Editorial

Editorial | A política de porta garante mais liberdade para a pista?

Se você já tentou entrar em Berghain e o segurança, da forma menos gentil e mais alemã possível, olhou diretamente nos seus olhos e disse ‘Nicht!’ (do alemão: ‘não’), saiba que assim como você outros 80% da fila receberam a mesma resposta. Nem fazendo o olhar irresistível do Gato de Botas do Shrek vai convencer aquele homem de dois metros de altura por dois de envergadura, tatuado da cabeça aos pés, com piercings nos lugares mais inóspitos do corpo humano e vestindo o preto mais escuro, a te deixar entrar no club. E eu tenho certeza que você vai tentar de novo e de novo – se você realmente for movido pela força da curiosidade – até conseguir o tão sonhado ‘OK’.

Mas por que Berghain (entre outros clubs de Berlim e das cidades do Leste europeu, em especial) tem essa política de porta tão rígida e exclusiva? Em primeiro lugar, políticas de porta tem como objetivo principal selecionar o público que frequenta o ambiente; são maneiras de afunilar e escolher a dedo quem entra e quem não, mantendo a identidade do público o mais fiel possível para os parâmetros pré-estabelecidos da casa – entre eles, sociais, culturais, econômicos e políticos. Nos primeiros capítulos do livro The Art of Gathering (leitura obrigatória para os produtores de eventos), Priya Parker discute a importância de selecionar os convidados para que o evento seja especial aos envolvidos. Não necessariamente essa seleção visa pessoas de um mesmo grupo, já que em muitos casos a diversidade é a chave do sucesso. Mas no caso de Berghain, o foco é manter uma única tribo cultural no club, unindo pessoas com os mesmos interesses e jeitos – o que acaba refletindo em todo um ‘dress code’ e em outras características particulares.

É exatamente por essa política de porta que Berghain é Berghain. Claro, o bloco de concreto gigante no meio de Berlim, onde antes ocupava uma usina elétrica, tem um charme cativante. O som também não fica de fora, com uma curadoria musical recheada de pequenos e grandes talentos. Já o Panorama Bar, que fica no segundo andar do edifício, atrai aqueles que se cansam do Hard Techno da pista principal, com um som igualmente bom. E, por fim, os dark rooms são lugares… interessantes… por assim dizer. Mas foi a política de porta que criou todo um misticismo para o local. Como são poucos os que entram, e as fotografias e vídeos são proibidos, quase ninguém sabe como é lá dentro. Por sorte do sobrenome alemão, recebi um ‘OK’ inesperado e posso dizer que entrar na Berghain foi um dos momentos mais tensos e recompensadores da minha vida clubber. Foi o máximo.

Agora, voltando à pergunta inicial: por que essa política de porta? Imagine-se organizando um amigo-secreto de Natal, onde a brincadeira está em escolher o presente mais ‘a cara’ da pessoa sorteada. Nessa situação, não faria muito sentido convidar pessoas que não se conhecem entre si, a não ser que você seja um ótimo quebra-gelo de situações constrangedoras. Quem não se conhece não tem como saber os gostos dos outros. Por isso mesmo, esse tipo de evento é muito mais divertido entre amigos – que podem comprar presentes criativos relacionados a histórias internas, ou só de zueira para tirar uma com a cara do outro. 

Em um club como Berghain, onde a política de porta é 100% social, o objetivo é exatamente esse: unir gente da mesma tribo. Dessa forma, o sentimento de familiaridade deixa o público mais confortável entre si, facilitando a conversa e evitando situações preconceituosas e desrespeitosas. Quando falamos em música eletrônica underground, é importante lembrar que a liberdade de auto expressão na pista é um pilar importante. O desafio de fazer uma festa onde pessoas podem ser quem são, sem nenhuma máscara social, é imenso – principalmente unindo grupos que julgam entre si. A política de porta entra como um facilitador para a magia acontecer.

Por outro lado, a política de porta fomenta filas intermináveis de pessoas querendo entrar. Já que poucos conseguem, todo mundo deseja – mais uma vez, a lógica do capitalismo não escapa. Cria-se um ‘desejo’ exatamente por sua exclusividade, da mesma forma que tantos querem roupas de marcas de luxo, tantos querem viajar de jatinho, tantos querem comer em restaurantes com estrela Michelin… mas poucos conseguem. E se o fator desejo for bem explorado, parte do marketing tá feita – e de graça.

Ao mesmo tempo, quem seleciona, exclui – e a exclusão não é legal para os excluídos. Quando a política de porta é gerida por pessoas, seja por seguranças ou pela equipe do club, também existe o erro humano. É tudo na base da primeira impressão, do primeiro olhar, do primeiro pré-conceito, e nem sempre o julgamento está certo. Parte do público que se encaixaria na identidade do club não é aceito para entrar, enquanto alguns gatos pingados que não sabem o que estão fazendo lá, entram. A exclusão não combina com música eletrônica, que na teoria é sobre união, mas – como disse Priya Parker – por vezes é necessária para que o evento cumpra seu propósito.

Não existe liberdade quando a pista está desconfortável. O maior crime de um club ou festa seria inibir a auto expressão do indivíduo – até porque música e dança são sobre liberdade de manifestação. Unir pessoas que se julgam e que não respeitam diferenças sócio-culturais pode produzir um efeito colateral muito mais profundo do que evitar, via uma política de porta rígida, que isso aconteça. Na minha visão, uma política de porta justa cumpre um papel importantíssimo quanto à liberdade da pista, principalmente quanto a proteger comunidades em situações vulneráveis (como a LGBTQIA+).

Festas e festivais (onde, na maioria dos casos, a política de porta é inexistente) cumprem um outro papel importante para a cena: unir pessoas diferentes e promover o encontro de tribos. Por isso, clubs, festas e festivais devem ser complementares – onde, em um lugar, a tribo se encontra e respira livremente e, no outro, se dispõe ao choque social que é tão valioso quanto.

A música conecta.