Editorial

A chegada da era Dolby Atmos e seus possíveis reflexos na mixagem

Enquanto a tecnologia avança, a busca por uma experiência cada vez mais imersiva e realista, se tornou um objetivo pontual ao longo desses últimos anos. A linha tênue que separa o virtual da realidade, tem sido confrontada a partir de inovações que pretendem romper o muro que divide essas experiências, trazendo uma profundidade maior aos sentidos, especialmente no que tange ao audiovisual. Entre as mais diversas portas de entrada que a tecnologia nos oferece para amplificar as sensações de imersão, o Dolby Atmos® é o que promete ser a revolução, no quesito experiência sonora, e pretende transformar o modo como consumimos músicas em nosso dia-dia, e nas pistas de dança.

Em idas ao cinema, você provavelmente já deve ter percebido, o quão poderoso tem sido o grau de audio-imersão que as grandes salas tem promovido ao telespectador. Muitas vezes nos assustamos com tamanha fidelidade aos detalhes, quando uma gota de água parece ter caído ao seu lado, porém nada mais era do que um efeito especial do filme. É justamente pensando nesse grau de impressão real das diversas camadas de áudio, que a Dolby® inovou em sua busca pela promoção de sons atmosféricos – daí vem o nome Atmos.

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O som, que em geral conta com dois canais conhecidos também como estéreo, agora pode contar com um sistema 11.1.10 para home-theater e para cinema 7.1.2 com até 128 caixas de som e com 128 objetos. A tecnologia da Dolby Atmos® move o som ao seu redor, que ao invés de ficar restrito a apenas alguns canais, pode ser precisamente instalado e movimentado em um espaço tridimensional. Através de um dimensão aérea que confere uma nova sensação de altura e espaço, o Dolby Atmos® cria uma atmosfera de áudio completa que imprime diversos sons como se fossem ao vivo. Pensando em sentido prático, a experiência estéreo permite a percepção de objetos vindo da esquerda, centro e direita. Já o áudio imersivo introduz o conceito tridimensional do som, onde se identificam os sons vindos por cima, por baixo, por todas as direções, sem limitações – seja no seu fone de ouvido, home theater, soundbar ou em um estúdio profissional. Com o áudio imersivo, a sensação de mundo plano, evolui para uma sensação de espaço esférico.

E a inovação não chegou apenas paras as salas de cinema e teatros. Claro que a música eletrônica, que por si só já vem procurando imprimir uma fidelidade imersiva através de seus variados sub-gêneros, também vem experimentando esse novo tom tecnológico. Em Londres, a Ministry of Sound foi a primeira boate do mundo a ser equipada com o sistema Dolby Atmos, com 64 autofalantes, cada um pulsando com batidas que foram passadas pela Unidade de Renderização e Masterização Atmos (RMU), exigida pela Dolby.

Aqui no Brasil, o estúdio paulistano ANZ Immersive Audio – comandado pelos engenheiros de áudio André Zabeu e Clement Zular – são os primeiros a trazer a experiência Dolby Atmos e Dolby Atmos DJ, com um sistema de som 7.1. Para testar todo o potencial de suas instalações, eles convidaram ninguém menos que Gui Boratto para estrear uma série de gravações imersivas, as quais também contaram  com a participação de Paula Chalup, que apresentou seu live Xingu no ano passado. 

Mesmo antes da Live, a relação de Gui Boratto com o Dolby Atmos já estava caminhando lado a lado. Seu álbum Chromophobia, que celebrou 15 anos de lançamento em 2020, tem recebido um novo trabalho para uma edição totalmente remasterizada através da nova tecnologia, também com o suporte da Anz Immersive. Mas uma prova ainda mais espetacular, veio recentemente com Gui Boratto apresentando ao vivo, o primeiro show com a tecnologia imersiva para grande público, no Surreal Festival. Com infra estrutura acústica instalada – pela Anz Immersive – em posicionamentos de 360° no Palco Nomad, Gui Boratto consagrou uma experiência sem igual, sendo o pioneiro a desfrutar de um palco em Dolby Atmos na América Latina.

Enquanto isso, você deve estar se perguntando: se estivermos fora das pistas e do espaço equipado, de que forma é possível absorver tal experiência imersiva, por exemplo, ao ouvir o Chromophobia remasterizado 100% em Dolby Atmos? Bom, pensando na experiência do ouvinte caseiro, a Dolby em parceria com a Universal Studios, anunciaram uma parceria para remixar milhões de músicas com essa tecnologia. Além disso, a Apple Music apresentou o Spatial Audio, passando a disponibilizar parte do catálogo com a tecnologia Dolby Atmos sem qualquer custo adicional para os assinantes. 

Para absorver a experiência, é necessário que você ouça a música com fones de ouvido com áudio espacial ativados, presente nos modelos: Air Pods, BeatsX, Beats Solo3 Wireless, Beats Studio3, Powerbeats3 Wireless, Beats Flex, Powerbeats Pro ou Beats Solo Pro, auto falantes de Iphones XR e superiores e os integrados no MacBook Pro. O pioneiro do Detroit Techno, Jeff Mills, dará o pontapé inicial com um mix exclusivo de uma hora inspirado no cosmos misturado em Spatial Audio com Dolby Atmos, intitulado Outer to Inner Atmosphere: The Escape Velocity Mix. O set também relança oficialmente a aclamada série One Mix da Apple Music – uma vitrine dos melhores DJs e produtores do mundo com mixagens atmosféricas. 

Porém, outra questão também reserva dúvidas, especialmente quanto ao alto custo e complexidade que envolve a mixagem em Dolby Atmos, e seu eficiente proveito pelos ouvintes caseiros, munidos de fone de ouvido. Cruzar o paradigma das audições e mixagens em estéreo é um desafio novo tanto para o público, como também para os engenheiros de áudio. A mixagem de música usando o plug-in Dolby Atmos requer tempo para aprender e custos significativos de hardware e software, e vem gerando debates sobre a experiência da audição por ouvintes caseiros. 

Segundo o produtor e engenheiro de áudio especialista em áudios imersivos e 3D, Kamranv, o resultado para experimentações em Iphone, pode soar bem diferente do projetado inicialmente dentro de estúdio, devido ao próprio renderizador Spatial Audio da Apple: “por alguma estranha razão, essa mixagem soa bem diferente do que o profissional de mixagem ouve no estúdio por meio do software Dolby Atmos Renderer (DAR) que os engenheiros usam para monitorar e exportar a música no formato ADM, usado para o Dolby Atmos. O áudio no DAR é bem transparente e é fácil obter os resultados esperados. Mas, no momento em que esse arquivo ADM é convertido para reprodução no iPhone, a mixagem soa bem diferente”.

Ao contrário do estéreo, nem todos têm um dispositivo compatível com esse formato de reprodução ou uma assinatura de um serviço de streaming compatível com Dolby. Há muito a considerar antes de começar a mixar em Dolby Atmos, porém, esse é o caminho por onde o futuro das experiências sonoras se desenvolve. Por enquanto o acesso fiel ainda é para poucos, mas em breve, tudo indica que poderemos experienciar um verdadeiro mergulho multi-sensorial ampliando o potencial captador de nossos ouvidos, e em grande escala. Devemos lembrar também, que a transição dos áudios mono para estéreo, também não foi da noite para o dia.

A música conecta.