No dia 8 de maio, o edifício Palacetes da Sé recebe a GOMELYXORDIA, festa que surge do encontro de três núcleos ativos da cena eletrônica de São Paulo: Goma Room, Elysium e Mixordia. O evento representa uma convergência de curadoria, identidade e trajetória, tensionando diferentes referências em busca de criar algo novo. A noite é construída a partir de densidade e profundidade, respeitando o passado, operando no presente e projetando futuros possíveis dentro da cultura eletrônica.
Legowelt é o headliner da festa, artista que encapsula três décadas de uma das trajetórias mais singulares da música eletrônica contemporânea. A escolha de Danny Wolfers reforça o recorte artístico do evento: propostas menos padronizadas ou óbvias. Ao seu lado, o lineup inclui Gabbs (ITA), Aninha, Vermelho, Gartzzea, o b2b entre Reizko e DJ Magal, e Landondism (Rafael Onid, Pedro Saigh e Galvin), organizados através de uma curadoria que busca equilibrar artistas com trajetórias diversas dentro da cena.
Aproveitando essa convergência de coletivos e a vinda de Legowelt ao Brasil, entenda os quatro pilares que explicam por que Danny Wolfers é o artista perfeito para uma noite que busca densidade e profundidade, como é o caso desta união calorosa de núcleos batizada de GOMELYXORDIA.
Este é o Raio X do Alataj.
O alquimista do obsoleto
Enquanto muitos produtores perseguem equipamentos analógicos de 20 mil dólares, Legowelt sempre praticou algo que ele chama de síntese agnóstica: uma recusa em hierarquizar máquinas pelo seu preço ou prestígio. Um Roland Jupiter 8 vale tanto quanto um teclado Casio de baixo custo.
O Roland JV-2080 (módulo digital dos anos 90 muitas vezes ignorado), foi utilizado por Wolfers para criar o aclamado álbum Crystal Cult 2080. Ou seja, não é que ele use máquinas baratas por fetiche ou limitação, Danny simplesmente busca identificar valor onde poucos criativos são capazes de ver.
A imperfeição como princípio criativo
Legowelt enquanto projeto, tem uma busca inscessante por um som vivo. Sua abordagem estética rejeita aquele som limpo demais da produção digital. Ele prefere o lo-fi, a saturação da fita cassete, os gravadores antigos, o que ele chama de “pó” sonoro — uma névoa que humaniza a música eletrônica. É o que diferencia seu som de um approach mais genérico.
Danny realmente usa máquinas antigas para criar texturas que soam oníricas, industriais e profundamente emocionais ao mesmo tempo. É “o futuro” construído com detritos do passado. E vejam só, três décadas depois, ele continua buscando intencionalmente esse efeito, mesmo tendo acesso a tecnologia moderna.
Identidade fragmentada através de seus mais de 40 pseudônimos
Legowelt pode ser entendido como uma rede de personalidades que permite explorar universos sonoros e visuais sem perder a força criativa principal. Com mais de 40 pseudônimos, Wolfers criou um sistema onde cada alias representa um “título” para um projeto específico — uma porta de entrada para explorar narrativas diferentes.
Quer alguns exemplos? Franz Falckenhaus traz trilhas sonoras para filmes de espionagem da Guerra Fria que nunca existiram. Gladio explora a mística da Roma Antiga. Cada um carrega intenções, falhas e histórias próprias. Enquanto produtores tradicionais constroem uma marca única e a defendem a todo custo, Wolfers construiu um cosmos onde diferentes narrativas coexistem sem competição.
Frequências como rituais e transe
Legowelt opera em uma matriz que conecta as frequências sonoras a estados de consciência, uma abordagem que vai muito além do entretenimento e aproxima-se mais de uma espécie de ritual. Projetos como Crystal Cult 2080 e Occult Oriented Crime exploram explicitamente a ideia de que frequências sonoras podem induzir estados de transe. Ele faz isso através de ritmos polifônicos do século IX, cânticos medievais e estruturas de som que acumularam séculos de história
Quando Wolfers cria uma composição, está considerando como harmônicos específicos, batidas rítmicas e texturas ressoam não apenas no ouvido, mas no sistema nervoso do ouvinte. Isso também explica por que seus lives não são performances tradicionais, mas experiências de transe coletivo. Legowelt não está tocando música para você consumir passivamente, mas sim buscando orquestrar um ritual onde as frequências sonoras e a energia coletiva convergem para criar um estado alterado compartilhado.