Faixa a Faixa | Ghetto Kumbé – Ghetto Kumbé [ZZK]

Advindos da costa caribenha da Colômbia, o Ghetto Kumbé considera-se um ritual eletrônico, onde ritmos tradicionais afro-colombianos através da gaita, vocais imponentes e uma variedade de tambores e ritmos se fundem com a elegante produção eletrônica de Tech House. Ghetto Kumbé cria uma paisagem sonora afro-futurista que ainda traz mensagens que motivam, elevam e inspiram o ouvinte.

O projeto é formado por três amigos que se inspiraram pelos diferentes movimentos emergentes revolucionários das mais diversas partes do mundo para criar o seu primeiro álbum, que leva o nome do projeto e foi lançado há alguns dias pela gravadora ZZK. Seu tom é profundo e traz uma nítida crítica às injustas diferenças entre classes sociais, comportamentos políticos antiéticos e, acima de tudo isso, uma necessidade de encorajar o próximo a lutar pela sua dignidade e lugar no mundo.

Nós tivemos o imenso prazer de receber o trio para comentar cada uma das faixas desse projeto, como foram feitas e a mensagem transmitida. Acompanhem.

Intro | É uma música que dá o início ao álbum de Tucumbe, intro é a chamada das vozes indígenas Guayu, que estão localizadas ao norte da Colômbia, na península da Guajira. Essas vozes nos invocam a conexão com outros mundos, fazem um Yubum ao chamado do bem-estar, das águas, e o chamado das águas se associa com um chamado de tambores, anunciando que algo intenso está prestes a acontecer.

Sola | É uma música que nos invoca num jeito introspectivo de olhar pra dentro, olhar quem somos, o que acontece dentro das nossas mentes, dos sentimentos que temos que deixar ir, de passar pelo processo e nossa alma está sozinha assimilando todos os processos de desapegos, de aceitação; de que essas almas podem transcender e chegar a um outro ser vivo. A faixa nos convida a união das almas, e que podemos ser a alma daquele passado que canta sozinho na ponta da árvore, que nossa alma pode ter empatia por outras almas. Nos convida a esse chamado interior, a nos analisarmos por dentro sem nos assustar com o que vemos.

Vamo Dale Duro | É a música para as pessoas que não estão numa boa, que ao acordar sabem que apesar de ter um novo dia, as próximas 24h serão uma batalha. É para aquelas pessoas que têm de se reinventar para sobreviver, tem muitas pessoas assim no mundo. Também fala de desigualdade, do porquê acontecem as coisas e estamos nessa desigualdade. É um chamado para mudar as coisas, para lutarmos pela transformação e se não gostamos de alguma coisa, vamos dale duro para que essa mudança aconteça, para que nosso bem-estar seja melhor.

Djabe | Foi uma música que nasceu na ilha Reunión, belo lugar. Ela fala sobre o encontro das culturas do Oceano Índico, a ilha é um lugar que convoca todas as culturas do Índico, onde existem pessoas de cultura africana, asiática, indica, francesa, etc. Todas essas culturas na mesma ilha fazem com que nasça muitas músicas, como o Maloya, que é um ritmo tradicional das ilhas Reunión, que mistura tropicalismo e as culturas do Oceano Índico. É uma música que também fala sobre a pessoa que vai para a festa e aproveita sem se dar conta do dançarino que está escondido na música. Melani nos acompanhou com a sua bela voz, é uma cantora muito reconhecida no âmbito musical na ilha Reunión. Conhecemos ela no Ozora Festival e daí começou o contato para fazermos uma música. Sua voz nos conecta com as pessoas que levam as mensagens do deserto, do mar ou de qualquer outro lugar no mundo.

Interludio | Foi uma track que contou com a participação de amigos músicos e tamboreiros como o León Pardo, excelente gaiteiro e trompetista de Cartagena; Frankin Tejedor, grande representante da música palanquera; Carlos Andres Bueno, um grande intérprete do tambor alegre, ritmos afro-caribenhos e muito mais. Nesta track fizemos um jogo com as dinâmicas das músicas tradicionais africanas, com instrumentos de dundun e os yembe, acompanhados da gaita colombiana, onde começamos o ritmo com um corte, que é como um código linguístico dos tamboreiros para logo descansar e, em seguida, dar início a um ritmo constante que nos envolve em um loop.

Pila Pila | É uma música inspirada na música da rumba cubana, os bonecos de Mataza, música tradicional afro-cubana, desses formatos de tambores, arranjos vocais, dos papines. Também contém uns cortes inspirados na música tradicional da costa do marfim. É uma canção com métrica ternaria, que nos une a muitos povos da América Latina e África, que nos envolve em ritmos que nos levam ao Trance nessa repetição constante, a euforia de como interpretar os tambores. Também estão os cantos como pra alegoria da rumba, ao Guaguancó, a esse sentimento afro-latino, que é uma identificação bem forte a partir dos anos 40, até a evolução da Salsa nos anos 60-70. Tudo isso que deu identidade latina ao mundo, graças a herança da música africana e tudo que nos leva ao jazz. A música fala também que as frutas não estão baratas, relacionando ao que parece uma mensagem encriptada, mas quer dizer que a maneira de conseguir as coisas não é fácil. Essa música contém todos os conceitos da música cubana, africana e todos os cantos latinos.

Cara Cara | Essa música nos convida a dizer tudo de frente, se não gostamos de alguma coisa é o momento de dizer, porque às vezes ficamos calados e esse silêncio reflete nos sentimentos. Temos que falar sobre as coisas que não gostamos, e não guardá-las. É uma música que possui toda influência das músicas ternarias africanas e latinas. Nos focamos muito nas músicas afro-latinas do Peru afro, também temos muitas influências das músicas mandinas nesse contexto das músicas de iniciação de rituais – músicas para celebração das máscaras. Então essas músicas ternarias com essas repetições nos mandam para o Trance, e combinada com todos os elementos da música eletrônica nos levam a um outro mundo, ontem podemos expressar esse tipo de mensagem a nível de texto e combiná-lo com todas estas músicas tradicionais.

Tambo | É uma música que homenageia o tambor, como um catalizador e filtro de emoções que nos acompanha desde as primeiras civilizações humanas, como elemento de comunicação entre os povos, como um instrumento para mudar e filtrar as emoções. É clara a história de saudade daquele amor que já não está, que se foi e não voltará mais e que o tambor é teu amigo e confidente, que vai te acompanhar para superar essa falta que a saudade deixou.  Seguir adiante com nossa vida graças ao tambor, que é nosso amigo e vai nos acompanhar durante todo esse processo.

Esta Pillao | É uma track que tem muito conteúdo de tropicalismo, de como se dizem as coisas no Caribe, de como analisamos os personagens do bairro, das esquinas, de como é a vida dessas pessoas que andam no mundo das aparências e ficção, que dizem coisas que vão além da realidade como na prática da mitomania. Também é uma história típica das esquinas, da pessoa que fala mal dos outros, que fala demais com o que sabe e com o que não sabe. Possui de ritmo o beat da champeta misturada com a estética da música de festa para um club, com elementos de eletrônica, sintetizadores, misturando tudo resulta na track Esta Pillao.

Pide Mas | É aquela música que te coloca à deriva numa atmosfera, como se estivesses buscando e esperando a resposta de algo. Como se encontrasses uma lâmpada mágica, esfregasse-a e aparecesse Tucumbe, e ele está ali para cumprir teus desejos, te damos tudo o que você quiser e mais, como o que Tucumbe vem trazendo. Tem muito ritmo, muita música esperando para sair, muita energia que queremos entregar a todos. E tudo isso marcamos em ritmos do Afrobeat, que acontecem em países como Gana, Nigéria, África do Sul e África Central, com os Afrobeats e Afropops, com toda essa polirritmia que a música contemporânea africana tem para nos oferecer.

Lengua Ri Suto | A track com Kombilessa havíamos pensado faz tempo, pois já estivemos com eles em outros festivais internacionais no Panamá, e na Colômbia já dividimos palco pois somos muito próximos. Temos amigos na comunidade Palenquera e somos admiradores do seu Flow, de como com a língua palenquera eles transformaram a música da sua comunidade. Eles são os criadores do Rap folclórico palenquero, que é um Rap na língua palenquera representado com instrumentos próprios da comunidade e das músicas tradicionais do Caribe colombiano, com a música dos tambores. Com vice twice e guajiro eles integraram o estilo do Kuduro, que é uma música contemporânea da eletrônica angolana.

Nesse contexto, Andres Padilla e Keyla colocaram o flow no início da música com toda essa acentuação particular da rítmica palenquera. E no final da música também aparece o guajiro com seu flow, falando da tradição cultural que se vive em San Basilio del Palenque, onde são reconhecidos pela interpretação do tambor, da tua vida rural, sua história musical em nível mundial, sua grande riqueza em plantas, na culinária e em muitos afazeres ancestrais que nos dão. Essa música é então uma homenagem a religião de San Basilio del Palenque que tem nos nutrido com toda sua sabedoria e com todo o melhor que eles sempre têm nos dado.

A música conecta.