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A música conecta

Alataj Web Conference | Tawanne Villarim: Músicas que caíram na cultura Pop com influências regionais

Que a música Pop é o estilo mais democrático, nós sabemos. O Pop (popular) é aquela música que tem um pouco de tudo. Musicalmente falando, esse estilo tem como característica ser uma espécie de caldeirão de misturas de gêneros, incorporando diversos elementos musicais. É capaz de agradar uma legião de pessoas, e, geralmente, contém uma estrutura de mais fácil memorização. 

No sentido etimológico, o termo “popular” implica algo que se relaciona com o povo, que convém ao povo, feito para o povo, amado pelo povo, agradável ao povo, devotado ao povo. Percebeu a familiaridade com o estilo musical, né? 

Por sua capilaridade na sociedade, grande circulação e consumo, o Pop é capaz de traduzir informações de distintos campos da cultura, de tempos e espaços próximos ou distantes. O gênero caminha pelo passado, presente e futuro, evidenciando artistas capazes de conversar com toda sua contemporaneidade e fazendo-os alcançar a indústria musical de uma forma nunca vista antes.

O futuro do Pop é o agora! Isso porque é um estilo que avança e se transforma muito rápido. Mas para entendermos toda remodelação do gênero, é preciso compreender seu desenvolvimento até ele virar o som da massa.

Senta que lá vem história

Estamos perante um gênero musical bastante abrangente, que engloba todas as correntes de música dita comercial das últimas décadas, mesmo as aparentemente mais díspares, desde o Rhythm & Blues ao Rock N’Roll, passando pelo Rock, o Rap ou mesmo a House Music. 

Com forte influência dos movimentos musicais como o Jazz, o Soul e Country e outros, a música Pop foi se desenvolvendo a partir dos anos 30, quando o cenário musical buscava algo diferente. À medida que os anos iam se passando e a tecnologia ia avançando, a música Pop se desenhava cada vez mais. Mas somente nos anos 50 é que ela se firmou como gênero de música. 

A partir daquela década, a música Pop se difundiu de uma forma que permitiu que surgissem diversos artistas e muitos movimentos musicais ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Desde então veio conquistando um enorme legado e com muitos seguidores, se tornando um movimento tão grande que influenciou pessoas em todos os sentidos de suas vidas. As artistas são vistas como verdadeiras estrelas e divas, inspiram estilos de vida, modo de como se vestir e até mesmo de falar. 

O estilo musical despertou nos Estados Unidos e trouxe uma estrutura que causou euforia. Além disso, artistas passaram a fazer shows diferentes com caracterizações próprias, danças e outros recursos que conquistaram um grande público. 

No Brasil, o Pop surgiu com o tropicalismo, um movimento jovem que influenciou gerações em diversas formas. Os anos 70 foram essenciais para a cultura Pop crescer aqui no Brasil. Rita Lee com os Mutantes, os excêntricos Secos e Molhados e Raul Seixas, foram alguns nomes que trouxeram e recriaram este cenário para o Brasil. Os anos 80 podem ser considerados o auge do Pop Rock brasileiro, com o surgimento de diversas bandas que fazem sucesso até hoje, como Paralamas do Sucesso, Kid de Abelha, Lulu Santos, Barão Vermelho, entre tantos outros que marcaram época e entraram para a história da nossa música. 

Nos anos 2000 em diante, o Pop passou por uma grande mudança e inovação. Foi na virada do século que o gênero começou a se popularizar, sendo possível observar isso em um dos primeiros hits da cantora Anitta no ano de 2012. 

Um pouco depois, a cena do Pop no país ganhou mais diversidade e representatividade LGBTQIA+, incorporando novos elementos musicais brasileiros através da Banda Uó, que evidenciou o Tecnobrega para todo o Brasil no ano de 2012. 

Para o jornalista e DJ recifense Patrick Torquato, essa era da Banda Uó foi importantíssima para a formação do cenário atual diverso do Pop: “…grupos como a Banda Uó conseguiram fazer o público LGBTQIA+, sobretudo, se permitir a ouvir e a construir uma iconografia de divas do Pop e do Brasil. Até então, o que era conhecido como música Pop no país era Jota Quest, Capital Inicial e clones de artistas gringos que representava essa música Pop. Esse ciclo da Banda fez com que a juventude LGBTQIA+ se envolvesse para consumir ícones e divas locais”.

Em 2015 chegou a vez da Pabllo Vittar entrar na maré do Pop e faiscar todo o mercado, fazendo parcerias com artistas mundiais, revelando outras sonoridades brasileiras, como o Forró no início de um feat com Lauren Jauregui, neste ano.

Falando em parcerias internacionais, Anitta não ficou pra trás. A cantora lançou uma parceria com a rainha do Pop mundial, Madonna, em 2019.

O gênero chiclete 

Não sei se você já percebeu, mas a estrutura da música Pop é mais universal, não é muito experimental, quase que uma fórmula em que os produtores e compositores seguem, justamente porque é o que dá certo, o que faz sucesso e o que toca na rádio. Essas músicas têm uma estrutura de verso e refrão, verso e refrão, ponte e refrão. Tem algumas variações dentro disso, mas sempre terá verso e refrão. O refrão normalmente é grudento, difícil de esquecer, com palavras repetidas. 

Os instrumentos mais comuns do Pop são guitarra, baixo, bateria e obviamente o vocal. Esses são os mais usados. Como falei, o Pop é universal, sendo assim, mais acessível, então ele também vai usar instrumentos mais acessíveis e populares. Caso seja utilizado um instrumento menos comum, a música já não fica tão “acessível” para a população. Inclusive, justamente pelas suas repetições na estrutura e instrumentos, pessoas criticam a música Pop por serem parecidas. 

O Pop e suas influências regionais

Antes de falar sobre esse tópico, gostaria de enfatizar que a palavra regional, neste caso, não tem o objetivo de diminuir os gêneros do Nordeste do Brasil. Isso porque, em um papo com Torquato sobre o tema, concluímos que é necessário ter atenção à palavra e seu uso: “O conceito lógico do Pop, de música de alto consumo, de música que alcança um grande público, é de certa forma distorcido pra gente no Brasil e, principalmente, pra gente do Nordeste. Se construiu tudo ao redor dos conceitos estéticos que vinham da Europa e dos Estados Unidos, então, tendeu-se a se entender que música Pop é um jeito, um estilo, uma técnica de fazer, e que isso de certa forma oprime nossas linguagens. Então é importante a gente levar em consideração que essa terminologia regional pode ser opressora. Na verdade, ela prende a gente a um entendimento que nossa música é menor por ela ser regional”.

A grandeza e a diversidade musical do Brasil faz com que o Pop brasileiro seja dominante, inovador e o mais comercializado em todo o mundo. O ritmo agrega todos os gêneros oriundos do país, como o Forró, Brega-Funk, Tecnobrega, gêneros que citarei com alguns exemplos de artistas nordestinos.

Luisa e Os Alquimistas 

A banda surgiu na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, no ano de 2014 e consegue trazer influências regionais de sua cidade e de todo o Nordeste do Brasil.

Duda Beat

Com o seu primeiro álbum chamado Sinto Muito, lançado em 2018, a recifense Duda Beat já deixou claro suas origens de produções. Mas foi em seu segundo álbum, Te Amo Lá Fora, que a compositora revolucionou. Apresentando uma roupagem inovadora, contendo elementos musicais nordestinos, entrelaçados com o Pop e a música eletrônica, a cantora reforça a pluralidade musical na cena Pop do Brasil.

Em uma entrevista no Programa Conversa com Bial, Duda explica um pouco do seu feat com Cila do Coco, matriarca da cultura popular de Pernambuco, na música Tu e Eu do seu segundo álbum. 

Pabllo Vittar

O nordeste sempre esteve presente na eclética obra de Pabllo Vittar. A artista maranhense faz questão de inserir referências artísticas e estéticas da região em seus trabalhos, fugindo do estereótipo reducionistas e, ao contrário, dando visibilidade nacional a movimentos que fazem a cultura dos noves estado pulsarem, como o Forró em seu hit Seu Crime foi me Amar, de 2018. Em entrevista ao Altas Horas (programa da Globo), Pabllo comenta sobre: “exploramos esse lado legal de estar apaixonada e estar no Forró porque sou do Nordeste e queria trazer isso bem forte no clipe. Amo quando gravo algum clipe com o meu ponto de vista sobre a música. Atuação, coreografia e looks incríveis”, define a cantora.

Mas essa proposta artística nunca esteve tão evidente e consolidada quanto em Batidão Tropical, seu quarto álbum de estúdio. Nas faixas, é nítido a presença do Tecnobrega, o Forró Romântico, o Brega e Pop que se reuniram em uma produção com três músicas inéditas e seis regravações que influenciaram a carreira de Vittar.

Eu não poderia deixar de citar o remix Fun Tonight que a Pabllo fez para Lady Gaga com bases do Arrocha e um toque de Forró. A faixa faz parte do álbum Dawn of Chromatica, com remixes que também incluem Charli XCX, Blackpink, Rina Sawayama, Bree Runway e Arca.

O remix saiu da pista do House Music e foi parar nos bailes do Nordeste do Brasil. O site Pitchfork, conhecido por ser bem rigoroso em suas críticas de álbuns e músicas, publicou recentemente uma resenha sobre esse álbum de remixes de Gaga. A nota total foi boa: um respeitável, mas modesto, 6.7. No entanto, na parte que fala de Fun Tonight, eles elogiam.

“A alegre interpretação de Fun Tonight por Pabllo Vittar convoca os primeiros flertes de Gaga com a música latina junto com uma linha de sax digna de Clarence Clemons; também faz uma das canções mais tristes da memória recente soar como uma feira de rua brasileira ensolarada, uma dissonância atraente”, escreveu.

Aqui, um vídeo do portal G1 mostra os produtores explicando os bastidores da música e o motivo de sempre evidenciar sonoridades do Nordeste. 

Tiziu

A banda recifense tem o objetivo de enaltecer a questão do empoderamento do povo preto, sendo assim, traz a vertente do Brega Funk como elemento da música Pop, como em seu single Negralizando. Confira e sinta-se em Recife! 

Para o produtor, WR do Beat, que, inclusive, produziu o último single da banda, afirma que essa prática anda sendo bem comum entre os artistas recifenses, como foi o caso do duo.

“Eu costumo trazer o regionalismo através do Brega Funk atrelado a identidade e gosto do artista. Com o pessoal da Tiziu, não foi diferente. Peguei a realidade deles, ou seja, o que eles queriam mostrar – empoderamento negro – e botei pra pista. Por isso a utilização do Pop junto com o Brega Funk”, comenta o produtor, que é beatmaker de três músicas da banda e conhecido pela sua experiência com o Brega Funk, e ainda sendo referência dos MC’s da cidade.

Diante desses exemplos, é possível perceber que existe uma construção de uma música Pop no Brasil hoje com a cara do país. A gente tem essa riqueza, essa potência de fazer uma música Pop que vem com esse sotaque dessas localidades, e que o grande público tá consumindo. 

“A cena Pop de agora anda ensinando ao restante do público a dar valor a esses artistas, porque sempre se tratou, se olhou para a música Pop como algo menor, ruim, pobre, vazia, e não é. Ela é rica em detalhes, referências, tem um poder de força política muito grande. Ela precisa ser usada com um propósito e cada vez mais a gente tá vendo artistas brasileiros fazerem uma música Pop a partir dessas suas referências e com muito propósito”, comenta Patrick sobre o gênero nos dias de hoje. 

O futuro do Pop é o agora, sendo assim, permita-se viver! 

A música conecta.

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