Saudade da ressaca? Saiba por que você precisa se conscientizar antes de voltar para a pista

Ressaca, rebordose, revertério, azedume, estar uma ameba, malestar, blue monday, virar uma planta, sintomas de dengue ou chikungunya, passear de barco Viking, visitar a Vonaulândia. Enfim, muitos são os termos que usamos para dar nome àquela amiga indesejável que sempre confirma presença em nosso evento, ou melhor, após ele. Porque é quando tudo termina que ficam só os cacos. Você fica um caco. “Morri, mas passo bem” é o clássico lema dessa história que se repete toda vez que a gente decide colocar fogo no parquinho. Alguns mais, outros menos. Há aqueles que traçam verdadeiros planos de ação para não pagar um preço tão alto nos dias subsequentes. Há quem fique enfermo aos domingos, alguns sentem que estão quase desencarnando às segundas e há aqueles metabolismos mais lentos que nos presenteiam com esse dia fatídico, às terças. Independente do que você usar ou do termo engraçado, pode saber… a conta vem!

“É melhor ficar sóbrio”, dizem os caretas. Veja, não que se sentir altinho seja só para praticar escapismo, a diversão, é sim, potencializada, existem muitos estudos que justificam o porquê de buscarmos isso. Justamente por essa razão é importante ser racional e dosar esse lifestyle. O que nos leva ao motivo desse texto vir à tona. Afinal, verdade seja dita: estamos só esperando o momento certo para voltar para às festas, shows, festivais, afters em loop. Verdade seja dita 2: fomos retirados à força e estamos ávidos para voltar. Intensidade à vista e é aí que mora o problema. Você já parou para pensar que seu corpo pode não estar tão preparado para a retomada quanto você?

Prova disso é que muitos de nós já experimentamos uma sensação intrigante de parecer ter feito um reset sobre sua própria resistência. Você provavelmente já ouviu, durante os tempos pandêmicos, alguém falando que ficou muito alcoolizado ou entorpecido em uma velocidade assustadora. “Será que desacostumei?” A resposta é sim. Por isso, vamos tecer aqui uma conversa consciente para refletir antes de voltar com tudão. Nosso corpo é uma máquina muito inteligente, ele não só se regenera a cada dormida (aliás, você tem dormido bem?), como se adapta constantemente aos estímulos que entregamos a ele. Sejam eles bons ou ruins. 

De maneira geral, quando você ingere substâncias estimulantes o que acontece com você é o seguinte: gradativamente processos de sobrecarga começam a rolar, a ativação do sistema de recompensa cerebral é potencializada. É prazer atrás de prazer e seu corpo trabalhando pra caramba pra segurar o rojão. Sistema neurológico, digestivo, respiratório, circulatório, endócrino e excretor recebem muitas mensagens no grupo do Whatsapp porque tudo está pegando fogo. Nos dias seguintes o que fica é a fadiga e seca na reservas dos neurotransmissores, o que justifica a deprê. Não só isso, essa máquina sabe que o ambiente foi alterado e rola um trabalho em equipe para limpar a casa. Por exemplo: quando você bebe muito, o que era pra ser um ecossistema alcalino, passa a ser super ácido (e não é o ácido legal) e agora seu sistema imunológico, que já está enfraquecido, tem que lutar para que você não adoeça. Lembrando que há variações de acordo com a substância, mas em síntese é isso. 

Para pensar em redução de danos, consumo consciente e amor ao seu instrumento mais importante (alô, seu corpo), a gente trocou uma ideia com o neurologista Igor Barcellos para entender o funcionamento do cérebro e bolou aqui um manual reflexivo de um bom caminho a se traçar. Não vamos incluir na lista o combo: hidrate-se, alimente-se, descanse porque essas são as diretrizes básicas. Vamos lá!

“Fiquei muito tempo parado e desacostumei com o ritmo”

Sim, seu corpo zerou a contagem, então deixe para lá suas referências sobre quantidade quando tudo era festa. Reduza e veja como será. Você pode se surpreender positivamente (testado e aprovado).

“Não estou tão bem emocionalmente como estava antes disso tudo”

Pois é, muito normal que questões emocionais tenham batido à sua porta nesse período turvo. As substâncias, principalmente estimulantes, podem causar um efeito rebote mais pesado. Sem contar o risco de uma bad trip durante. Então, amigas e amigos, perguntem-se: estou mentalmente bem para esse passeio?

 “Desacostumei com o cumprir das regras”

Aqui um lembrete gritante. Independente do cenário, não podemos abandonar as boas condutas sociais. Não temos carta branca para dirigir fora do nosso estado normal. Isso é inegociável. Não coloque sua vida em risco e nem a de outras pessoas. Vai sair e se alterar? Faz a Angélica e vai de táxi!

Consciência

Todos nós, em maior ou menor escala, temos algo chamado ímpeto. Ele é o personagem responsável pelos atos impulsivos. Sabe aqueles que você faz e nem percebe? Então, deixa eu te contar: nessa hora essa parte do cérebro, chamada sistema límbico, está aguardando o momento para gerar prazer ao córtex pré-frontal – e mais uma pá de áreas da massa cinzenta. É como se ele aguardasse, porque já existe um aprendizado associativo de “substância-prazer” e condicionamento. O que isso quer dizer é que ir com muita sede ao pote sem se auto-regular pode gerar prejuízo nas mais diversas esferas. Portanto, vá com calma.

“Não coloco qualquer substância no meu corpo só porque ela é mais barata e estou mal de grana”

Estamos atravessando uma crise financeira, mas pense bem: vale a pena ingerir substâncias que você não sabe a procedência só por causa do valor? Provavelmente você vai mirar em A e receber B, porque quase sempre a qualidade do produto é adulterada. O preço disso é um next day bem pior. O que nos leva ao próximo item…

Menos é mais

Se você precisa de muito ou precisa muitas vezes, talvez seja sensato você pensar sobre. Os danos causados pelo abuso de substâncias vão muito além da intoxicação aguda. O novo mundo vem aí, é sim um momento de repensarmos condutas. Afinal, triste não lembrar do set daquele super DJ que você ama porque errou a mão. Não é sobre ser careta, é sobre autocuidado. E por falar nele…

Autocuidado e cuidado com os seus

Um item sobre empatia para concluirmos essa história, porque não basta a gente refletir durante esse texto, é preciso pensar no todo e levantar o debate. Vamos combinar que passar mal é muito ruim, sem contar que a gente acaba dando trabalho aos outros, estragando a diversão e gerando riscos desnecessários. Isso também vale para nossos amigos, então coletivismo aí vamos nós…

Hoje existem algumas empresas que oferecem produtos para reduzir danos, desde reagentes e até blends em cápsulas que prometem reduzir a ressaca, física e mental. Além disso, existem muitos grupos que promovem um debate transparente sobre isso. O portal Tripsit, focado em redução de danos, criou uma tabela sobre a interação de substâncias. Procure se informar para que sua ida ao parque de diversões seja a melhor experiência possível.

Esse texto é sobre uma reflexão para sermos mais conscientes e pensarmos no coletivo. A pista de dança é isso, pensar no todo e ser feliz com respeito acima de tudo, basta ir lá na história do House e do Techno e ver o que se pregou quando tudo começou. Não esqueçamos disso. No mais, estamos aqui, todos juntos, porém separados, só esperando para esse momento de retomada. Espero que esse texto cause a reflexão por um viés pacífico, te faça bem e te traga pensamentos bons. Se sim, leve ele para mais gente. Sejamos sempre melhores e nos vemos na pista em breve!

A música conecta.