Editorial

Selos e eventos: uma relação dinâmica cada vez mais presente e eficiente

Por trás da complexa e ampla engrenagem que move o universo da música eletrônica, há uma dinâmica cada vez mais presente, e que colabora por levar adiante a múltiplas identidades culturais responsáveis pelo alicerce deste cenário. Selos fonográficos, festas e festivais, são agentes indispensáveis na criação e prática de conteúdo, e pelos quais são difundidas não apenas as tendências musicais fundamentais para a evolução do movimento, como também o propósito de promover a música eletrônica como uma experiência viva e presente no dia-dia do público. 

Cada vez mais a relação entre esses dois agentes se torna mais estreita. Gravadoras que também passam a atuar como eventos, e festas abrem os horizontes dentro do mercado fonográfico. Caminhos que se cruzam para a ampliação de um propósito, que vai muito além do marketing do projeto. Expandir a mensagem através da dupla atuação, tem sido uma estratégia de sucesso para diversos labels que hoje são considerados pilares do cenário eletrônico mundial, além de um importante direcionamento para o crescimento de marcas em ascensão. 

A dinâmica evento-selo

Diversas festas e festivais de música eletrônica, ao longo de sua jornada, tendem a dar um passo além em sua trajetória, rumo às atuações para além das pistas. E uma dinâmica cada vez mais comum, é o estabelecimento da marca como um selo fonográfico. A exemplo disso, o icônico festival belga Tomorrowland após 16 anos atuando como um dos maiores eventos de música eletrônica do mundo, decidiu no ano passado, estender suas atividades estabelecendo-se também, como gravadora. Mas afinal, quais são os propósitos que levam a este caminho?

Dentre tantos fatores que levam um evento consolidado, a expandir-se através de seus lançamentos musicais, é necessário levar em conta que esse é um caminho pertinente para as marcas que pretendem estar mais próximas da realidade do público, para além das atividades presenciais. E essa proximidade, executada por meio de um catálogo, ainda cria um laço afetivo com o público, já que reforça a identidade base do projeto, por meio das músicas lançadas.

Outro fator pertinente nesse direcionamento, e também relacionado com o citado anteriormente, é a expansão da linguagem e a identidade da marca para além dos limites geográficos. Ampliar o reconhecimento da marca, rompendo as fronteiras de nicho e possivelmente atraindo mais público para os eventos, é uma estratégia que caminha de forma efetiva com o marketing da marca. Ainda, o estabelecimento de um selo fonográfico, possibilita a criação de novos relacionamentos, fortalecendo conexões até mesmo com outros grandes eventos, firmando assim, uma relação dinâmica e colaborativa. Como também, a dinâmica evento-selo, é uma forma eficaz de dilatar o casting artístico através da possibilidade de conhecer novos artistas, parceiros e colaboradores, ampliando também o poder de visibilidade a partir do sucesso de uma faixa.

Gop Tun

A Gop Tun é um dos exemplos de sucesso, desse direcionamento, em âmbito nacional. A marca fundada em 2012, é responsável por dar vida às festas que tem oferecido ao Brasil uma visão diferente e moderna no que diz respeito a interpretações artísticas e musicais. Com eventos de grande sucesso e conectando grandes estrelas do cenário House e Disco mundial, em 2014, a crew decidiu dar um passo além, levando sua identidade que já era um sucesso local, para o mercado fonográfico. Hoje, com um catálogo cada vez mais consistente, a marca conecta os artistas de seu catálogo em seus eventos, e ainda apresenta compilações vinculadas aos principais festivais promovidos pelo projeto.

UP Club

A UP Club Records é uma label que nasceu em 2010 como um dos palcos alternativos do festival Universo Paralello, apresentando vertentes como House e Techno e sonoridades mais undergrounds. De showcases por todo o país, e eventos internacionais, a marca estendeu seus horizontes para além do sucesso do palco, abrindo a atuação como gravadora sob a curadoria de Alok e Baskhar. em 2015. Hoje o selo reúne centenas de lançamentos, incluindo nomes como Illusionize, Sugar Hill, Dj Glen, André Gazolla e Victor Lou, reforçando a identidade e o reconhecimento que já era sucesso nos palcos do festival.

A dinâmica selo-evento

Nessa dinâmica os objetivos, embora semelhantes, passam a ter um outro direcionamento. 

A decisão de um selo fonográfico, estabelecer-se como uma festa ou um festival presencial, vai muito além de uma estratégia de marketing. Reforçar a identidade musical da gravadora, mostrando suas assinaturas e características na prática, e como o acervo é capaz de moldar a experiência de uma pista de dança, é um dos fatores que contribuem para o sucesso da marca de forma geral. E claro, para que essa dinâmica se torne forte e consistente, é necessário que haja uma consolidação firme de identidade, de ambos os lados, tanto do catálogo da gravadora, como também na proposta do evento que se torna uma vitrine para os trabalhos do selo. 

Ainda, a depender da proporção que o evento que se torna ao longo da história, é possível que a identidade apresentada pela proposta direcionada do selo, se torne uma tendência global, alcançando ampla popularidade não somente dos lançamentos do catálogo em específico, mas da própria estética promovida. Então, vamos de cases de sucesso?

Diynamic

O icônico Diynamic festival é um dos exemplos de uma jornada que começou muito antes do sucesso nos palcos. O selo homônimo comandado por Solomun,  foi fundado em 2006, e em 2013 – quando deu vida ao primeiro festival – já era uma gravadora amplamente respeitada no circuito eletrônico mundial. O festival com sede em Amsterdam, leva o propósito da expansão de uma nova roupagem do Deep House, já formatada através da identidade do catálogo, e amplia reverberação de seus artistas através do evento que está entre os mais reverenciados do circuito.

Dekmantel

O nome Dekmantel é bem conhecido pelos amantes dos recortes undergrounds da música eletrônica, especialmente aqueles influenciados pelos clássicos da cena de Detroit das décadas de 80 e 90 por causa do festival baseado em Amsterdam que acontece anualmente desde 2013. Porém, a história da marca começou muito antes disso e foi só depois de ela estar consolidada no circuito internacional que seus criadores, Thomas Martojo e Casper Tielrooij, formataram o festival – que hoje está entre os principais eventos circuito.

Seja através do caminho do catálogo para o presencial, ou vice-versa, a dinâmica entre selos fonográficos e eventos é um mecanismo substancial para ampliar o poder de visibilidade, identidade e influência da marca. Além disso, um outro ponto-chave que se destaca nesse processo, é a capacidade de promover um intercâmbio muitas vezes cultural, sobretudo entre selos-eventos que rodam o mundo, absorvendo novas tendências e refletindo também, as bases e valores que envolvem seus alicerces para a dimensão do público.

A música conecta.