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A música conecta

Os desafios e a beleza de ser uma artista mãe

Por Elena Beatriz em Artigos 08.05.2026

A carreira artística sempre exigiu uma relação intensa entre vida pessoal e trabalho. Para profissionais da música eletrônica, essa relação se torna ainda mais complexa porque o ofício raramente cabe em uma rotina estável. A noite, as viagens, os convites de última hora, os períodos de baixa remuneração, a necessidade de investir, produzir conteúdo e manter presença pública fazem com que a construção de uma trajetória dependa de uma disponibilidade difícil de sustentar a todo tempo.

Para mulheres, essa disponibilidade nunca foi cobrada apenas no campo profissional. A artista mulher ainda percorre um mercado que avalia seu trabalho junto a uma série de expectativas sobre corpo, imagem, juventude, desejo e acessibilidade. A objetificação não aparece somente em situações explícitas de sexualização, mas também na forma como a maioria das presenças femininas são valorizadas quando servem a uma estética específica da cena. A mulher precisa provar competência enquanto também administra a maneira como é vista e desejada para que seja, enfim, qualificada, julgada ou descartada pela cena.

Quando a maternidade entra nessa equação, ela mexe diretamente com essa ideia. A artista mãe confronta a ideia de que uma mulher precisa estar sempre disponível, visualmente alinhada, socialmente acessível e pronta para responder ao ritmo do mercado. A maternidade reorganiza a vida de forma que muda a rotina, a percepção sobre riscos, o planejamento financeiro e o tempo possível para um ócio criativo — se é que ele existe nesse caso. Uma apresentação não começa mais no momento em que a artista chega ao evento e passa por uma série de decisões silenciosa como saber com quem os filhos vão ficar, quanto a logística custará, como será o retorno para casa, e como encaixar estudo, cuidado, descanso e trabalho em uma rotina que já nasceu sobrecarregada.

Conversamos com algumas artistas que também são mães, e esse ponto aparece com bastante nitidez. A maternidade não surgiu como uma história linear de renúncia ou superação, mas como uma experiência que reorganiza o mundo ao redor da carreira. Uma das artistas descreveu a sensação de estar sempre empilhando pratos, tentando sustentar, ao mesmo tempo, a maternidade, a vida financeira, a criação dos filhos, a própria saúde emocional e o desejo de seguir sendo quem era antes de se tornar mãe. A metáfora ajuda a entender que o desafio não está apenas em sustentar muitas funções ao mesmo tempo, mas em lidar com uma rotina onde a maior parte das responsabilidades e adaptações para seguir trabalhando ainda recai sobre mulheres. 

Ter uma rede de apoio, nesse sentido, é uma condição real para seguir em atividade. Muitas artistas só conseguem retomar projetos porque há alguém sustentando parte da rotina familiar. E, na maior parte dos casos, essa rede é formada por outras mulheres: mães, avós, irmãs, amigas, sogras, babás, professoras, vizinhas. Existe uma beleza nesses vínculos, mas também uma contradição importante. O cuidado segue sendo redistribuído entre mulheres, enquanto o mercado, as famílias e a própria cena tratam essa estrutura como se fosse uma responsabilidade privada.

Essa diferença fica evidente quando comparamos a experiência de mães e pais na música. A paternidade raramente coloca a carreira de um homem sob suspeita. Um artista que se torna pai não costuma ser visto, automaticamente, como menos ambicioso, menos disponível ou menos capaz de trabalhar. Em muitos casos, há alguém garantindo que a rotina doméstica continue funcionando para que ele siga sua agenda. Com mulheres, a maternidade costuma provocar outro tipo de percepção, pois ela, sob uma visão equivocada, deixa de ser um produto rentável. Mesmo quando ninguém afirma isso de maneira direta, os convites podem diminuir, as oportunidades podem esfriar e a artista passa a sentir que precisa provar novamente seu comprometimento, sob uma suposição sobre disponibilidade que ninguém se deu ao trabalho de confirmar.

A essas cobranças se soma a culpa. Ela pode surgir ao aceitar uma data e deixar a criança aos cuidados de outra pessoa, ao recusar um convite por não conseguir reorganizar a casa, ao investir em equipamento, imagem ou formação enquanto outras despesas familiares continuam existindo, ou ao desejar tempo próprio em uma vida que parece exigir entrega constante. Essa sensação não nasce de uma expectativa social que ainda associa a boa maternidade à presença total e uma imagem forte e incansável. Para uma artista, cuja carreira depende de investimento na própria figura, essa expectativa cria um conflito íntimo difícil de resolver: seguir trabalhando pode parecer que está faltando com o outro; parar de seguir o próprio caminho pode parecer perda de si.

Pode parecer complexo que o peso e a libertação estejam atrelados, mas geralmente é aí que mora a força que vem de uma mulher. Nesse sentido, a maternidade também pode intensificar a relação com a música. Para algumas artistas, ela se torna uma válvula de escape no sentido mais profundo, tornando-se um espaço onde ainda é possível se reconhecer para além das demandas de cuidado. Em meio à rotina fragmentada e à responsabilidade de sustentar outras vidas, tocar, pesquisar, criar ou estar perto da pista pode funcionar como uma forma de lembrar que a vida não foi inteiramente absorvida pela função materna. Pelo contrário, pode servir de combustível para retomar um projeto com mais consciência.

Além disso, existe um efeito importante nessa presença. Quando uma criança cresce vendo a mãe trabalhar com música, mexer em equipamentos, produzir eventos, empreender, estudar ou sair para tocar, ela passa a conviver com uma referência concreta de mulher em ação. É possível inspirar outras artistas no futuro e mostrar, dentro de casa, que uma mulher pode ocupar múltiplos papéis sem precisar se reduzir a nenhum deles. 

Para um filho, ver a mãe tomando decisões e sustentando uma vida artística amplia a noção do que é possível. Para a cena, reconhecer essas artistas também significa ampliar as referências disponíveis para as próximas gerações. Para outras mulheres, pode abrir uma referência de que a criação, o empreendedorismo e o cuidado podem coexistir, desde que essa coexistência não seja tratada como responsabilidade individual ou prova de heroísmo. 

No fim, romantizar a artista mãe é uma forma de não encarar o problema. Existe beleza em seguir sendo criativa depois da maternidade, mas essa beleza não está em suportar tudo em silêncio, nem em transformar sobrecarga em virtude. Está na tentativa cotidiana de continuar existindo por inteiro quando a vida passa a exigir presença em muitas direções ao mesmo tempo; na estratégia para que a música continue existindo dentro de uma vida que exige outras formas de manutenção.

Se uma cena deseja falar de diversidade, renovação e futuro, precisa olhar com mais seriedade para as condições que oferece às mulheres que são mães. A presença de artistas mães em lineups, campanhas, entrevistas, selos, eventos e espaços de decisão não deveria aparecer como exceção inspiradora, nem como pauta ocasional. Ela faz parte da realidade da música. São mulheres que pesquisam, tocam, produzem, ensinam, empreendem, formam público e movimentam cenas enquanto sustentam uma vida que raramente cabe no modelo idealizado de carreira artística.  

Muitas mulheres seguem criando porque encontram, na arte, uma forma de continuar se reconhecendo, mesmo quando a vida parece pedir para que elas se dividam em mil partes. A beleza está no movimento difícil e honesto de amadurecer sem desaparecer. Contudo, uma cena mais consciente não pode depender apenas da força grandiosa dessas artistas. É necessário e responsável construir condições para que elas não precisem provar, a cada momento, que têm direito de estar ali.

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