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A música conecta

Por que Ricardo Villalobos gosta de produzir faixas extremamente longas?

Por Alan Medeiros em Notes 04.05.2026

Entre arquitetura sonora, improvisação e imersão emocional, as longas faixas de Villalobos revelam uma visão de música que precisa de tempo para acontecer.

Ricardo Villalobos é amplamente reconhecido na cena por sua preferência por produções de longa minutagem, com faixas que frequentemente alcançam 10, 15 ou até 30 minutos. Para o artista, essa escolha não é um recurso técnico vazio, mas uma convicção artística profunda. Ele vê a música não como um produto meramente funcional para clubes, mas como uma atmosfera que se desdobra no tempo, priorizando a arquitetura sonora em vez de estruturas convencionais.

O cerne dessa abordagem reside na visão de Villalobos de que a música é um organismo vivo, que necessita de tempo para crescer e se desenvolver organicamente. Exemplos notáveis de sua discografia incluem Fizheuer Zieheuer, uma jornada épica de 37 minutos construída sobre um loop de metais balcânicos, ou o caso do remix para Everywhere You Go, uma jornada meditativa de quase meia hora. Essa dilatação temporal permite que ele explore texturas orgânicas e camadas complexas de ritmo, muitas vezes influenciadas pela percussão latino-americana, conectando assim suas origens chilenas ao processo criativo.

Além da estrutura rítmica, a longa duração está diretamente ligada à busca de Villalobos por um impacto emocional mais profundo. Ele utiliza o tempo estendido para evocar estados de melancolia e tristeza, por exemplo, acreditando que a música pode liberar frustrações e sentimentos que não acessamos no dia a dia. Para ele, as frequências bem separadas em composições minimalistas têm o poder de tocar sentimentos ocultos — algo que exige uma imersão que faixas curtas dificilmente proporcionariam.

Por fim, o uso de sistemas modulares analógicos em seu estúdio reforça essa estética de longa duração. Villalobos prefere a instabilidade e a imperfeição do hardware, tratando o sistema como um parceiro musical que permite improvisações e erros, resultando em um som híbrido entre conceitos estruturados e a experimentação livre. Essa filosofia também se estende às suas apresentações como DJ, onde seus famosos sets de maratona — que podem durar de 8 a 20 horas — espelham sua necessidade de criar um fluxo hipnótico e imprevisível.

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