O amadurecimento de um artista é frequentemente visto como um acúmulo de experiências ou técnicas, mas a filosofia do francês Gilbert Simondon nos convida a olhar para esse processo como uma concretização. Para Simondon, a concretização não é um estado final estático, mas um “motor” que impulsiona a individuação, ou seja, o processo de tornar-se quem se é. Na jornada artística, isso significa que o crescimento não é apenas sobre “aprender mais”, mas sobre como os elementos dispersos da criação começam a convergir para uma unidade essencial e autossuficiente.
No início da carreira, o artista opera no que Simondon chamaria de estado “abstrato”. Nesse estágio, o trabalho é predominantemente aditivo: o artista soma influências, utiliza ferramentas de forma externa e segue manuais ou fórmulas sem uma integração profunda. É como um motor básico onde cada peça cumpre apenas uma função isolada; no DJ iniciante, a técnica, a sensibilidade e o equipamento ainda são domínios separados que não se comunicam plenamente, resultando em uma obra que muitas vezes soa como um “colado” de referências externas.
A verdadeira virada de chave ocorre quando o artista inicia o processo de concretização. Estudos relacionados a obra de Gilbert, indicam que um objeto técnico torna-se concreto quando seus componentes passam a desempenhar múltiplas funções simultâneas, eliminando o desperdício e a redundância. No paralelo artístico, isso representa o momento em que a técnica deixa de ser um esforço consciente e se torna invisível, fundindo-se à expressão. O amadurecimento é, portanto, essa transição de um sistema fragmentado para um sistema onde cada escolha serve a múltiplos propósitos, criando uma identidade artística que parece se sustentar sozinha.
Esse processo depende do que Simondon chama de transdução: a capacidade de resolver tensões entre domínios diferentes para criar algo novo. O artista maduro é aquele que consegue mediar a disparidade entre sua visão interna e as limitações do seu ambiente externo (seja uma pista lotada ou vazia, um problema técnico, um horário desafiador). Ao resolver essa tensão, ele não apenas produz uma obra, mas amadurece o seu próprio modo de existência, transformando o conflito criativo em uma resposta estável capaz de transmitir significado para quem está acompanhando a performance.
Nesse estágio de maturidade, o artista e suas ferramentas deixam de ser sujeito e objeto para se tornarem um conjunto técnico-humano. Não há mais uma separação clara entre “o DJ” e “a CDJ”, ou “o pintor” e “o pincel”; a operação torna-se um fluxo de compatibilidade bem-sucedida. O amadurecimento, sob a ótica simondoniana, é a conquista dessa simbiose, onde o artista habita o objeto técnico e o objeto técnico estende a sensibilidade do artista, formando uma unidade funcional indivisível.
Em última análise, a jornada de um artista explicada pela concretização nos ensina que evoluir não é tornar-se mais complexo, mas sim mais essencial. Conforme o artista avança, ele retira o que é puramente aditivo e foca na fórmula de sua própria identidade. O amadurecimento artístico é, portanto, um movimento contínuo em direção à transparência técnica e à densidade expressiva, onde a obra final deixa de ser um conjunto de partes para se tornar um organismo vivo e autossuficiente.