Eduard toca DVS1

A primeira vez que ouvi Bela Lugosi’s Dead do Bauhaus foi em 1988, numa fita VHS. O áudio não era muito definido. Talvez até fosse, mas se confundia com a imprecisão das imagens do show da banda na Universidade de Londres, em 1980, mescladas a cenas B&W de Bela Lugosi em ação. Para quem lembra, essa faixa é bem longa, mais de nove minutos, e tem um início instrumental marcado pelo baixo minimalista e ruídos de guitarra numa pegada industrial (ou gótica). Se você contextualizar percebe a singularidade: não é a agressividade nem a velocidade Punk, mas conserva a sonoridade crua/suja/desarmônica como valor, e por isso nada tem a ver com o brilho da música Pop ou a harmonia excessiva do Rock Progressivo daquele momento. Grosso modo, e vou lançar essa ideia ciente de que é algo bem discutível, uma hipótese é que tanto o Punk quanto o Pós-Punk foram movimentos musicais mais pautados por ideias do que por musicalidade, isso se por musicalidade você entende harmonia e por ideias, ideologia. Bauhaus, Joy Division, The Durutti Column, Wire, Gang of Four ou mesmo Cassiber, todos embora muito diferentes entre si, são produtos de músicos sem ou com pouca formação musical (Cassiber é um caso à parte), mais preocupados na dissidência de uma nova estética e bem menos à adequação musical esperada pelos estúdios das gravadoras daquele momento.

Então, se você ouve Bela Lugosi’s Dead, é grande a chance de ficar na sua memória como uma sonoridade referência que você carregará pela vida.

Mas qual a importância disso?

Porque a cada vez que ouço Arrival, do DVS1, eu lembro de Bela Lugosi’s Dead. O baixo, a atmosfera – a singularidade do Techno de Zak Khutoretsky em meio à cena carregada da música eletrônica ao fim da primeira década do século XXI.

Para mim, DVS1 é um dos nomes mais emblemáticos do Techno. Seu primeiro release é de 2009, Klockworks05, no selo de Ben Klock. No ano seguinte Zak lança o Flight To Nowhere pelo Enemy Records, selo curado por ninguém menos que Dustin Zahn, e Love Under Pressure, pelo Transmat, de Derrick May. Após isso surge o HUSH, seu próprio selo, que entre 2011 e 2017 solta os singles Evolve/Submerge, Lost Myself, Distress e o álbum Hush 20, cujo nome esclarece muito sobre as ideias de Zak Khutoretsky: é uma coletânea de tracks que celebram os 20 anos da HUSH Sound Systems. Então não é um selo?

Sim, é um selo, mas antes de um selo, o nome HUSH estampa a preocupação de Zak Khutoretsky com a experiência estética que uma sala com alto falantes é capaz de produzir em alguém.

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Neste vídeo produzido pela School of House, Zak conta suas experiências em Minneapolis, no estado de Minnesota. No seu ponto de vista, o foco de um evento sonoro é o sound system. “O sound system deveria ser maior que o nome do DJ no flyer.” Vou reproduzir de memória parte do seu depoimento:

“Quantos falantes consigo colocar nesta sala? Grande, pequena, tanto faz. As pessoas dançam em direção ao som. Minhas primeiras experiências vêm de ouvir música em um sistema de som tão poderoso que era possível sentir o ar se deslocando. Daí você volta para casa e ouve música nos seus monitores e simplesmente lembra daquela experiência. Não é tanto como soava, mas como você se sentia lá. O som vibra, sacode, aperta você. Somos feitos principalmente de água. E você sabe o que a linhas de baixo são capazes de produzir na água: elas mudam a sua forma.”

O mix

O mix contém os nove releases de DVS1, na íntegra, em ordem aleatória. Deixei que a sonoridade e o acaso o levassem. A consistência do trabalho de Zak é impressionante: a arquitetura se mantém, e com ela também a velocidade e o groove. Entre 130 e 140 BPM tudo se encaixa, às vezes naturalmente, às vezes com um esforço maior ou menor na mixagem, conforme você mescla tons que podem ser dissonantes ou não.

Estão no mix também alguns de seus remixes para outros produtores (Lucy, O/V/R, Terrence Dixon, Jon Hester, Nina Kraviz, Darko Esser etc.) e também o único remix para uma track sua, assinado por Maudite Machine e disponível for free ou pague o quanto quiser no Bandcamp (da versão original dessa track ainda não temos notícia). Gostaria de ter colocado o seu remix para a track Wood Sequence, do Van Rivers, mas infelizmente ainda não tenho esse disco. É um raro registro de DVS1 em 125 BPM.

Mesmo trabalhando a partir de tracks de outros produtores, Zak imprime uma estética Techno intensa, forte, que por vezes parece o som de molas do Dub Techno tocado a 45 ou 78 rpm.

Tive a oportunidade de vê-lo em long set no Dekmantel São Paulo em fevereiro de 2017, seguido por Ben Klock. Fiquei empolgado quando soube que em abril ele estaria no Terraza, em Florianópolis, o que acabou não acontecendo.

Nesta mixagem tive a oportunidade de tocar em 135 BPM e sentir de novo o efeito que essa velocidade produz em você durante três horas. A última década estigmatizou os BPMs altos, talvez porque a música eletrônica, de modo geral, tenha se aclimatado demais em ambientes nos quais divide espaço com outras coisas. A música de DVS1 exige espaço, atenção, seu corpo.

Alguém aí tem medo de Techno?

Boa audição e até o próximo episódio.

Tracklist

01. DVS1 – Falling [Flight To Nowhere; Enemy Records, 2010]
02. Lucy – Kalachakra (DVS1 Eyes Open Remix) [Kalachakra; Prologue, 2010]
03. DVS1 – Departure [Flight To Nowhere; Enemy Records, 2010]
04. DVS1 – Watchtower [Hush 20; HUSH, 2017)
05. James Ruskin & DVS1 – Page 1 [Structures And Solutions; Blueprint , 2016]
06. Lucy – Kalachakra (DVS1 Eyes Closed Remix) [Kalachakra; Prologue, 2010]
07. O/V/R – Post-Traumatic Son (DVS1 Optimist Mix) [Post-Traumatic Son; Blueprint , 2012]
08. Nina Kraviz – Best Friend (DVS1 Dub Test) [Best Friend; REKIDS, 2013)
09. DVS1 – Submerge [Evolve; HUSH, 2011]
10. DVS1 – Traverse [Distress; HUSH, 2014]
11. DVS1 – Evolve [Evolve; HUSH, 2011]
12. D’Marc Cantu ‎– Some Fantasies Are Good (DVS1 Remix) [Some Fantasies Are Good; Forbidden Planet, 2013]
13. DVS1 – Break Away [Klockworks 08; Klockworks, 2011]
14. DVS1 – Decreasing [Hush 20; HUSH, 2017]
15. DVS1 – Strobe [Unknown Landscapes; Pole Recordings, 2013]
16. DVS1 – The Chase [Hush 20; HUSH, 2017]
17. DVS1 & Plaid – Confused Oi (Maudite Machine Remix) [Artist Union, 2020]
18. DVS1 – Lost Myself [Lost Myself; HUSH, 2014]
19. Sawf – Slim (DVS1 Four By Four Mix) [Slim/Chromamoan; Perc Trax, 2010]
20. DVS1 – Black Russian [Klockworks 13; Klockworks, 2014]
21. DVS1 – Coding [Hush 20; HUSH, 2017]
22. Trus’me – In The Red (DVS1 Remix) [Remixes 2; Prime Numbers, 2012]
23. O/V/R – Post-Traumatic Son (DVS1 Pessimist Mix) [Post-Traumatic Son; Blueprint , 2012]
24. VCMG – Spock (DVS1 Voyage Home Remix) [Spock; Mute, 2011]
25. DVS1 – Arrival [Flight To Nowhere; Enemy Records, 2010]
26. Zak Khutoretsky/DVS1 – Pressure [Love Under Pressure; Transmat, 2010]
27. Zak Khutoretsky/DVS1 – Polyphonic Love [Love Under Pressure; Transmat, 2010]
28. DVS1 – Balance [Distress; HUSH, 2014]
29. DVS1 – It’s All About [Hush 20; HUSH/Mistress, 2017]
30. DVS1 – S.O.S. [Lost Myself; HUSH, 2014]
31. DVS1 – Balance (reprise) [Distress; HUSH, 2014]
32. Terrence Dixon – Minimalism (DVS1 Remix) [Minimalism Re:Vision; Thema, 2012]
33. DVS1 – Rise [Hush 20; HUSH, 2017]
34. DVS1 – Searching [Klockworks 05; Klockworks, 2009]
35. DVS1 – In the Middle [Klockworks 20.1; Klockworks, 2017]
36. Jon Hester – Shouts In The Dark (DVS1 Found Mix) [Shouts In The Dark; EDEC Music Outlet, 2011]
37. DVS1 – Marching On [Distress; HUSH, 2014]
38. Billy Johnston & Gennaro Mastrantonio – Space (DVS1 Remix) [Space (Remixes); Sleaze Records, 2010]
39. Nina Kraviz – Best Friend (DVS1 Forever Mix) [Best Friend; REKIDS, 2013]
40. Markus Suckut – Scoria (DVS1 Remix) [SCKT02R; SCKT, 2013]
41. DVS1 – Tracking [Fabric 88: Ryan Elliott; Fabric, 2016]
42. DVS1 – Behind Lines [Klockworks 08;Klockworks, 2011]
43. DVS1 – Electric [Berghain 07 Part II; Ostgut Ton, 2015]
44. Jasper Wolff & Maarten Mittendorff – Stellar Cult (DVS1 Remix) [Remixes; Indigo Aera, 2018]
45. Jon Hester – Shouts In The Dark (DVS1 Lost Mix) [Shouts In The Dark; EDEC Music Outlet, 2011]
46. DVS1 – nineteenninetysix [Hush 20; HUSH/Mistress, 2017]
47. Darko Esser ‎– Clean Slate (DVS1 Remix) [Clean Slate; Curle Recordings, 2011]
48. DVS1 – Confused [Klockworks 08;Klockworks, 2011]
49. DVS1 – Floating [Klockworks 05; Klockworks, 2009]
50. DVS1 – Creeping [Klockworks 13; Klockworks, 2014]
51. DVS1 – Lower [Hush 20; HUSH, 2017]
52. DVS1 – Running [Klockworks 05; Klockworks, 2009]
53. DVS1 – Ecks [Zehn/Fünf; Ostgut Ton, 2016]
54. DVS1 – Spying [Klockworks 13; Klockworks, 2014]
55. DVS1 – Distress [Distress; HUSH, 2014]

Eduard é DJ e professor universitário. Residente do núcleo TROOP desde 2014. Owner da The_Smoking_Cat K7Studio.

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