Faixa a faixa

Faixa a Faixa | Kinkid – No Where Now [Gop Tun]

José Hesse, mais conhecido artisticamente pelo alias Kinkid, vem traçando um caminho exemplar dentro da música eletrônica contemporânea. Multi instrumentista e curioso incansável, Hesse cria live acts intensos que geram uma experiência sonora de linguagem multidisciplinar, executados com hardwares analógicos e sintetizadores modulares. Dentro desse universo sônico de diversas possibilidades, o artista explora facetas como o Noise, Ambient, Techno, House e  o IDM e traz referências do Breakbeat dos anos 80 e 90 e também do Miami Bass.

Além disso, é um dos heads da Domina, uma gravadora independente de música experimental do Rio de Janeiro, que também tem desempenhado um trabalho de ampla relevância para a cena local. Seu novo projeto, com lançamento previsto para sexta (11), chama-se No Where Now. São quatro recortes criativos e arrojados que carregam a mistura de mundos entre o orgânico e o eletrônico. Vale ressaltar a finalização feita pelo engenheiro de áudio Alex Sheeny na masterização. Confira o que Kinkid tem a dizer sobre as faixas:

One eyed-Lee | Eu tenho um carinho grande por essa música e é muito engraçada a história dela. Acho que começa em 2018, quando eu passei uma temporada em Nova York onde eu fiz inúmeras gigs, trabalhos de trilha e ghost producing. Em uma ocasião eu acabei ganhando um sintetizador modular como pagamento de um desses trabalhos, isso fez com que eu caísse numa vasta pesquisa sobre o mundo desses aparatos, levando meu som para um outro lado. Depois de quase dois anos estudando esse aparelho e tudo que ele permite, eu cuspi essa música numa espécie de expurgo. Lembro que fiz os takes e tentei arrumar na timeline do programa picotando esses barulhos e tentando ornamentar uma coesão rítmica. Depois de algumas horas as baterias vieram à tona. Tinha em mente sair um pouco do lance do quatro por quatro e basear a coisa toda no Miami Bass, a melodia de teclado foi uma terceira etapa. Após algumas brincadeiras, eu achei uma melodia que fazia sentido pra mim e que me remetia ao duo inglês Chemical Brothers. Me lembro de ouvir essa música ainda crua bem alto no meu estúdio e sorrir, simplesmente. Estávamos no terceiro mês de lockdown pela pandemia e essa música me fez realmente deixar tudo de lado e enfiar a cabeça ainda mais nos estudos deste instrumento.  

O clipe que fizemos para essa música foi editado pela diretora francesa Camille Danton. É uma pira de que a humanidade continua medieval, que todos nós somos bárbaros, sanguinários e brutos, só que com um grande agravante: o fluxo massificado de informação representado pelas milhares de flechas dos arqueiros do clipe.

Nifty friends | Eu curto essa música demais. Acho ela ao mesmo tempo indigesta pelas variações matemáticas de ritmo e naive pelas melodias e baixo. Durante o processo do disco tive uma grande baixa , meu computador queimou num desses dias quentes de verão. A música estava 80% mixada e eu fiquei agoniado por não ter um backup (tenham sempre backup das suas coisas), mas depois ouvindo outras vezes consegui me libertar desse perfeccionismo e tentei escutá-la com ouvidos de um espectador que nunca tinha tido contato com ela antes. Tudo ficou mais fácil. Na faixa específica, temos bons takes de sintetizador modular, o que traz ela um pouco mais pra fora da curva com um papel de síncope mais trabalhado. Se você me perguntasse se eu mixaria mais, eu diria que sim, ajeitaria mais os volumes, aumentando umas coisas e abaixando outras. Mas fico orgulhoso da maneira que ela é e também do meu desprendimento, o que às vezes é muito difícil.

We Heard That Before | Talvez essa seja a música mais orientada para club do EP. Confesso que ainda estou iniciando esse lugar de fazer música pra pista de dança, meu background musical vem de estar em contato com instrumentos, mas ao mesmo tempo tenho estado cada vez mais confortável nesse lugar. O nome faz alusão ao fato de que todos nós já curtimos e ouvimos bons House, batidas quatro por quatro com baixos contagiantes. Gosto do jeito que o loop de synth inicial se impõe incessante e pertinente e também do fato que, como instrumentista, não consigo deixar a coisa parada no mesmo lugar e já atravesso um tema com o outro, causando essa mudança de um lugar. Não sei se pode ser falha minha ou uma coisa positiva, mas é a maneira que eu componho. Queria muito ouvir essa música bem alto num sound system honesto, em alguma rave num futuro próximo. Gravei os sintetizadores no meu estúdio no Rio. Usei um prophet Rev2 e também um op1 para fazer a parte de teclas, o baixo foi feito em um Minimoog Voyager. Lembro que a parte de bateria eu concebi numa viagem de ônibus entre Rio e São Paulo nos balanços da cabine fria e escura daquele coletivo, foi uma saga [risos].

Coma Coma | Nessa faixa eu tento trazer o EP para um lado mais lúdico. Os áudios de vozes foram gravados em viagens minhas, simplesmente captando conversas entre amigos meus e seus filhos em lugares distintos do mundo. Eu tenho muito material desse tipo, adoro andar com um gravador por aí captando sons. Tentei amarrar a coisa toda da arte com essa faixa e conectar as crianças da capa com o som. Alinhar essa coisa infanto deixando de lado as responsabilidades da vida adulta e jogando tudo para um lado mais suave. Nada é como é. 🙂

A música conecta.

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