Como o Deep Dish transformou o isolamento de Washington em um laboratório sonoro, fundindo o DNA punk de Dubfire com o house melódico de Sharam para redefinir dance music global
Em 2026, ao olharmos para a trajetória da Yoshitoshi Recordings, é impossível não enxergar o selo como um monumento à resistência criativa na música eletrônica. Fundada em 1994 em Washington pela dupla vencedora do Grammy, Deep Dish (Ali “Dubfire” Shirazinia e Sharam Tayebi), a gravadora consolidou-se como um pilar da cultura dance music global. Mais do que uma simples plataforma de lançamentos, a Yoshitoshi serviu como o laboratório onde o som considerado estranho (à época) do Deep Dish foi destilado, equilibrando o apelo comercial das paradas de sucesso com uma experimentação sonora profunda que desafiava as normas da década.
Um dos fatores determinantes para a identidade única do selo foi o seu relativo isolamento geográfico. Operando a partir de Washington DC, a Yoshitoshi sentia-se como uma ilha, distante dos epicentros tradicionais do house e techno como Chicago, Detroit ou Nova York. Esse distanciamento permitiu que a dupla explorasse ideias musicais que não estavam sendo necessariamente abordadas por outros artistas ou selos. Esse ecossistema local foi fortalecido pela lendária loja física da Yoshitoshi em Georgetown, que até seu fechamento em 2003, serviu como um ponto de encontro vital para diversos gêneros, vendendo desde vinis de drum & bass até roupas e acessórios.
A densidade informativa da Yoshitoshi revela-se na fusão improvável de influências que Dubfire e Sharam trouxeram para a mesa. O som do selo não deriva apenas da disco music ou do funk, mas carrega o DNA punk e industrial de DC. Antes de mergulhar no house, Dubfire frequentava a cena hardcore local, convivendo com nomes como Ian MacKaye (Fugazi) e Dave Grohl na loja Yesterday and Today, onde foi apresentado aos catálogos da Wax Trax! e On-U Sound. Essa bagagem permitiu que a Yoshitoshi escondesse “estranhezas” sob grooves de house, utilizando samples de bandas industriais como Test Department e Einstürzende Neubauten para criar texturas metálicas e rítmicas inovadoras.
Essa sonoridade era o resultado direto de uma batalha criativa entre as sensibilidades de seus fundadores. Enquanto Dubfire empurrava a agenda para o lado alternativo e industrial, Sharam trazia o amor pelo house europeu, pela disco e pelas melodias. O feitiço do Deep Dish e da Yoshitoshi residia nesse antagonismo altamente produtivo, que transformava o que poderia ser uma coisa meio Frankenstein em sucessos de pista orgânicos e sofisticados. Essa abertura mental também os levava a explorar gêneros como o drum & bass, que frequentemente tocavam em rotações mais lentas (33 RPM) para extrair novas texturas sonoras.
A filosofia de curadoria do selo, sintetizada pelo lema “It’s a Soul Thing”, sempre priorizou a emoção e a integridade artística sobre os rótulos de gêner o. Ao longo das décadas, a Yoshitoshi tornou-se famosa por não se prender a uma única pista, lançando desde techno e house progressivo até deep house e drum & bass. O duo já apontou que o critério para um lançamento sempre foi rigoroso: a música precisa ser única, bem produzida e ter um gancho identificável. Sharam e sua equipe filtravam semanalmente entre 100 e 200 demos, buscando o que chamam de “pensar diferente” para se destacar em um mercado saturado.
O legado da Yoshitoshi é indissociável da maestria do Deep Dish na arte do remix, que elevou a dupla ao status de lendas na década de 90. Ao contrário de produtores que apenas reforçavam os elementos originais, Dubfire e Sharam reconstruíam as faixas do zero, muitas vezes começando pelo ritmo e transformando músicas de artistas como Rolling Stones e Janet Jackson em hibridismos de rock e dance floor. Para o selo, o remix nunca foi apenas uma ferramenta de marketing, mas uma forma de levar a música a direções e públicos que o artista original jamais alcançaria sozinho.
Chegando a 2026, após o reencontro da dupla em 2025, a Yoshitoshi segue sendo lembrada pela sua relevância como um projeto que atravessou mudanças estruturais da indústria sem deslocar seu núcleo. A trajetória iniciada nos anos de fitas DAT, pagers e lojas físicas sobreviveu à revolução digital justamente por nunca tratar inovação como resposta imediata ao mercado, mas como desdobramento de um pensamento musical consistente.
Esse percurso encontra um reflexo simbólico no retorno do Deep Dish ao Warung neste sábado, 17, naquela que será a última apresentação da dupla no club antes de seu fechamento. Para além de um marco emocional, trata-se do encontro final entre dois agentes que, cada um à sua maneira, ajudaram a estruturar no Brasil e fora dele uma ideia de pista baseada em curadoria e busca pelo novo — valores cada vez mais raros em uma cena orientada por ciclos curtos e fórmulas repetidas.