A pergunta do título é um questionamento central para entender o Stadium House, um subgênero da música eletrônica que surgiu no Reino Unido na virada dos anos 90. No centro dessa revolução estava o duo The KLF, formado por Bill Drummond e Jimmy Cauty, que não apenas cunharam o termo, mas também se tornaram os maiores vendedores de singles do mundo em 1991, segundo dados da IFPI, enquanto utilizavam sua fama como uma plataforma para provocações conceituais e caos artístico deliberado.
Historicamente, o Stadium House foi uma evolução do Acid House de Chicago, que, ao chegar ao Reino Unido em meados de 1987, rapidamente transbordou dos clubes íntimos para galpões abandonados e espaços de grande capacidade. Durante o chamado Second Summer of Love em 1988, as festas raves cresceram de tal forma que exigiam uma sonoridade mais ampla e cativante, capaz de mobilizar multidões em estádios e festivais como Glastonbury. Foi nesse cenário de transição do underground para o mainstream que o gênero se consolidou, unindo a euforia das pistas de dança à escala monumental dos concertos de rock.
A sonoridade do gênero é definida por uma produção bombástica, caracterizada por batidas de house potentes, vocais com eco e o uso inovador de samples de multidões e gritos de torcidas para simular uma euforia comunitária em larga escala. A Stadium House Trilogy do KLF, composta por hits como 3 a.m. Eternal e What Time Is Love?, exemplifica perfeitamente essa estética ao misturar bases de acid house com crescendos orquestrais e ambientes de estádios fictícios. Outros artistas, como o duo Utah Saints, também foram fundamentais, integrando elementos de banda ao vivo e samplers para criar hinos que dominavam as paradas de sucesso da época.
O que tornava o Stadium House único, porém, era a natureza satírica e provocadora de seus líderes. Enquanto dominavam as paradas, o KLF realizava atos de rebeldia, como queimar cópias de seus próprios discos ou a infame performance no BRIT Awards de 1992, onde dispararam tiros de festim (metralhadoras) e entregaram uma ovelha morta na festa oficial. Para Drummond e Cauty, o gênero era uma crítica lúdica ao excesso pop, um experimento que utilizava o espetáculo para questionar a própria indústria que os celebrava, culminando em sua aposentadoria abrupta como um gesto de desprezo pelo mundo comercial.
Embora o gênero tenha tido uma vida curta, perdendo força já em meados da década de 1990 devido a leis britânicas rigorosas contra raves e à saturação do mercado, seu legado é inegável. Ele serviu como uma ponte crucial entre a energia crua do Acid House e o espetáculo visual dos grandes festivais de EDM modernos, influenciando diretamente o surgimento de outros estilos, como o Electro House. O Stadium House permanece na história não apenas como música, mas como um momento em que o caos, a arte performática e a euforia das massas colidiram para desafiar o status quo da música pop.