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Editorial | Fora da rota? Os prós e contras de se estabelecer fora de um grande centro artístico

São Paulo, Curitiba e o litoral catarinense são, sem dúvidas, os principais polos da música eletrônica em solo nacional na atualidade, regiões onde estão localizados os mais renomados clubs do país — vide D-EDGE, Laroc, Vibe, Warung, Green Valley e El Fortin —, onde acontecem os grandes eventos e festivais — como Time Warp, DGTL e Dekmantel, quando realizam suas edições brazucas —, e onde também se concentra boa parte da parcela de artistas que busca seu lugar ao sol quando o assunto é Dance Music.

Há também cenas que estão crescendo e vêm realizando um excelente trabalho de fomento à essa cultura, tal como Belo Horizonte, Rio De Janeiro, Salvador, Porto Alegre e outras cidades que, cada vez mais, ajudam a levar a música eletrônica para novos públicos.

Mas e pra galera que não está nestas localizações? O quão mais difícil é se estabelecer e construir uma carreira artística estando a quilômetros de distância delas? O que nós, como clubbers, entusiastas ou profissionais da cena podemos fazer para colaborar e expandir essas barreiras?

É o que a gente traz em pauta neste novo editorial, com a participação de artistas que de alguma forma estão pavimentando sua estrada em diferentes localidades do Brasil e, apesar de enfrentarem desafios diariamente, seguem batalhando em busca de mais espaço, reconhecimento, colaborativismo e fortalecimento de seus perfis através de seu bem mais precioso: a arte.

James Saboia | Amazonas/AM

Prós: Acredito que uma das vantagens de se desenvolver como artista longe dos grandes centros é que ficamos um pouco menos suscetíveis a seguir as tendências do mercado, o que, na minha opinião, é um ponto a favor aos que buscam desenvolver sua própria identidade musical, evitando assim o efeito manada. 

Contras: A principal fonte de renda de um produtor musical/DJ ainda são as gigs, por isso, viver longe dos grandes centros também significa viver longe da maioria dos seus possíveis contratantes, que acabam hesitando devido aos custos de logística, muitas vezes pesados.  Ao meu ver, essa é, com certeza, a principal desvantagem que nos encontramos. 

Consequências: Se unirmos a vantagem e a desvantagem por mim citadas, acabamos caindo naquilo que tem sido a vida de muitos artistas que se desenvolvem longe dos grandes polos. Para não abandonar seus objetivos como artista, muitos se veem “obrigados” a se mudar de suas cidades rumo ao sul/sudeste, após encontrar a sua identidade e a consulta por seus trabalhos terem aumentado.

Mau Maioli | Farroupilha/RS

Prós: A pandemia colocou todo mundo em um “mesmo patamar” e, principalmente, em um mesmo lugar: a internet. Acredito que conforme vamos evoluindo essas barreiras serão completamente extintas. Mas falando sobre o período atual e sobre o que eu já vivi: na minha visão as chances de criar um cenário ou fomentar o já existente é o principal ponto. Em cidades menores a chance de você se conectar com DJs e promoters pode ser mais rápida trazendo até maiores oportunidades. Eu vivi exatamente isso: conforme tive boas apresentações fui escalando festas maiores até conquistar praticamente todas as cidades do RS. Posteriormente isso se refletiu em diferentes estados e até em outro país. 

Contras: Acho que grandes circuitos como São Paulo são bons para fazer contatos inesperados como a vinda de um artista gringo para a cidade e ter a possibilidade desse tipo de encontro. A procura também acaba sendo maior e a logística facilita também, mas ao mesmo tempo tenho visto casos de artistas que têm ficado em diferentes pontos do país e mesmo assim mantém uma agenda disputada. E quanto maior o cenário mais disputado ele será. Então as dificuldades de produção de eventos, contratação, acabam sendo ainda mais complicadas em cenários maiores.

Mezomo | Santa Maria/RS

Prós: Tendo residido em Santa Maria e Pelotas, cidades de interior que possuem suas cenas, mas que não são grandes centros artísticos, pude vivenciar os dois lados. O primeiro ponto alto, pra mim, é o alto nível de foco e concentração que apliquei no meu trabalho de estúdio ao longo dos últimos anos, que só foi possível por viver mais distante de uma cena aquecida. Com menos disponibilidade de eventos rotineiros, menos convites de amigos para jogar tempo fora, pude focar toda minha energia e tempo livre no desenvolvimento do meu talento artístico. 

Outro fator relevante é o custo de vida mais acessível que lugares mais alternativos proporcionam, possibilitando destinar parte das receitas para investimentos no estúdio em equipamentos e aprendizado. Além de proporcionar aquela sanidade mental que estimula a criatividade ao termos as contas pagas e boletos quitados de forma mais suave. 

Contras: Hoje a gente vive numa aldeia global em que a conexão é intensa, independentemente da localização de cada um. Entretanto, a gente sabe que a interação é mais profunda e significativa quando rola o olho no olho, a conversa presencial e a troca real de energias. Esse é um ponto que impacta negativamente quem reside longe de grandes centros. Estar distante fisicamente exige mais empenho para ser visto e ser lembrado. Exige que o artista periodicamente vá, de forma presencial, onde estão os players influentes, seja eventos, festivais, congressos e conferências. 

Dessa forma se dá o start em novas conexões, chama a atenção dos nomes relevantes do mercado, e então pode continuar o desenvolvimento deste networking de forma digital.

Bikinis & Martinis | Cascavel/PR

Prós: Se tornar uma referência dentro de pequenos centros acaba sendo mais fácil pelo menor número de concorrência e de profissionalismo entre os artistas da região. Acreditamos que dentro dos grandes centros, pela competitividade, você acaba se motivando para evoluir e buscar melhorar seu trabalho, esse é um dos motivos pelo qual queremos nos mudar para uma cidade maior. Por enquanto, vamos aproveitar que aqui estamos nos tornando referência no cenário regional para, quem sabe, ter uma inserção mais fácil após a mudança.

Contras: A falta de concorrência especializada acaba te deixando na zona de conforto para evoluir, vai depender da força de vontade e objetivos. A falta de profissionais capacitados para ensinar também é um contra ao nosso ver, pois para aprender e estudar in loco com os melhores, é necessário se deslocar para os grandes centros e, consequentemente, acaba saindo mais caro o aprendizado…

tarter | Brusque/SC

Prós: Você pode construir sua própria cena, iniciar um momento que no futuro pode se tornar um polo, dar oportunidades tanto para o público quanto para novos artistas de conhecer/ mostrar seu trabalho. Você pode trazer artistas de fora da sua região para mostrar o seu trabalho e ir crescendo sua rede de contatos. Outro ponto positivo é a concorrência, você tem menos eventos e artistas tocando no final de semana na sua região, ao contrário dos grandes centros, que recebem big names semanalmente.

Contras: Existe um custo elevado para ir prestigiar um evento importante nos grandes centros e assim perde muitas oportunidades de conhecer sons novos e eventos maiores, consequentemente conhecer artistas que só tocam em SP, por exemplo. O valor da logística para tocar também é grande. Perdi muitas gigs legais por estar morando longe e consequentemente o valor para o contratante se tornou caro ou inviável para o artista.

Camila Jun | Brasília/DF

Prós: Creio que estar perto desses grandes centros é estar mais perto de oportunidades. Conhecer pessoas, frequentar os clubs e estar inserida onde as festas e festivais acontecem, também pode significar mais networking e, consequentemente, mais possibilidades de mostrar o seu trabalho. Isso não quer dizer, claro, que todos terão o seu lugar ao sol. Afinal, onde há mais oportunidades, também pode haver mais competitividade. E, nesse sentido, estar nesses grandes centros também pode significar uma batalha mais acirrada para se destacar. 

Contras: Por outro lado, morar em cidades que estão fora dessa rota, significa, muitas vezes, um trabalho redobrado para se destacar na cena nacional.  Festas menores, menos opções de trabalho, cachês mais enxutos e poucas opções de contratantes podem ser uma realidade. A partir disso, é preciso muito foco, planejamento e coragem para seguir na construção de uma carreira que não começa em grandes centros. É preciso estar mais preparado e alerta para as oportunidades que possam aparecer. É preciso mais estudo e pesquisa. E, mesmo que você não more nos principais polos, é preciso estar atento e antenado a tudo o que acontece por lá. Mais do que isso, o ideal é, vez por outra, estar lá. Isso requer, obviamente, um planejamento financeiro também. 

Eu moro em Brasília, uma cidade que, de alguma forma, conseguiu criar sua história na música eletrônica. Conseguiu criar uma cena e exportar alguns artistas importantes. Estamos falando de uma cidade que não está totalmente à margem da rota, mas que ainda hoje apresenta limitações. Particularmente, entendi que, mesmo tendo os requisitos técnicos que um artista precisa para se destacar, era preciso criar conexões. Internas e externas. Em Brasília e fora dela. Nesse sentido, além de toda a construção de carreira como artista, também investi muito na construção de carreira como produtora cultural, buscando enaltecer minha verdade e minhas particularidades.

Comecei criando festas onde eu pudesse expressar minha personalidade como artista e onde também pudesse convidar outros artistas para somar. Criei minha produtora, a Xica, e labels como a Tônica que, definitivamente, me ajudaram a dialogar mais com a cena em geral. Ser artista e produtora cultural, ao mesmo tempo, não é fácil. Requer muito fôlego, foco e amor ao que faz. Mas, hoje, entendo que, de alguma forma, o fato de morar em uma cidade que não era exatamente um dos grandes polos da música eletrônica, me motivou a fazer isso. 

JP Castro | Recife/Pernambuco

Prós: Acredito que ter começado na minha cidade (Recife), que não é epicentro da cena eletrônica, me deu espaço para inovar e de certa forma conquistar aos poucos os olhos do público com coisas novas que talvez eles não conhecessem ainda, e assim abrindo as portas ao longo do tempo. Conforme as coisas aconteciam, conseguia mostrar mais e mais às pessoas esse mundo através da minha própria visão.

Contras: Sem dúvidas a falta de uma cena “rotineira”, com clubs e eventos que acontecem semanalmente, prejudicou o cenário local, já que a lacuna de tempo entre eventos de música eletrônica eram de vários meses. Isso deixou poucas oportunidades para o cenário crescer mais.

Dandara Luz | Recife/Pernambuco

Me estabelecer enquanto um fazer artístico habitando em um lugar que não são as capitais sudestinas e sulistas sempre soou para mim como uma proposta para um desafio, sobretudo por ser atravessada por outros parâmetros que também interseccionam a geografia, mas não acabam nela, visto que sou uma artista nordestina e também sou uma travesti negra.

É visto nitidamente uma diferença absurda quando tratamos da distribuição de investimentos se compararmos as capitais do norte e nordeste com as capitais do eixo sul e sudeste. Logicamente, essa abrupta diferença nos força a trabalhar com aquilo que temos, o que chega a ser injusto e limitante para a classe artística daqui, tendo em mente que também somos classe trabalhadora em movimento e que daqui saíram grandes nomes da música e de outros setores artísticos. 

Em contrapartida e não romantizando a falta de investimentos para outras regiões, trabalhar com o que temos faz com que estejamos nos reinventando e nos refazendo naquilo que fazemos, o que de certa aumenta ainda mais a nossa potência criativa.  

Brisa Fernandes | Natal/Rio Grande do Norte

Prós: Acredito que construir uma carreira longe dos grandes polos é um ponto positivo no que concerne ao estabelecimento de uma comunidade mais próxima. Acaba que, pelo menos aqui em Natal, todos os coletivos de música eletrônica se conhecem e, na medida do possível, estabelecem parcerias e se apoiam.

Contras: Acredito que quando o artista quer focar na produção musical e lançar música em grandes gravadoras ou tocar em grandes festivais, por exemplo, estar longe dos grandes polos pode ser uma dificuldade, já que os contatos são mais difíceis e até a visibilidade também se torna limitada. Acaba que com a pandemia e o aumento das lives, essa distância se encurtou mais, mas o vínculo e o networking pessoalmente é ainda essencial.

Karmaleoa | Salvador/Bahia

As primeiras reflexões que me vieram à mente após receber o convite para participar dessa matéria colaborativa é: que rota? Quais são as características de um grande centro artístico? E por que raios Salvador não estaria considerada dentro desse grande centro artístico? A música eletrônica só é aquela que vocês conhecem como “música eletrônica”?

A cultura e a música popular brasileira bebem muito da Bahia, e não é de hoje. Saiu diretamente daqui muitos dos gêneros e pegadas das músicas que estouraram no Brasil, seja na cultura popular ou alternativa. 

Um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo é feito na Bahia, e poucos artistas baianos (ou nenhum) estão presentes normalmente no palco principal. O primeiro instrumento eletrônico do Brasil, a Guitarra Baiana, foi feita e criada por baianos na década de 40. A música eletrônica e produção musical é feita por aqui há muito tempo – o Tropicalismo, nos anos 70, misturou elementos da música eletrônica e da música instrumental orgânica, com elementos afro-brasileiros e baianos; e assim fez também o Axé, desde os anos 80. Um dos maiores coletivos de música eletrônica brasileira é o Pragatecno, surgido no final dos anos 90 em Maceió, mas é feito de muitas e muitos artistas daqui da Bahia e do Nordeste todo. Além disso tudo, hoje em dia podemos ouvir grandes influências da música baiana pelos gêneros musicais do Samba, Pagode Baiano, Arrocha, Samba Reggae, Axé, Ijexá, em músicas de Pabllo Vittar, Rosa Neon, Marina Sena, Linn da Quebrada, Davi Sabbag, Mc Thá, Anitta, Duda Beat, Karol Conká, Gloria Groove, Os Gilsons, Mateus Carrilho e outros artistas e conjuntos não-baianos.

E mesmo assim, por que estaríamos fora da rota? O que faltaria então para a Bahia virar um grande polo/centro artístico? Arte e música é que não é. O que falta mesmo é investimento. Quando grandes festivais de fora são produzidos por aqui no verão, infelizmente viramos somente cenário, porque não somos convidados para sermos partes das grandes line ups – e se somos, somos minoria. Marcas quase que não investem na nossa cena artística, e nós, artistas, produtores e musicistas independentes baianos, que vemos nossos gêneros musicais e a nossa própria terra sendo usados a rodo, não somos convidados para fazer parte do corte do bolo. E aí fica a minha grande crítica: você, produtor cultural que vem fazer festa na Bahia ou no Nordeste, que investe em som e iluminações caríssimas, enche o c* de dinheiro com ingressos caríssimos vendidos a rodo, você NO MÍNIMO chama artistas locais para participar de suas produções? Você NO MÍNIMO convida produtores locais para fazer parte das produções? A contracultura da música eletrônica é libertadora ou é neo-colonizadora? Porque nós, baianas e baianos, existimos e continuamos o resto do ano inteiro fomentando uma cidade que não vê a cor do dinheiro e faz acontecer uma arte riquíssima sem investimento. Imagina o que faríamos então com investimento. 

A música conecta.