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A música conecta

Por que Jen Cardini recusa veementemente a ideia de que DJs devem apenas tocar música, longe de assuntos políticos

Por Alan Medeiros em Notes 02.04.2026

Jennifer Cardini, DJ, produtora, fundadora da prestigiada Correspondant e curadora francesa reconhecida como uma das figuras mais respeitadas da cena eletrônica europeia nas últimas décadas, nasceu e cresceu em Mônaco, um ambiente descrito por ela como extremamente burguês e regido por regras duras. Para uma adolescente que se identificava como gay, viver em um dos menores países do mundo significava enfrentar um profundo sentimento de isolamento e de estar fora do seu lugar. Essa sensação de ser uma estranha em sua própria casa foi o que a impulsionou a buscar espaços de subversão e liberdade que não existiam em sua realidade imediata.

O momento de transformação ocorreu em 1991, em uma festa chamada Limelight, em Cannes. Aos 17 anos, Jennifer teve seu primeiro contato com a cultura rave, um evento que mudou permanentemente sua percepção de mundo ao apresentar uma multidão queer, diversa e unida por um sentimento de coletividade que ela nunca havia experimentado antes. Naquela pista de dança, cercada por uma mistura de classes sociais, raças e identidades de gênero, ela finalmente sentiu que não precisava mais se esconder.

Para Cardini, a descoberta da música eletrônica aconteceu simultaneamente ao seu processo de autodescobrimento, permitindo que ela encontrasse no clube algo que ela descreveu em entrevistas como uma “família escolhida”. Jenn defende que a essência da cultura clubber é a aceitação radical, onde todos são bem-vindos, desde minorias marginalizadas até aqueles que simplesmente não se ajustam ao padrão da sociedade. Esse ambiente seguro foi fundamental para que ela pudesse desenvolver sua voz artística com confiança, longe das pressões de seu passado em Mônaco.

Essa vivência moldou sua convicção de que a música eletrônica é inerentemente política e contracultural por natureza. Jennifer rejeita veementemente a ideia de que DJs devem apenas “tocar música” e evitar posicionamentos, lembrando que as raízes do gênero estão fincadas nas lutas das comunidades gay, latina e afro-americana. Para ela, quando as pessoas se reúnem para dançar, elas formam uma força capaz de desafiar injustiças e promover mudanças sociais reais.

A trajetória de Jennifer Cardini reafirma a pista de dança como um espaço terapêutico e uma experiência social essencial. Ela vê o ato de discotecar como uma forma de contar histórias que conectam as pessoas através da emoção, independentemente de rótulos ou gêneros musicais. Ao manter sua integridade e recusar-se a mudar seu estilo para alcançar o sucesso comercial, Jennifer continua a provar que a música eletrônica, em seu estado mais puro, é uma ferramenta de liberdade e resistência.

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