Entrevistas

Alataj entrevista Alex Malheiros [Azymuth]

*Entrevista conduzida por Marcio Dias Coelho

Como veículo de imprensa, amamos pretextos porque amamos até onde eles podem nos levar. Muitas vezes surpresas muito agradáveis se dão a partir de pretextos. Neste caso, o pretexto é a realização do primeiro festival do Surreal Park, que vai rolar entre os dias 20 e 23 de abril sob o tema Projeto Terra, com conceituação em torno da expansão da consciência. Além de atrações imponentes da Dance Music, sua proposta de conteúdo abraça também experiências por workshops e palestras. Parte de sua curadoria vai além dos sons clubber, como a banda Azymuth, que se apresenta no palco Nomad do festival, às 01h30 da primeira noite de atrações, a festa de abertura. 

Essa banda brasileira de jazz é uma referência mundial e está em atividade desde 1973, quando três amigos — um tecladista, um baterista e um baixista — se uniram para trazer frescor e inovação ao gênero, além do fato de terem colaborado em projetos de Dance Music ao longo de sua história. O Azymuth possui hoje a formação que, após passagem do tecladista José Roberto Bertrami, em 2012, viu entrar Kiko Continentino nos teclados, unindo-se, portanto, a Alex Malheiros e Ivan Conti Mamão, ambos cultuados por uma legião de fãs, por suas autoridades em baixo e bateria, respectivamente. É com o primeiro, Alex, com quem conversamos, através de uma chamada de vídeo que você pode conferir abaixo:

Alex Malheiros é um membro do grupo que não dá muitas entrevistas e estamos empolgados por termos nos deparado com esta oportunidade. Além disso, tivemos esta conversa em vídeo, tudo durou cerca de uma hora e as palavras transcritas não podem, ao menos não tão intensamente, reproduzir o que sentimos naquele momento, acompanhando uma conversa com alguém tão interessante e cheio de histórias para contar. Quem viu rolar, se emocionou. Sem mais delongas, aqui estão alguns trechos do papo maravilhoso com Azymuth, conduzido por Marcio Dias Coelho, que nos lembra de forma pertinente que, sim, Azymuth nunca sairá de moda. 

Alataj: Quem deu o nome Azymuth foi Marcos Valle, é isso? 

Alex Malheiros: Sim, este nome vem de uma gravação que fizemos com músicos de estúdio para o Marcos Valle, que seria trilha sonora do longa-metragem sobre o Fittipaldi, mas ele não podia botar o nome, pois fizemos para a CBD (Companhia Brasileira de Discos) e ele era da EMI, antiga Odeon — naquela época tinha essas questões. O pessoal da Phillips botou o nome de uma música dele, que ele até já tinha gravado para uma novela, chamava-se Azimuth. Daí viramos “Conjunto Azimuth”, que representava todo o conjunto de músicos. No início era só isso; só depois que lembramos do nome, achamos bom — em árabe, significa “caminho” — e pegamos. 

Vocês estão sempre viajando entre festivais e estúdios e tocando com gente nova. Como funcionam essas colaborações com novos artistas? 

A primeira vez que nos encontramos fisicamente [com artistas novos] foi em Bari, na Itália. A turma de lá levou a gente para tocar em um festival de música eletrônica. A gente não tinha muita aproximação com esse pessoal que fazia música eletrônica na Europa nos anos 90. O Zé Roberto (que me chamava de “papa”) até falava: “papa, como é que a gente vai aguentar esse som aí? É muito som na cabeça!” (risos). Era cada caixa enorme! O final do show foi Azymuth, era em um cinema e no meio tinha um pianão maravilhoso, algo como um Petrof, um Steinway ou um Rosendorf, não lembro direito, era aquela coisa monstruosa. No final, todos que tocaram e que estavam lá ficaram em torno da gente, era algo meio semi-acústico, entre o eletrônico e o acústico. A partir daí fomos desenvolvendo, encontrando o pessoal na Inglaterra, os DJs, o pessoal que vinha da Jamaica… o Marc da banda 4 hero, um cara sensacional, fomos para o estúdio dele. Na época era um menino ainda, a gente já não era tão garotão. 

Pra quem não conhece, aliás, vai pesquisar: 4 hero, acid jazz, anos 90, sensacional!

É, o pau come. É moderno demais!

Aproveitando que estamos falando em festivais, me conta qual é a expectativa de vocês para o Festival Surreal? 

Boa! A gente está vendo agora uma coisa maravilhosa, única na nossa vida. Chegamos semana passada da Austrália. Cara, adorei. Fizemos um festival chamado Womadelaide, que era da Europa e foi transferido pra lá. Tinha música do mundo inteiro, foi muito lindo. Então eu acho isso legal, não é só festival de jazz, são festivais. São a coisa mais importante que tem para os jovens se encontrarem. Já fizemos alguns festivais pequenos em Santa Catarina, mas muito legais porque a gente encontra os jovens, essa é a nossa expectativa. Eu fiquei impressionado com [o Festival Surreal], esse “complexo” de coisas, esse festival no meio desse aparato. A expectativa é a melhor possível, poder difundir a nossa música para essas pessoas, da mesma forma que a internet tem nos aproximado dos jovens. 

Como que é essa energia de festivais e de públicos assim? 

Acho legal. Hoje em dia rola uma coisa muito boa, que é poder se inteirar de qualquer coisa que esteja acontecendo no mundo. Antigamente chegava baixo elétrico aqui e o cara tinha que dizer: “aqui é um baixo elétrico”. Perguntavam “porra, que guitarra é aquela? Tá de cabeça pra baixo”. Hoje em dia é tudo muito rápido, e essa turma nova não tem mais fronteiras, o mundo está conectado, todo mundo sabe o que está acontecendo em todo lugar. 

Alguém falou que o Azymuth é DJ dele mesmo…

Hahaha, você que falou isso!

Haha! Vocês fazem setlist?

Até fazemos. Não que precise. Nos tempos do Zé Roberto não tinha setlist nenhum. O Kiko é uma “versão nova do Azymuth antigo”, né. Então eu e o Mamão estamos tentando acompanhar o Kiko nesta versão atualizada, não saindo tanto daquilo que fazíamos. Mesmo assim acaba saindo muita coisa diferente, como sempre foi. 

E como é tocar com DJs como o Nuts? 

É uma amizade, a gente se conhece há algum tempo. Teve uma primeira vez, é claro, que sempre é complicado, porque [os DJs] têm que se adaptar ao músico. Apesar de poder fazer qualquer coisa, na verdade ele tem que ter o setlist, na minha opinião. Na gravação é uma coisa pré-combinada, mas nos palcos é como no Teatro, a peça é a mesma, mas os ‘improvisos’ são outros. Acontece uma magia que rola naquela mesma composição, naquela mesma estrutura. Tem atos, tem essas coisas todas. Eu chamo de ‘teatro dos sons’. A gente se desdobra em várias personagens, principalmente música que se desdobra em vários instrumentos. Precisa tocar bem, mas precisa mostrar bem, entendeu? É o que eu tento fazer. A música tem isso, cada vez você aprende mais com você mesmo, com o computador, com seu companheiro, né? 

Até sugiro aos DJs que se aproximem bastante dos músicos para entrar diretamente na música. A música existe, mas ela pode não existir a partir de então, pode se tornar uma outra coisa. É meio quântico o negócio, mas tudo é quântico, né? 

Tem coisa saindo do forno aí? Tá gravando, tem música nova? 

Tem sim! Já tem coisa que a gente tem na passagem de som, que fazemos muito rápido. Não estou me gabando de nada, mas passa muito rápido o som por causa da hora na estrada. Aí a gente chega no Brasil e uns caras ficam apavorados, ‘mas já’? Aí a gente aproveita pra passar uma coisa nova. Alguém apresenta alguma coisa e a gente vai seguindo; a gente leva pra casa, um em cada lugar, faz os recortes, retoca, depois a gente se une para terminar as coisas no estúdio, colocar a bateria — nada melhor que uma bateria em estúdio com todo aquele setup de microfone. O baixo também, e o órgão, que não tem jeito, tem que tocar no estúdio mesmo. 

[Então] a gente espera que tenha alguma música nova, quem sabe, se você pegar a passagem de som, ou torça para tocarem música nova no festival. 

Já temos uma, Belenzinho, que é nova, está ‘na boca’. Tem outra que gravamos, que é Vila Mariana. Foi tudo ensaio. E agora pode ter uma no Surreal, né? Quem diz? 

Agora uma pergunta muito importante, tradicional do Alataj: o que a música representa pra você?

Tudo. É tudo. Faz parte do meu todo. É a minha parte total, interior e exterior. Ela se projeta no exterior, através das estrelas, da coisa quântica, né, dessas energias todas que tem a ver… mas que a gente não conhece ainda muito bem, né? Porque a gente está aqui nesta dimensão, é meio difícil ainda sacar. 

A música conecta.