência onde ele: “viu a luz”. O que ele encontrou na pista foi uma cena onde as fronteiras entre subgêneros simplesmente não existiam. House, techno, breakbeat — tudo coexistia sem conflito, movido por uma única lógica: música para dançar. Esse contato foi o que definiu tudo que viria depois.

Para entender o que aconteceu naquela noite, é preciso entender de onde Edwards vinha. Catford, no sudeste de Londres, era um bairro com uma presença antilhana significativa — ou seja, uma comunidade grande de imigrantes e descendentes do Caribe, que trouxeram consigo uma cultura musical rica em dub, reggae e soundsystems. Crescer ali nos anos 80 significava ter contato com esses sons desde cedo, além da explosão do electro em 1982. A poucos minutos de casa, lojas de discos guardavam raridades e importados que poucos tinham acesso. Edwards era um colecionador antes de ser produtor.
O primeiro disco em que gastou seu próprio dinheiro foi uma trilha sonora de James Bond — uma paixão pela franquia que, décadas depois, apareceria nas qualidades cinemáticas de projetos como Quiet Village e The Machine, seus trabalhos mais experimentais e distantes do dancefloor. “Serei sempre um entusiasta e colecionador de discos antes de qualquer coisa”, disse em entrevista à Inverted Audio. “A minha produção musical veio da frustração com o que estava disponível.”
O Milk Bar foi o ponto de virada. O que a Acid House fez naquele período inicial foi criar um espaço onde a música não precisava ser categorizada. Edwards aprendeu a ouvir dançando, não estudando. Essa lógica — música antes dos rótulos e experiência antes da teoria — atravessa toda a sua carreira e explica por que o seu trabalho soa do jeito que soa até hoje.
Em 1992, dois anos após aquela noite, Edwards já estava na cabine. Sua primeira residência como DJ foi no próprio Milk Bar — uma virada que resume bem como ele encarava a música: com comprometimento total. Uma segunda residência num clube de futebol em Aberystwyth, no País de Gales, completou sua formação nas free parties e na cultura rave britânica. Foi essa base que o levaria à residência no Ministry of Sound, e depois a Brighton, cidade onde viveu a partir de 1998 antes de se mudar definitivamente para Berlim.
Ao longo de sua trajetória como Radio Slave, Edwards construiu um catálogo que atravessa décadas e se tornou referência obrigatória na música eletrônica. Faixas como Grindhouse e Don’t Stop No Sleep entraram para o repertório permanente das pistas, consolidando seu nome como produtor. O remix de Dubfire para Grindhouse se tornou uma das reedições mais celebradas da história recente, reafirmando a força de suas composições. A compilação Fabric 48, que ele mixou, também permanece como referência até hoje.
Mas talvez a verdadeira marca de Matt Edwards na história da música eletrônica seja a Rekids. Fundada em 2006 junto com James Masters, a gravadora se tornou um dos selos mais seminais e influentes do underground global. Foi responsável por criar tendências e impulsionar diversas carreiras. Nina Kraviz, por exemplo, lançou Ghetto Kraviz pela gravadora, faixa que marcou o início de sua ascensão global. Peggy Gou também deve parte significativa de seu sucesso inicial ao apoio da Rekids.
Marcal, produtor brasileiro, viu sua carreira decolar após lançar três vezes pela RSPX, um braço da gravadora, abrindo portas que o levaram a morar na Europa e consolidar seu nome internacionalmente. Laurent Garnier, Robert Hood, Joe Claussell, Carl Craig, Kenny Larkin, Gerd Janson, Mike Banks — a lista de artistas que encontraram na Rekids um lar para suas criações é uma enciclopédia viva do underground.
Musicalmente falando, seus sets não têm pressa. Ele constrói a pista camada por camada e descreve sua abordagem como a de um designer: atenção a cada detalhe. É exatamente por isso que Tessuto, criador da Carlos Capslock, o escolheu como o primeiro nome confirmado no festival de 15 anos da festa. “Tudo que sai nesse selo você vai encontrar no meu case”, disse Tessuto sobre a Rekids. “Ele simboliza a essência artística que tem sido cada vez mais trazida à tona: menos imagem, mais música.”
A Capslock chega aos 15 anos consolidada como uma das festas mais importantes da música eletrônica brasileira. Quinze anos depois daquela primeira noite na Trackers, com 80 pessoas e uma piada como ponto de partida, ela prova que consistência e resistência são seus maiores ativos. Trazer Radio Slave para o palco no dia 19 de junho, em São Paulo, é confirmar que a festa continua exigindo e oferecendo o melhor de si mesma. Um artista que, como a própria Capslock, provou ao longo de décadas que qualidade é um compromisso.
Por fim, vale destacar que, na última quarta, a Capslock também confirmou o seu segundo de três headliners, BATU, DJ e produtor inglês influente e nome por trás da gravadora Timedance. O restante do lineup será revelado nos próximos dias, assim como o espaço que abrigará o festival.