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A música conecta

Tiga e uma reflexão: perdemos nosso filtro de qualidade?

Por Alan Medeiros em Notes 07.05.2026

Em uma recente entrevista para o Resident Advisor, onde abordou criação, excesso e cultura digital, Tiga argumenta que a transição para uma era de “armazenamento infinito na nuvem” removeu a necessidade técnica que antes forçava artistas a fazerem escolhas difíceis. A ideia não diz respeito apenas ao espaço disponível para guardar arquivos, mas a uma mudança mais ampla: hoje é possível produzir, acumular, testar e distribuir em volume muito maior, com menos barreiras materiais e menos pressão imediata para decidir o que realmente deve permanecer. No passado, limitações físicas — como um rolo de filme com apenas 24 poses — impunham uma disciplina de edição em que o criador precisava avaliar com mais rigor o que tinha valor. Sem essas barreiras, o incentivo para o descarte diminuiu, resultando em uma cultura de excesso na qual o volume de produção frequentemente atropela a intenção artística.

Essa mudança também é alimentada por uma pressão sistêmica de empresários, agentes e plataformas que recompensam velocidade, constância e presença contínua. Tiga observa que artistas são hoje incentivados a inundar as plataformas com lançamentos constantes, mantendo a máquina do algoritmo em movimento com faixas que ele classifica como “nota sete ou oito”. No entanto, defende que um acúmulo de músicas medianas dificilmente terá o mesmo peso ou valor duradouro de uma única obra “nota nove”, construída a partir de um processo rigoroso de refinamento. A questão, portanto, não é negar que a tecnologia tenha democratizado a produção e a circulação musical, mas observar o que acontece quando essa abundância deixa de ser acompanhada por edição e critério.

Para o produtor musical, a arte de filtrar é inerentemente dolorosa e desagradável, pois exige sacrificar ideias que podem parecer boas em nome de algo superior. Tiga traça um paralelo com a poesia e a dança, em que a precisão de um verso ou movimento é comparada a uma “pedra polida”. Essa precisão só é alcançada por meio daquilo que é “deixado no chão da edição”, transformando o trabalho em algo mais irredutível e essencial — uma prática que Tiga considera uma das maiores perdas da cultura digital atual. Na música eletrônica, esse ponto se torna especialmente sensível porque a facilidade de lançar continuamente pode enfraquecer a relação entre repertório, identidade e construção de catálogo.

O resultado dessa falta de rigor é uma produção cultural mais frouxa e pouco criteriosa. Ao perder o senso de escassez, a arte corre o risco de deixar de ser um objeto cuidadosamente construído para se tornar apenas mais um fluxo contínuo de conteúdo. A conclusão não está em recusar a tecnologia, mas em recuperar o valor do corte através de um processo que prioriza a decisão difícil. Para Tiga, sem esse resgate, o ecossistema artístico tende a ser corroído por uma produtividade que serve mais à manutenção do volume do que à criação de obras realmente necessárias.

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