A permanência de espaços de dança em regiões acessíveis da cidade carrega um valor que merece a devida atenção. Ter uma pista por perto, ou ao menos conectada por transporte público e trajetos viáveis, interfere diretamente na forma como essa experiência pode ser vivida. Quando o deslocamento não exige uma operação cansativa, cara e arriscada, dançar deixa de ficar restrito a ocasiões excepcionais e a pessoas com melhores condições de sustentar esses momentos e passa a integrar com mais naturalidade a vida urbana. Isso amplia a frequência com a qual esses eventos acontecem, garante acessibilidade, diversifica o público e preserva a possibilidade de que mais pessoas encontrem, nesses espaços, uma forma concreta de expressão.
Dançar significa ter mais chances de sentir, de viver alguma coisa com intensidade no meio da rotina. Quando esse acesso existe, a semana não fica restrita ao que é obrigatório ou previsível. Existe a possibilidade de interromper o fluxo, de sair de um dia comum e vivenciar outra experiência sem que isso exija um esforço desproporcional.Ao longo do tempo, porém, essa possibilidade tem sido progressivamente comprimida.
Em muitas cidades, a valorização de determinadas áreas veio acompanhada de um processo de expulsão paulatina de espaços considerados incômodos, instáveis ou incompatíveis com uma ideia mais controlada e performática de urbanidade. Nesse movimento, impulsionado pela especulação imobiliária, clubs, bares e outros espaços de cultura noturna passaram a enfrentar custos operacionais crescentes, pressões de vizinhança e dificuldades cada vez maiores para permanecer em regiões centrais. Por consequência, a arte e a música que a envolve vão sendo deslocadas para zonas mais distantes, menos conectadas e, em muitos casos, menos seguras.
Essa mudança produz consequências que não se limitam à localidade. Quando a dança é empurrada para longe, o acesso também se estreita, pois fica mais caro chegar até os lugares, mais difícil voltar e mais desgastante sustentar uma rotina de circulação cultural. Ao mesmo tempo, aumentam os riscos associados a deslocamentos longos na madrugada, sobretudo em contextos em que a relação entre álcool e direção se torna mais presente justamente pela ausência de alternativas urbanas adequadas. Preservar espaços de música em áreas acessíveis também diz respeito à segurança, à mobilidade e à cidadania.
Defender políticas públicas capazes de manter a arte e a música nas regiões centrais não corresponde apenas a proteger modelos culturais específicos, mas a disputar um modelo de cidade. Uma cidade que expulsa a dança dos seus circuitos mais acessíveis empobrece a si mesma e sua capacidade de oferecer experiências que não se resumam ao trabalho, ao consumo previsível e à pressa, porque restringe experiências, reduz encontros e transforma em privilégio aquilo que deveria fazer parte de uma vida urbana minimamente democrática.
Dançar deveria ser compreendido com a seriedade de algo que participa da vida social, emocional e cultural de uma população. É um direito e não um incômodo. Proteger essa ideia também significa ter mais chances de viver de forma menos limitada em uma cidade que sabe acolher o lazer, as diferenças, as vontades e a presença.