Entrevistas
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Alataj entrevista Kika Deeke

Kika Deeke é uma das pérolas que  surgem em meio ao cenário eletrônico catarinense. Mas apesar de executar belíssimos trabalhos dentro da música eletrônica, a singularidade da assinatura da artista vem de seu laço com a musicalidade orgânica, que confere um toque ainda mais especial à sua execução como produtora e DJ.

Ela que é baterista e percussionista, sabe lidar com grooves e ritmos com uma naturalidade ímpar, e seus lançamentos por gravadoras como Gatopardo, Bioma Rec, e sobretudo o mais novo “Céu Aberto” que acaba de sair pela DSRPTV Rec, prova essa máxima de maneira fascinante. 

Conversamos com Kika para saber mais detalhes sobre seu último trabalho, além de suas referências e bagagens que conduzem sua trajetória como artista. Acompanhe!

Alataj: Lembro quando você estava começando a frequentar as festas mais voltadas para o eletrônico e em suas primeiras gigs em balneário com a festa Before. O que de fato despertou seu interesse em avançar da música orgânica para explorar um pouco mais do universo eletrônico?

Kika Deeke: Num determinado momento percebi que eu estava escutando mais música eletrônica do que orgânica e que queria tocar o que eu escutava. Discotecar me daria essa possibilidade, eu teria mais liberdade na escolha do meu repertório e poderia me expressar de forma mais independente. 

E essa característica de misturar o orgânico com o eletrônico com um toque mais fresh passou a ser o ponto-chave da sua assinatura sonora. Quais são os artistas que te inspiram para criar e que vibram também esse tipo de estética?

Na verdade acho um pouco difícil de responder porque eu vou escutando muita coisa diferente e misturada, e me conecto mais com as tracks do que com os produtores em si. Mas comecei escutando muito Bonobo e Nicola Cruz que com certeza me influenciaram, e no começo da pandemia, quando comecei minhas produções eu tava escutando bastante Reuben Vaun Smith e Gee Dee que também me inspiraram nesse sentido. 

Ao começar a produzir música eletrônica, você já tinha um bom know-how de estúdio devido a sua bagagem com bandas. Analisando esses dois processos, você encontra muita diferença na dinâmica de estúdio de um produtor de música orgânica, para o de música eletrônica?

Esses conceitos na prática podem se misturar bastante, né? Mas num geral sim, vejo que a composição de uma música orgânica acontece previamente e no estúdio ela é produzida e gravada com microfonação e captação de instrumentos físicos, sendo que o processo pede mais ensaio, pessoas e equipamentos. Na eletrônica, a composição e a produção acontecem mais simultaneamente, e já direto no estúdio, que pode ser só o produtor com um computador, um fone de ouvido utilizando samples e instrumentos virtuais. 

Hoje você é residente de dois núcleos, Tangerina e Gatopardo, e de certa forma, são coletivos que abordam uma atmosfera distintas entre si. Como essas duas residências contribuem para seu desenvolvimento como artista? E como equilibrar esses dois tipos de estéticas que caminham ligeiramente para lados diferentes?

Resumidamente com a Tangerina eu comecei a tocar em festas e com o Gatopardo eu comecei a produzir, ambos somam muito com diálogos e oportunidades de mostrar meu trabalho, sou super grata. Para equilibrar eu procuro respeitar a proposta de cada núcleo mas trazendo a minha bagagem pessoal, que inclui esses dois lados e também outros da minha pesquisas. Acho legal pensar em como posso somar numa situação me encaixando, mas também tocando coisas diferentes do que já está sendo tocado ali. 

No início do ano, você conquistou um espaço aqui no Alataj através para apresentar o Rítmica, um programa mensal, diretamente aqui do nosso Lab. Nos conte um pouco mais sobre a ideia por trás do nome e do programa em si… qual é seu grande objetivo a cada edição?

Minha intenção com o Rítmica é levar tracks que sejam interessantes para o exercício de apreciação desse aspecto da música, instigar as pessoas a realmente prestarem atenção nesses elementos e ampliarem suas possibilidades de referências. Seja pela presença de percussões destacadas, de linhas de bateria bem trabalhadas, de timbres menos convencionais ou por se conectar com algum ritmo de fora da música eletrônica.   

Até aqui já foram gravados sete programas e em breve teremos o oitavo. Como é a preparação para cada um deles? Pesquisa, definição do que entra e o que não… também tem servido como um espaço de evolução pra você?

Vejo o Rítmica como denominador comum da minha pesquisa, então aproveito pra explorar vários caminhos de maneira bem livre. Para cada programa escolho um tema pensando no contexto Brasil/mundo, em como eu me sinto naquele momento, qual mensagem eu gostaria de passar, e procurando levar algo que eu ainda não levei. Com certeza é um espaço de evolução, por exemplo em relação a lidar com microfone e câmeras, é um grande aprendizado pra mim. 

Agora focando nos seus últimos lançamentos, certamente o destaque do momento é o EP “Céu Aberto” que marcou sua estreia no catálogo da dsrptv.rec. O que você acha que tem na sua assinatura que se encaixa bem com a proposta do selo?

Acho que temos em comum o interesse por tracks que saiam da sonoridade mais padrão da música eletrônica, com texturas e sensações imaginativas. Escuto os releases da DSRPTV e viajo em paisagens, cheiros e sentimentos, adoro!

A faixa-título traz a participação de Inácio nos vocais, que contribui também com uma bela poesia para a melodia da faixa. Vocês já haviam trabalhado juntos antes? Como se deu esse processo de criação conjunta?

Sim, nos conhecemos há anos e já tocamos muitas vezes juntos – ele cantando e eu na bateria e percussão -, mas em produção foi a primeira vez. Eu já tinha a idéia do que eu queria pra Céu Aberto, no sentido de conceito. Um dia ele foi me visitar e eu tava com microfones montados sampleando meus instrumentos de percussão, e perguntei se ele queria gravar uns improvisos dentro da proposta. Coloquei um loop, ficamos gravando e depois eu fui trabalhando em cima. Foi bem natural e divertido, ele é uma pessoa muito inspiradora.   

Ainda sobre o EP, a Cauana é uma das produtoras que assinam um remix para Céu Aberto. Como foi ouvir a versão de sua faixa pelas mãos dela? O que você achou do resultado?

Uma das coisas que mais gosto na Cauana é que ela experimenta o não óbvio. Só sabia que viria algo diferente e que eu ia gostar, e amei. Me passou uma sensação ainda mais de amplitude e câmera lenta, só que curiosa – meio que submersa, debaixo da água. Ela me mostrou pessoalmente e foi a primeira vez que ouvi um remix de uma track minha, então foi bem especial. 

Ao ouvir não somente esse último lançamento, mas todos da sua trajetória até aqui, observamos que a percussão é outro elemento bastante presente. Claro que isso deve vir de sua bagagem como percussionista, certo? Como lidar com esses elementos que você costuma estar em contato físico e orgânico, mas agora estando em uma ótica digital, através de drum machines ou softwares?

Sim, eu amo percussões! Eu tenho utilizado samples, tanto dos meus próprios instrumentos que eu gravei, quanto de sample packs. Muitas vezes uso uma Roland SPD SX e um kick pad KD9, fica parecendo uma bateria eletrônica mesmo pra tocar com baquetas, coloco one shot samples e gravo em MIDI. 

E o que mais está por vir pelas mãos da Kika? Tem algo que você pode adiantar pra gente?

Acredito que ainda saia dois remixes e uma original track esse ano 🙂

Por fim, o que a música representa na sua vida?

Internamente faz a vida parecer mais viva, equaliza meu estado de espírito, emana minhas intenções. Externamente é meu meio de conhecer pessoas, lugares, experiências e oferecer algo pro mundo. 

A música conecta.