No coração de Bucareste, Romênia, nos primeiros anos da década de 2000, três amigos – Rhadoo, Petre Inspirescu e Raresh – começaram a construir um fenômeno musical que viria a ser conhecido como [a:rpia:r] soundsystem. Nesse período, a cena de música eletrônica da Romênia estava se desenvolvendo e evoluindo, mas o país ainda estava reconstruindo sua infraestrutura cultural, especialmente no que diz respeito ao vinil. Para esses jovens artistas, adquirir discos recém lançados era um desafio significativo, já que havia pouquíssimos lugares para comprar vinis na Romênia quando eles começaram. Essa escassez inicial forçou o trio a buscar soluções fora da curva, algo que definiu para sempre seu compromisso com este formato de mídia.
A paixão pela música e a necessidade de ter acesso a material inédito levaram os três amigos a embarcar em jornadas que se tornaram verdadeiras sagas. Para conseguir os discos que desejavam, eles realizavam árduas viagens de trem de 24 horas de Bucareste para cidades como Praga e Berlim. Essas jornadas não eram meras idas às compras; eram vistas como peregrinações, atos de devoção ao seu ofício que exigiam uma dedicação extraordinária. Essa busca implacável por mídia física, realizada em conjunto, não apenas cimentou o vínculo entre eles, mas também reforçou um aspecto fundamental de sua identidade artística: um compromisso profundo e inabalável com a pesquisa musical.
Dessa paixão compartilhada e da necessidade de um canal para suas produções em ascensão, nasceu o selo [a:rpia:r] (ou RPR) em 2007. O nome do selo é naturalmente uma fusão dos nomes dos fundadores: Rhadoo, Petre Inspirescu e Raresh. O [a:rpia:r] foi concebido como uma plataforma para apoiar sua música sem compromissos, com foco na qualidade em vez da quantidade, sendo gerido integralmente pelo próprio trio. Desde a sua fundação, o label encarnou uma filosofia clara: defender a liberdade artística e o formato vinil, reproduzindo o esforço que os artistas colocaram na construção de suas próprias coleções.
A dedicação do selo estendeu-se à sua estratégia de lançamento, criando imediatamente um estatuto de culto em torno de sua música. Os primeiros discos do [a:rpia:r], como o RPR01 lançado em 2007, eram prensados em quantidades altamente limitadas, muitas vezes começando com cerca de 300 cópias. Enquanto o número de cópias cresceu com o tempo, essa escassez inicial, combinada com a alta qualidade de sua música, gerou uma intensa demanda. Em um mundo que se movia rapidamente para o digital, a postura do RPR de lançar seus trabalhos estritamente no vinil foi uma declaração sobre o valor da música como experiência.
Tal abordagem transformou os lançamentos do [a:rpia:r] em itens de colecionador, altamente procurados. A raridade garantiu que, em plataformas de revenda como Discogs, os discos do selo frequentemente alcançassem preços exorbitantes. Grădina Onirică, disco de Petre lançado em 2012, por exemplo, tem alguns anúncios na casa dos 1500 Reais. O fenômeno do RPR redefiniu o lugar da Romênia no mapa global da música eletrônica, solidificando o trio como embaixadores de um som minimalista maduro e refinado, que mais tarde seria amplamente reconhecido como Rominimal, sendo este não apenas um sub gênero na música eletrônica, mas a nomenclatura de todo um movimento.
Desde que consolidaram suas carreiras como DJs de projeção global, Rhadoo, Petre e Raresh viajaram o mundo em conjunto e com seus projetos solo levando suas respectivas assinaturas sonoras. De Bucareste à Londres, passando por Berlim e Barcelona; são anos e anos comandando pistas de clubs e festivais da primeira prateleira global. Infelizmente, são raras as passagens do trio pelo Brasil, especialmente tocando como [a:rpia:r] soundsystem. A boa notícia é que eles estão de volta neste Carnaval, como uma das grandes atrações do Surreal Park para o evento do club no feriado, marcado para o domingo, dia 15, onde farão um long set na pista Nomad. Duas décadas depois, aquelas viagens lentas e exaustivas entre Bucareste, Praga e Berlim seguem reverberando não apenas na sonoridade do [a:rpia:r], mas na própria ideia de tempo, dedicação e resultado que sustenta o que hoje se entende como a escola romena.