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A música conecta

Raio X | LCD Soundsystem

Por Elena Beatriz em Notes 23.04.2026

Falar do LCD Soundsystem é inevitavelmente falar de um momento em que certas fronteiras dentro da música deixaram de fazer tanto sentido. Surgido no início dos anos 2000, em uma Nova York que ainda reorganizava sua vida noturna e suas referências culturais, o projeto aparece como um ponto de convergência entre diferentes universos que já tinham histórias consolidadas, mas que raramente se encontravam de forma tão direta.

Liderado por James Murphy, a construção do grupo passa também por nomes como Nancy Whang, Pat Mahoney e Al Doyle, que ajudaram a dar forma a uma dinâmica de banda que se sustenta tanto em estúdio quanto ao vivo. Essa configuração é parte essencial do que define o grupo: uma estrutura coletiva que permite que as ideias circulem com liberdade.

Ao invés de escolher um lado — banda ou pista, rock ou eletrônico — o LCD construiu sua identidade justamente nessa zona de atrito. Há uma compreensão profunda tanto da tradição das bandas quanto da cultura de pista, mas sem tratar isso como algo a ser conciliado de maneira forçada. O que surge é uma abordagem que transforma referências em prática, fazendo com que o mesmo repertório funcione em contextos distintos, seja em um festival de grande escala, em um pub ou em um club.

O LCD Soundsystem se tornou um caso particular de como repertório, timing e leitura de cena podem redefinir caminhos possíveis dentro da música. Um projeto que não apenas ocupou diferentes espaços, mas ajudou a reconfigurar a relação entre eles. A seguir, 4 prismas essenciais de análise para entender categoricamente o perfil da banda. 

Este é o Raio X do Alataj.

Uma banda que nasceu de uma rejeição

Antes de formar o LCD Soundsystem, James Murphy tentou seguir caminhos mais tradicionais dentro da música, incluindo bandas que não tiveram grande repercussão. O projeto surgiu quase como uma resposta a esse fracasso inicial, mas também como uma libertação criativa, pois em vez de tentar se encaixar, ele decidiu construir algo que refletisse exatamente suas referências — de David Bowie a Talking Heads, passando por Kraftwerk e Can.

O mesmo repertório em universos distintos

Se projetos como The Chemical Brothers levavam a eletrônica para o público do rock, o LCD Soundsystem fez o movimento inverso de levar uma banda de volta para dentro da pista, retomando um caminho que já havia sido explorado por nomes como New Order e Depeche Mode — mas em um momento em que esses universos estavam mais distantes. Deste modo, o LCD se inseriu em uma cena fragmentada entre nichos e passou a circular entre esses espaços sem se fixar em apenas um deles, a exemplo de eventos como o Skol Beats, o Glastonbury Festival e o Coachella Valley Music and Arts Festival, transitando entre públicos distintos e mantendo a mesma abordagem. 

DFA Records

A DFA Records surge no início dos anos 2000, fundada por James Murphy e Tim Goldsworthy a partir de uma vivência direta com a noite de Nova York, não como um selo pensado para atender ao mercado, mas como uma forma de organizar uma cena que ainda não encontrava espaço claro. Seu catálogo rapidamente passou a refletir essa proposta, reunindo artistas como The Rapture e Hot Chip, que transitavam entre o Pós-Punk, a Disco e outras vertentes da música eletrônica, consolidando uma curadoria que ajudou a aproximar linguagens que até então transitavam de forma mais apartada e criando uma base estética e cultural que sustentaria o próprio surgimento e desenvolvimento do LCD Soundsystem.

A pista como espaço para construção de memórias, não só de escapismo

Enquanto parte da música eletrônica trabalha com a ideia de suspensão do tempo, o LCD introduz uma perspectiva diferente, enaltecendo a memória como elemento ativo dentro da pista de dança. Em faixas como All My Friends e Losing My Edge, existe a construção de um sentimento ligado à passagem do tempo, às relações e ao próprio envelhecimento dentro da cultura, o que altera a forma como o momento da dança e da conexão podem ser percebidos: não apenas como um momento de fuga da realidade, mas sobre o que você pode extrair daquela experiência para criar boas lembranças de maneira coletiva e pessoal ao mesmo tempo.

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