Slim Soledad construiu sua trajetória a partir do movimento. Nascida em Guarulhos e formada no underground de São Paulo, ela atravessou dança, DJing e atuação cultural até se consolidar como uma das figuras brasileiras mais reconhecidas nas cenas latin club e queer underground. Hoje baseada em Milão, Slim transforma esse movimento em forma de expressão, fazendo da música um território entre cidades, pistas e identidades, onde techno, baile funk e experimentação clubber aparecem como formas de afirmação e liberdade.
Esse percurso ganha sua forma mais completa em Noches Calientes De La Soledad, álbum de estreia lançado pela Headroom Records em março deste ano. Com 10 faixas, o disco é apresentado como um trabalho moldado por movimento, intimidade e política do corpo, documentando noites atravessadas por calor, repetição e liberação. Entre techno, baile funk, spoken word e texturas experimentais, o álbum organiza um universo noturno e físico, no qual faixas como JETLAG Queen, No Door, Pudor, Mapoas Only, Put4n4 e Derrama em Mim expandem diferentes camadas de trânsito, desejo, confronto e pertencimento.
Nesta entrevista ao Alataj, Slim fala a partir desse momento de consolidação, mas também de elaboração. A conversa passa pelos principais tópicos que cercam o disco e pela forma como experiências de marginalização podem ser convertidas em força artística. Para além de apresentar seu primeiro álbum, o diálogo ajuda a entender uma artista que faz da pista um espaço de luta e resistência, onde o movimento deixa de ser apenas condição de vida e passa a ser também sua forma de fazer arte. Confira nosso bate-papo na íntegra:
Olá Slim! Muito obrigado por nos atender. Seu álbum de estreia parece menos interessado em “apresentar quem você é” e mais em condensar um estado de trânsito permanente entre cidades, pistas e identidades. Em que momento você percebeu que Noches Calientes De La Soledad precisava nascer justamente desse lugar de deslocamento?
De certa forma, o álbum tem várias nuances, ele fala de experiências pessoais que acaba sendo sobre mim e são experiências que podem ser lidas de forma coletiva também, ou seja, resumidamente falando sobre o meu lifestyle e a minha locomoção como DJ internacional.
Eu fiz o álbum para me permitir sair da minha zona de conforto como produtora, experimentar mais a minha voz e dar início a uma nova era daqui pra frente. Ou seja, experimentar outras camadas dentro do meu próprio universo.
O release descreve o disco como um trabalho moldado por movimento, intimidade e política do corpo. Como essas três dimensões passaram a se cruzar na sua música de forma mais consciente?
Durante toda a minha carreira, acho que essas dimensões sempre foram muito presentes, então com o álbum eu não poderia deixar de trazê-las de novo. E sendo um corpo queer trans, acho que queria que meu projeto ressoasse com a comunidade que faço parte, que é e sempre será comunidade que me dá suporte.
Há algo muito forte na forma como o álbum junta techno, baile funk, spoken word e texturas mais experimentais sem parecer uma colagem de referências. O que amarra esse repertório para você?
O repertório do projeto é literalmente a noite como tema central, houve um trabalho de pesquisa de artistas que me inspiraram muito durante essa minha trajetória, como Noporn ou até mesmo a Jota Mombaça que está presente em um dos feats.
Mas resumidamente, quis trazer esse brilho e essas memórias de noites maravilhosas que tive durante esse tempo de carreira. Então o álbum é para mim também uma forma de marcar, coisas que não quero esquecer e de coisas que eu preciso escutar também, com orgulho.
Em No Door, com Jota Mombaça, existe uma ideia muito forte de espaço sem saída, onde voz, escuta e corpo começam a se fundir. O que essa faixa organiza conceitualmente dentro do álbum?
Essa faixa acabou saindo de uma residência artística que a Jota me convidou para fazer parte, durante a pandemia. A faixa era bem crua, bem experimental, pois é uma poesia da Jota que ela colocou nesse ‘podcast residência’ que fizemos. Desde do começo eu via muito potencial na poesia da Jota e com o projeto, assim me veio a ideia: por que não transformar em música?
Ela é uma faixa que fala muito sobre existência. Ela pode ser vista ou traduzida como uma brisa de estar muito louca e se ver perdida dentro de um lugar sem saída, mas é mesmo uma faixa que se faz questionar sobre a vida e corpos E como a temática do álbum é a noite, queria trazer ela nesse lugar de questionamento e de novo lembrar que a noite pode ser efêmera dentro de suas peculiaridades.
O disco parece trabalhar desejo, calor, repetição e exposição sem transformar isso em caricatura ou excesso performático. Como você pensa o erotismo e a fisicalidade na música sem perder densidade?
A densidade está justamente no lugar onde o erotismo deixa de ser só estética e vira linguagem. Pra mim, desejo, calor e fisicalidade não são excessos, são formas de acessar camadas mais profundas, quase intuitivas, do corpo e da mente.
Eu trabalho muito a partir do mistério, da repetição, dessa tensão que não se resolve totalmente. Isso cria um espaço onde o ouvinte não consome só uma imagem ou uma performance, mas entra num estado, numa atmosfera.
Sua história com vogue, dança contemporânea e pista aparece na sua bio como algo estrutural. Em que medida seu pensamento como dançarina ainda organiza a forma como você constrói as faixas?
Música, dança, arte, moda para mim são coisas que estão todas conectadas. Eu acho que estruturalmente a dança ajudou muito com contagem de som, perceber os elementos entrando e me fez ter um ótimo ouvido, para construir o que eu tenho feito. E graças a dançar eu tive mais interesse de não apenas dançar, mas de criar as as faixas que eu queria ouvir e de como eu queria me mover.
A sua atuação com o Chernobyl Coletivo ajudou a transformar a marginalização em força e a abrir espaço para artistas LGBTQIAPN+ no Brasil. O que dessa experiência ainda permanece como base ética do que você produz hoje?
Essas experiências eu trago basicamente em grande parte do meu trabalho. Tenho criado algo que ressoa com a minha comunidade e acho que não poderia ser diferente, porque é o que tem me dado força para continuar até hoje. Então sou muito grata a minha comunidade e não conseguiria me ver fazendo diferente. Acho que uma mão lava a outra e que nada se constrói sozinha. Eu precisei e preciso de referências e de pessoas com experiências similares às minhas para continuar tendo horizonte.
O álbum termina com a pista como casa, mas também com a sensação de que casa, no seu caso, já não é um lugar fixo. Hoje, o que significa encontrar abrigo na música?
Encontrar abrigo na música foi algo que me deu e tem me dado tanta felicidade, acho que talvez durante todo o processo de me permitir mergulhar na música, não imaginava que seria algo que traria tanto prazer, então pra mim significa aconchego.
Para finalizar, uma pergunta clássica do Alataj. O que a música representa em sua vida?
Significa encontro, amor e celebração.