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Editorial | A cultura do hit do verão

Vem chegando o verão,  o calor no coração.

Essa magia colorida, coisas da vida…

Marina Lima já dizia em Uma Noite e Meia, que o calor do verão move uma energia especial. O sol desperta o movimento e estimula as pessoas a saírem de seus ninhos para celebrar. Não é à toa que o verão é o motor das altas temporadas em todos os lugares do mundo, seja nas praias de Salvador ao Vale do Itajaí entre dezembro e fevereiro, ou seja às beiras do Mediterrâneo no sol de junho a agosto. 

Essa efervescência que as altas temperaturas promovem na energia da multidão, resultam em um tipo de fenômeno coletivo que é observado há décadas dentro da indústria musical: o hit do verão. Todo ano tem aquela, ou aquelas, músicas que emplacam no verão e que grudam na cabeça da maioria das pessoas independente do gosto musical. Muitas se configuram como aquele típico “amor de verão” efêmero que fervem durante a estação, mas logo depois tendem a se dissipar. Outras são do tipo que marcam uma geração, se tornando inesquecíveis e atemporais. 

Quem não se lembra do Baile de Favela de MC João, que explodiu durante o verão de 2015 para 2016 pulverizando desde os bailes do morro e festas de todos os estilos musicais,  conquistando os bloquinhos de carnaval e as caixas de som de grande parte dos brasileiros de norte à sul do país?

Em se tratando de Dance Music, a clássica coletânea Summer Eletrohits viralizou nas rádios brasileiras ano após ano a partir de 2005 até os dias de hoje, ditando as tendências dos hits do verão nacional, abrindo portas para o consumo de larga escala da música eletrônica em terras tupiniquins. Aposto que você já dançou, ao menos um pouquinho, ao som de Can You Feel It de John Roch.

Quando falamos sobre música eletrônica, seja ela underground ou mainstream, a cultura do hit do verão pode sofrer leves diferenças entre os hemisférios norte e sul, ou a depender da vertente. Se aqui as temporadas de dezembro à fevereiro são encabeçadas pelas grandes festas no litoral brasileiro, incluindo especialmente o Warung Beach Club, no hemisfério norte o entorno mediterrâneo é o berço pulsante de sua efervescência, sendo Ibiza o carro-chefe por onde são testadas as potenciais tendências.

Outro exemplo forte, é um dos maiores clássicos de Eryc Prydz, Pjanoo, que foi lançado em pleno verão de 2008 em Ibiza, e ultrapassou o título de “hit do verão” se estabelecendo como uma das faixas mais icônicas da última década. 

Mas o que faz uma música se tornar um hit do verão?

Bom, a primeira resposta imediata a essa questão é: cair no gosto popular. E isso não significa exatamente cair nas graças da grande massa, já que cada estilo musical possui seu próprio “sucesso da estação” que abraça a extensão de seu público. Para ser um hit do verão, a faixa precisa conectar uma combinação de elementos e sensações que dizem respeito ao contexto temporal em que ela foi lançada, unindo também, a um tipo de arranjo que seja facilmente digerido pelo público.  

Por exemplo, uma faixa mais “cabeçuda” que possui uma complexidade maior em suas melodias, combinada à uma estética que necessite de mais profundidade para sua compreensão, se torna uma candidata pouco provável ao título. Porém, é claro que existem as exceções. A prova é o remix de &ME para uma faixa de Guy Gerber, What To Do, que esteve no Top 5 hits do verão 2019 de Ibiza. Não é uma faixa carregada de energia, nem mesmo com uma estética altamente acessível pelo grande público, porém ganhou a atenção justamente pelo conjunto melodia minimalista + vocal que se conecta com facilidade na cabeça do ouvinte.

Outro ponto a ser destacado, é que apesar da alta temperatura, cada hemisfério absorve uma vibe diferente para seus respectivos “verões”. O povo brasileiro é naturalmente mais “quente” do que o europeu, e isso é uma personalidade que se mantém em todas as estações do ano. Então é natural que o hit de verão potencial das pistas nacionais, tenha uma certa diferença do tipo de sucesso que protagoniza as altas temperaturas europeias. E claro, existe também o fator tempo: uma diferença de seis meses entre o verão do norte, e o do hemisfério sul, e muitas coisas podem acontecer durante esse meio tempo.

Outra questão que paira entre o universo da produção é: o produtor musical pensa diferente quando produz uma música para ser lançada no verão? 

Bom, claramente o clima interfere, na maioria das vezes, na energia em que a música será construída. Durante o inverno, a propensão de produção de uma faixa mais introspectiva, densa e sisuda é mais recorrente, já que o comportamento durante tal estação promove uma maior retenção coletiva. Já sob o calor do sol, a tendência é a extroversão. Poucas roupas, open air, beira do mar, galera reunida do lado de fora, dias mais longos e principalmente aqui no Brasil, os feriados Natal, Reveillon e Carnaval. Os resultados são faixas de maior energia, maior movimento, elementos mais expansivos, acordes mais abertos e melodias mais quentes.

Traduzindo essa analogia para os estilos musicais, pode parecer para muitos uma redundância, e para outros um afronte, mas à primeira vista sim, o House combina mais com o verão e o Techno com o inverno. Se torna evidente quando falamos que o calor promove um gingado extra na vida das pessoas, fluindo através dos grooves do House e da expansividade de suas melodias. Uma possível candidata para a seleção de hits do verão das pistas nacionais é a versão de Joshwa e Lee Foss para My Humps do Black Eyed Peas, entregando um Tech House capaz de explodir a temperatura de qualquer soundsystem.

Porém não quer dizer que dentro do Techno não encontramos hits de verão, muito pelo contrário. Em especial dentro das linhas do Melodic Techno, temos sucessos que embalaram diversos verões no pistão do Warung e nas mais diversas festas do Brasil. Uma das apostas dessa estação, é a faixa Horizon do Artbat que ocupa o Top 1 da categoria no Beatport, e já se encontra presente nos sets de grandes players nacionais. 

Confira também outras possíveis apostas de hit do verão 2022

FBC, VHOOR – Vem pro Baile [UFFÉ]

Pablo Fierro – Before [WE’RE HERE]

Elton John, Dua Lipa – Cold Heart (The Blessed Madonna Remix) [EMI]

A música conecta.