Editorial

Editorial | A importância de promover diálogos abertos sobre assuntos “polêmicos”

Conteúdo co-assinado pela Pornograffiti e Senta

O prazer sempre foi um assunto delicado para ser discutido abertamente dentro da sociedade. Seja do sexo ou mesmo aqueles momentâneos decorrentes de atividades que são consideradas tabus, os prazeres são objetos de censura dentro do senso comum.

Um dos principais pontos que nossa sociedade não traz à luz, e que se torna imprescindível dentro das esferas da saúde pública, são as questões envolvendo o uso das drogas. No caso da nossa abordagem de hoje, não se trata do velho discurso da proibição ou de desestimular o uso porque devemos compreendê-la como fonte de prazer sem hipocrisia e partir deste princípio para o início da nossa discussão. 

Portanto o foco hoje é sobre prevenção de danos, assunto polêmico já que parte da premissa do uso, mas que traz à tona pontos extremamente fundamentais para prevenir os riscos decorrentes da desinformação no uso das drogas.

E é colocando o dedo na ferida que a Senta levanta discussões e reflexões tão necessárias para o nosso público que estão ocultas dentro das esferas normativas sociais. A plataforma vem trazendo em seu canal do Instagram diversos assuntos pertinentes, não somente ao uso de drogas, mas também relacionados ao comportamento, ao sexo, gênero e saúde mental. 

“Costumo dizer que redução de danos é muito mais do que apenas evitar misturar uma droga com outra ou diminuir a dosagem, é também sobre educação e informação. Quem vai usar drogas, vai usar de toda forma, então que use entendendo como ela funciona, os riscos, a forma correta de usar e demais informações que evitam problemas tanto para quem usa tanto quanto para quem está no entorno”, explica Uno, idealizador da Senta.

Senta | Que tal trocar açúcar por cocaína? 

Segundo ele, no contexto da música eletrônica, a utilização de drogas (principalmente psicodélicas), é massiva diante dos festivais e do próprio efeito da música. “Falar sobre o assunto nesse nicho é muito importante para garantir a segurança de todos e evitar uma bad trip. Em suma, falar sobre RD (redução de danos) evita mortes, traumas, fomenta a educação e acesso à informação e luta contra a hipocrisia que existe quando o assunto é utilização de drogas recreativas”.

Uno ressalta que o propósito da Senta é promover diálogo e não apenas informar, por isso aborda assuntos que são dificilmente discutidos em rodas maiores de conversa. “Tento promover um ambiente onde eu mesmo possa compartilhar as minhas piras, dúvidas e questões, buscando respostas e soluções realmente fidedignas e científicas, quando possível. Eu tento não me colocar como dono das respostas e como a pessoa que só informa, mas como alguém que tem diferentes dúvidas acerca dos temas de sexo e drogas, a partir daí, eu compartilho as informações que tenho o privilégio de ter acesso diante da minha formação acadêmica e minha pesquisa”, adiciona. 

Quando falamos sobre o uso recreativo de drogas, a grande questão está em tornar abertas as informações sobre a qualidade das substâncias, seus efeitos e possíveis riscos decorrentes da combinação de duas ou mais substâncias. Drogas nunca reagem de forma igual para todos, ainda mais quando se trata de misturas, por isso é importante apresentarmos informações bem fundamentadas além dos relatos e dicas de outros usuários.

A interação entre substâncias pode ser perigosa e, em alguns casos, até levar à morte do usuário. Por isso, conhecer o grau de pureza, as reações e os efeitos da mistura no organismo é de extrema importância para garantir o prazer sem prejuízos colaterais. 

Aqui no Brasil, as substância mais comumente utilizadas são a maconha — no topo do ranking de substâncias ilícitas mais utilizadas de forma recreativa, segundo a Fiocruz — cocaína, ocupando a segunda posição, e o crack vindo logo na sequência. No ambiente das festas, o MDMA e o ecstasy protagonizam o ranking desde os anos 90, e mais recentemente a ketamina, que se popularizou nos últimos dez anos no país. Ainda, os psicoativos veteranos LSD e cogumelos também marcam presença no mundo das substâncias, além de outras drogas menos populares no país como 4FA, 2CB, GHB, popper, heroína e medicamentos não prescritos.

Conhecer a fundo os efeitos de cada uma dessas substâncias, incluindo testes de pureza, são os primeiros passos para uma utilização segura. E claro, conhecer o próprio organismo, se atentar quanto aos problemas de saúde previamente diagnosticados, e quanto ao uso de medicamentos contínuos são de extrema importância para evitar um risco grave à saúde do usuário. Tendo em mente uma atenção geral sobre os riscos incorridos e sobre a qualidade da substância escolhida, é hora de pensar com cautela sobre as combinações. 

No momento da euforia, ainda mais sob o efeito de substâncias, o desejo de prolongar o prazer e incrementar a receitinha mágica pode falar mais alto, porém é neste momento que vale redobrar a atenção. Certas substâncias, quando misturadas até mesmo com a cervejinha básica, podem acabar sendo bastante perigosas.

Uno reforça também que não existe interação medicamentosa isenta de riscos e, somando isso ao fato de que nossos organismos são todos diferentes entre si, o que pode não ter efeito em alguém pode levar a morte de outro. “Dentro do nicho da música eletrônica, talvez devemos ter uma atenção redobrada em cima das substâncias psicodélicas e drogas como LSD (dietilamida do ácido lisérgico), DMT (dimetiltriptamina) e GHB (ácido gama-hidroxibutirato) pois elas interagem facilmente até com medicações que tomamos no nosso dia-a-dia como ansiolíticos e antidepressivos e são amplamente usadas pelo ‘pessoal do Techno’”, afirma. Segundo ele, a dica é não tomar comprimidos que você não sabe o que são ou de onde vieram, não usar nenhuma droga sem antes entender se ela pode interagir com medicações que você tem tomado ou até com bebidas alcoólicas, se você tiver bebendo no momento, e sempre estar próximo de pessoas de confiança na hora de usar.

Guide to drug combination

A música conecta.