Entrevistas
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Alataj entrevista Guti

Figurando como uma das maiores potências sonoras da América Latina do cenário mundial da música eletrônica, Guti é uma mente inesgotável de criatividade e experimentação sonora de múltiplos universos. Do Hip Hop ao Jazz, do Ambient às bombas para a pista de dança, o artista tem uma carreira que é muito mais longínqua com a música do que a que acompanhamos.

Agora, por conta do distanciamento das pistas de dança, Guti se envolveu profundamente com outras sonoridades que não as mais agitadas e o resultado foi uma série de lançamentos com uma riqueza sonora ímpar. Dentre esses, está o lançamento da Modal Tune, um label que une Jazz à música eletrônica, que inicia os trabalhos com um álbum em parceria com o músico Sarkis Ricci.

Guti também é um dos participantes da belíssima série de remixes de Rita Lee e Roberto de Carvalho, projeto assinado pelo DJ, produtor e filho do casal João Lee. Para ele, o remix demonstra o carinho que tem não apenas pelo amigo João, mas também pela admiração que sente pelo trabalho de seus pais. Nesta ótima conversa, pudemos entrar um pouco mais na mente do artista em relação às suas criações em momentos pandêmicos, sua visão sobre o cenário e artistas da América do Sul, a participação no projeto de João Lee e outros assuntos bem interessantes. Vale a pena a leitura!

Alataj: Olá Guti, tudo bem? Obrigada por conversar com a gente! Você tem uma relação muito longa com a música, migrando por diversos estilos até chegar na eletrônica, hoje sendo um grande experimentador dentro dela e um nome muito respeitado no cenário. Olhando para trás, o que você acha que foi determinante para chegar onde está?

Guti: Olá! Sempre vi minha experimentação musical como uma forma de me manter vivo, permanecendo fresco. Comprometido e honesto. Com certeza ajudou o fato de eu ter entrado em cena com uma longa história anterior sobre música, então eu nunca me vi realmente como um artista eletrônico, apenas como um músico. Cada linguagem, cada fase deixa algo para você e eu ainda estou procurando.

O ano de 2020 foi intenso para você em termos de lançamentos e encontramos neles uma gama de estilos musicais impressionante que vai do Minimal Tech, ao House, ao Rap e sonoridades mais experimentais. Esses projetos foram todos executados na pandemia? O que você considera essencial para manter a criatividade ativa e ampla?

Eu trabalho na criação de Hip Hop, Instrumental e Jazz para sempre como uma forma de escapar. Cresci ouvindo instrumentais de J Dilla e é sempre meu favorito nos momentos de pico. 2020 foi um ano transformador. Como sempre, isso reflete na minha música. Com todas as mudanças que me fizeram parar as tours, meu senso de propósito desapareceu e fui para alguns lugares no meu estado mental. Fiz um álbum Ambient com Dani Ramos que intitulamos de Futuro Vazio e, por algumas razões misteriosas, o álbum sumiu do nosso disco rígido, bela metáfora. Uma polaroid de um momento de ilusões perdidas.

Falando sério. Foi muito difícil criar músicas originais como Guti sem um mundo real onde Guti existe. Eu criei toneladas de música para todos os meus outros projetos. Faço música todos os dias e muito compulsivamente.

Dessas produções, muitas são em colaborações, incluindo os dois álbuns lançados. O que te fascina tanto em trabalhar com mais pessoas dentro do estúdio?

Eu sempre me pego fazendo música com outras pessoas. É sempre fascinante e acho que faz parte do meu distúrbio de personalidade. Cada colaboração é diferente com David Gtronic – é um caso raro de habilidades e mentalidades absolutamente complementares. É uma relação musical muito sólida. Djebali foi uma ótima experiência em Paris, ele é um grande músico.

Chegando em 2021, você postou um vídeo apresentando o Modal Tune, um label que junta free jazz com música eletrônica e a colaboração do álbum debut é com Sarkis Ricci. O que já podemos saber sobre esse projeto?

Conheci Sarkis por acaso em Berlim. Ficamos viciados na dopamina de tocar juntos, fizemos centenas de músicas e gravamos milhares de horas. É algo lindo e eu nunca tive a chance de dar a um projeto esse tempo para crescer organicamente. Se algo positivo que esta pandemia me deu foi tempo para pensar e experimentar.

Este ano também saiu sua participação na comemoração de 20 anos da Poker Flat, um remix de uma bela faixa de Steve Bug & Cle’s. Como aconteceu esse convite? O que você pensa ser essencial na criação de um bom remix?

Eu amo Steve Bug, sempre amei. Um grande artista com uma visão que sempre admirei. Ele me contatou para fazer um remix e eu só queria remixar uma de suas músicas. Eu tenho uma abordagem para fazer um remix que é para me alienar da música original, eu apenas ouço as partes e tento fazer música com ela. Eu me sento lá e toco até que as partes falem comigo.

Falando em remix, você é um dos participantes do projeto de remixes da Rita Lee & Roberto de Carvalho, que é produzido por João Lee. Conte-nos um pouco como aconteceu esse convite e como se deu a escolha da música para remixar?

Ohhh, Rita Lee e Roberto Carvalho fizeram a trilha de uma geração. Ela é inacreditável e ele é inacreditável. Estou muito feliz e honrado por fazer parte deste projeto. Se você se lembra, eu tinha uma música no Crosstowns Rebels chamada Every Cow Has a Bird feita em colaboração com Dubshape. Bem, Dubshape é… João Lee e Ale Reis. João é um bom amigo que nos esforçamos para sempre fazer parte da vida um do outro e sou abençoado com essa amizade. Eu escolhi Mania de Você porque eu amo essa música. Tudo nela. A letra (falo português e a compreensão da letra me faz amá-la ainda mais) e claro, a voz dela!

A Rita Lee é uma artista brasileira consagrada e suas músicas são muito conhecidas pelo público, então realizar um remix pode ser um desafio e tanto. Como foi esse processo criativo da faixa?

Eu não senti isso como um desafio porque o original é uma obra-prima perfeita, então eu apenas tentei fazer algo diferente para que essa música existisse em outro reino. Eu estava gravando uma melodia modal naqueles dias, então consegui um solo em um piano Rhodes como a primeira coisa que vai ser lançada na faixa. O original tinha um riff de Rhode meio que The Doors e eu estava tipo “vamos deixar mais Jazz”.

Vamos falar de sonoridades latinas. Encontramos elas misturadas com a música eletrônica cada vez mais ao longo dos anos e também cada vez mais encontramos novos e talentosos artistas buscando seu espaço no cenário mundial da música. Você acha que ainda há falta de espaço e oportunidades para artistas latinos em outros continentes? O que acha necessário fazer para que o mundo conheça cada vez mais artistas latinos?

Si! El mundo esta bailando a nuestro ritmo ahora. Estou convencido de que agora é uma grande chance de um pequeno artista crescer. É difícil imaginar um mundo pós-covid, mas imagino que muitos artistas terão desaparecido e muitos surgirão. Sempre acontecia depois de uma mega crise ou guerra. Vamos ver.

Ainda que tenhamos esses excelentes artistas na América do Sul, a importação de nomes europeus em line-ups ainda é muito grande, mesmo que o custo desses bookings seja bem elevado para nossas moedas. Você acredita que, quando do retorno das atividades pós-pandemia, teremos uma relação mais intensa entre países da América do Sul?

Espero que sim. Com a crise financeira sem fim e nossos próprios problemas internos, está cada vez mais difícil competir. É uma grande chance de um intercâmbio de talentos mais sério entre os países latinos. Eu sempre voltarei e tocarei para meu povo, não importa o que aconteça. A América do Sul está cheia de artistas incríveis e sempre foi. É hora de acreditar neles!

Para finalizar, uma pergunta tradicional do Alataj: o que a música representa em sua vida?

Música é tudo que amo.

A música conecta.

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