Iconic | Retro/Grade – Moda [Sony]

Pensando bem, acho que não haveria um momento melhor para resgatarmos essa faixa e sua história. Afinal, 2020 pode ser considerado o ano em que as sonoridades que fazem um tributo à safra dos anos 80 efervesceram. Esse som, que tem os synths em seu DNA, está por toda parte, só não está nas pistas ainda porque não podemos. E talvez a melhor das viagens sobre a música é como ela não segue a cartilha do tempo.

Quantas vezes você já ouviu uma faixa e pensou “que atual” e ela era mais velha que você? Ou então pensou “que retrô” e se tratava de um lançamento? Esse passeio ondulante, que vai e volta sem enjoar, talvez seja uma das características mais instigantes sobre essa entidade que nos cerca. Afinal, maior que a viagem acima é a gente entender música como música, já parou para pensar nisso? É insano refletir sobre o fato de que nosso cérebro decodifica tudo em uma velocidade bizarra, ligando os pontos e transformando ritmo, harmonia, melodia e o melhor: você é capaz de dançar isso. Enfim, muito obrigada, cérebro.

Mas vamos para a música em questão. Moda nasceu na derradeira do verão europeu, em setembro de 2009, quando Serge Santiago – co-fundador do Radio Slave – convidou Tom Neville para repaginar Italo Disco e dar uma cara mais modernista para o estilo como ele sempre gostou de fazer solo. Sabe como é né, você coloca um Electro retrô e sujo junto aos synths e voilà: nasce um ícone. O que saiu do estúdio foi justamente isso e além de tudo nascia o Retro / Grade. Nome esse que, por coincidência ou não, é designado para um jogo de videogame que é adornado por uma jornada musical e rítmica durante expedições espaciais e alienígenas cheias de bips. Se os ‘garotos’ tiraram o nome dali, eu não sei, mas deixo vocês tirarem suas próprias conclusões.

O projeto em si não durou muito tempo, mas a track sim. Assinada pela Deconstruction (Sony), ela chegou ao mercado em quantidades estritamente limitadas de vinil, esgotou em menos de uma semana e foi isso. Hoje, se você quiser comprar o disco, prepare-se para abrir a mão. Não bastasse todo esse frenesi do sold-out, ela demorou para chegar na versão digital. Quando você escuta a faixa consegue sentir essa nuvem nostálgica já nos primeiros segundos. Curioso, porque rodamos mais de uma década e a frase “que atual” pode estar pairando sua mente neste instante. Mais curioso ainda é que ela é um edit da faixa Coda, de Amin Peck, de 1982. Então, quando você sentiu a energia oito/zero e pensou “que retrô”, você sentiu certo. Ou melhor: seu cérebro entendeu tudo, por isso agradeça a ele como eu fiz em algum momento de devaneio neste texto.

Serão quase 10 minutos de mágica e lá vamos nós novamente avaliar aqueles tipos de músicas longas que contam mais de uma história em seu tempo de vida. Moda começa com um kick e uma bateria crua embaralhados que seguem assim por um tempo, visitados de tempos em tempos por um clap estridente que ecoa por alguns segundos. Sua bateria vigorosa dá lugar, então, a uma linha de sintetizador arpejada e elétrica e uma série de bips analógicos distorcidos vão invadindo a faixa gradativamente e que me lembram a odisséia do game. A faixa cai para um break só desses barulhinhos espaciais perturbadores que brincam com seu cérebro por um minuto inteiro até que um zumbido entra em cena. Lembra do Electro retrô que eu falei? Então…ficaremos nessa energia por um tempo até que ela volte para seu ritmo propulsor em uma etapa conclusiva inebriante. 

Agora meus amigos e minhas amigas, fiquemos aqui, juntos, imaginando o efeito dessa faixa na pista de dança. Como dizem seus criadores: para ser perfeito faça com que soe vintage, mas também atemporal e fresco. Acho, então, que Serge Santiago e Tom Neville concordam comigo sobre a viagem no tempo indisciplinada que só música sabe fazer, não é?

A música conecta.