O passado está em alta, e sim, tem a ver com o isolamento, mas não só ele. Desde o ano passado, existe uma crescente de lançamentos de reedições, remixes e regravações, mas esse movimento vem sendo construído ao longo da última década. Se os anos 2010 trouxeram novos desafios em diferentes aspectos, parece que ouvir uma música favorita pode sim trazer conforto em épocas conflituosas. “Estamos vivendo tempos sombrios, com crises a todo vapor no mundo todo – políticas, econômicas, ambientais e sociais. A palavra ‘nostalgia’ é definida como uma ‘busca sentimental ou sentimento afetuoso do passado’. E em tempos de crise, a nostalgia pode ajudar as pessoas a enfrentar uma situação e encontrar paz”, avalia Luiza Loyola, especialista de tendências na WGSN, empresa líder em tendências de comportamento e consumo.
Somado a isso, os downloads das plataformas de streaming e redes sociais crescem com a necessidade das relações se tornarem cada vez mais digitais, atingindo da geração Z aos baby boomers. De olho nas transformações que acontecem dentro das casas, o mercado não demora para dar uma resposta à altura. Para Loyola, existe uma conjunção de fatores que vem transformando a maneira como consumimos música: “Do metaverso em maturação à ascensão do TikTok, a indústria musical está entrando em uma nova era, criando oportunidades de marketing lucrativas para marcas e artistas no processo”.
Mas em geral, as pessoas estão mais interessadas em escutar músicas de décadas passadas? De acordo com uma pesquisa do Spotify, publicada no primeiro semestre de 2020, a resposta é sim. Inclusive, notam que as playlists batizadas por décadas cresceram 54%, e que músicas como Take on Me, do a-ha, e Mambo No. 5 (A Little Bit of…), do Lou Bega, foram as mais requisitadas em listas focadas nos anos 1980 e 1990, respectivamente. “Música, assim como o olfato, tem o poder de acessar memórias nostálgicas. Por exemplo, todo mundo lembra a música que tocava durante o primeiro beijo”, diz David DiSalvo, pesquisador de ciência comportamental e autor de livros sobre o assunto.
No começo do mês de setembro, o ABBA anunciou um novo disco, e lançou duas músicas em 40 anos. O grupo formado por Benny Andersson, Björn Ulvaeus, Agnetha Fältskog e Anni-Frid “Frida”Lyngstad ainda apresentou uma proposta de show com avatar. Entre as diversas respostas emocionadas ao retorno do quarteto, uma usuária do Twitter escreveu: “obrigada ABBA por salvar 2021”. Nos últimos dois anos, seja na música, no cinema ou na literatura, nunca se questionou tanto sobre a essencialidade das artes em momentos adversos.
Rotina musical na prática
Quando Eli Iwasa foi convidada para tocar no Festival Não Existe, realizado em maio deste ano, a DJ sabia que queria fazer uma curadoria diferente do que estava habituada nos tempos de pré-pandemia, então revisitou o seu acervo de Pós-Punk para a ocasião. “Foi emocionante me preparar para esse set porque muitos artistas são pilares da minha formação musical”, comentou em entrevista ao Alataj. Munida de músicas de nomes como Dead Can Dance, Cocteau Twins, This Mortal Coil, Sisters of Mercy, Gang of Four, A Certain Ratio, Depeche Mode, Fad Gadget, Cabaret Voltaire, sentiu como se estivesse em uma máquina do tempo.
“Durante todo este ano, minha preferência recaiu sobre músicas afetivas, que evocam memórias. Resgatei muitas bandas e artistas que ouvia na adolescência, que trazem boas lembranças e sensações”, divide a DJ. Sem a expectativa da pista de dança, encontrou mais liberdade para percorrer caminhos diferentes. Entre as suas décadas musicais favoritas estão os anos 1970 e 1980 – Disco, Punk, Post-Punk, Synthpop. “Por mais que sempre toquei o que gosto, me preocupava com as expectativas das pessoas sobre o meu trabalho, ou que precisava encontrar as tracks mais eficientes nos sets”, explica.
Atualmente, Eli segue vasculhando a sua coleção de discos para sets especiais ou para apresentar no seu programa online na Rádio Frida. Ao passo que as apresentações presenciais lentamente retornam, ela sente um novo frio na barriga: “Depois de tanto tempo desconectada da pista, é quase como se eu estivesse tateando no escuro para encontrar um caminho. Meus sets ainda misturam Techno, House, Indie, e passeiam por tantos estilos diferentes, porque estou tentando ler o público. Tem sido divertido, me tira da zona de conforto, me desafia – e eu amo sentir isso”.
No caso da DJ e técnica de som Gabi Bahia, o momento de pausa nas gigs trouxe amadurecimento e introspecção. “Me deu um respiro para me identificar enquanto DJ. Antes eu não tinha esse tempo para ver quem eu era como artista, então isso se refletiu nas pesquisas e na forma como eu procuro música”, garante. Fã confessa da música produzida na década de 1980, se viu retornando às suas referências, das clássicas estilo Antena 1, até o Rock de Jethro Tull, Cream, Bad Company e T-Rex.
Com mais tempo para pesquisar contextos e as histórias por trás da música, acabou se apaixonando mais uma vez pelos artistas que a fizeram buscar ser DJ. “Final de semana precisava ir atrás de gig. A quarentena me deu tempo para pensar no que eu quero transmitir e em quais músicas me identifico mais, além de me aprofundar nos artistas e achar coisas novas”, explica Gabi sobre o processo. Nos próximos meses, deve apresentar novidades com o coletivo Bailearic, focado em Disco House e Nu Disco, além de se dedicar ao coletivo Elas Que Lutem.
A mudança da noite para o dia também trouxe transformações na rotina da DJ Gabriela Pensanuvem. “Tive o privilégio de fazer quarentena e trabalhar em casa. Foi uma oportunidade de acessar a minha coleção de uma perspectiva mais íntima”, diz. Na sua lista: discos da Tetê Spindola, Naná Vasconcellos, o Água, da Fafá de Belém, Mel, da Maria Bethânia, e até mesmo de música instrumental, com foco nos japoneses – “foi um resgate importante fora da madrugada da pista”.
Sem as gigs, ela também viu a possibilidade de garimpar diminuir, mas recebeu doações de coleções de amigos e familiares, que estavam deixando a cidade. “Vou ser sincera, fiquei e ainda estou mal de grana, não tem nenhum tipo de apoio ou resguardo, ainda mais para DJ. Parei de seguir a maioria das páginas e sites, começou a ficar triste”, pontua. O jeito foi vasculhar o acervo e entender novas dinâmicas de criação para se manter em movimento.
“Mudou o jeito como eu discordei porque eu passei a prestar muito mais atenção em todas as letras. Uma atenção diferente para cada música. A gente fica sensibilizada, pelo menos como DJ, para passar ideias e mensagens mais reflexivas e acalentadoras, de alguma forma”, comenta. Inclusive, um jeito que encontrou para apresentar essa pesquisa foi criar o programa Voz e Vento, na plataforma Twitch.
Aos poucos, Gabriela vê os projetos voltando com apresentações presenciais em locais abertos ou eventos diurnos. Ela também começou um novo projeto com a companheira, a beatmaker Raiani Synara, onde juntas vão misturar cortes de vinil com outros instrumentos. Entretanto, não está ansiosa para buscar o ritmo do passado: “Honestamente, espero ainda estar de marcha lenta até o começo do ano que vem, por enquanto estou discotecando em coisas menores, mais caseiras, para também tentar segurar a pandemia com respeito por tudo que aconteceu”.
A música conecta.