The Brothers Beats

The Brothers Beats | Hip Hop é Dance Music e Dance Music é Hip Hop

Finalmente essa linda série de textos está saindo. Não, sério, vocês não estão ligados como eu queria falar de forma visceral sobre a cultura Hip Hop por aqui, chega a ser uma questão de honra e necessidade falar sobre como esse movimento que representa um mar de gente foda conectadas pela música, dança, moda, comportamento e o ponto mais importante do Hip Hop: a revolta. O Hip Hop é uma forma de protesto, de reivindicação e de conquista de espaço, uma forma de retratar a realidade que muitos não enxergam por diversos motivos, inclusive por descaso. 

Se você não gosta de Hip Hop e tudo que ele representa, tá tudo bem. Eu e minha companheira Laura Marcon – que vai fazer b2b comigo nessa empreitada – te convidamos a acompanhar essa série. Pode ser que você descubra que gosta de Hip Hop e nem sabe. Mas se você é do tipo que faz piadinhas de como esse movimento se porta e se projeta em suas diversas frentes, acha que é música de bandido e vive falando que Rap só fala de morte ou seja lá qual outro pré-julgamento que você tem aos que vivem e admiram a cultura Hip Hop, a gente insiste para que você leia The Brothers Beats. A partir de hoje o papo por aqui será reto, então fica ligeiro.

Antes de começar a discorrer, montei essa playlist com algumas músicas da primeira geração de DJs e MCs da história do Hip Hop e te garanto que ler o que tá escrito aqui enquanto você a ouve vai incrementar – e muito – o que vou falar. Dá play aí, fera! 

Será que o Hip Hop tem algo a ver com a Dance Music? 

Sendo bem direto na resposta para a pergunta que te fiz, sim. E digo mais: o Hip Hop é Dance Music assim como Dance Music é Hip Hop. Como tudo na vida, existem momentos e caminhos diferentes e, ao ouvir as sonoridades mais atuais do Hip Hop e compará-las com a Dance Music de hoje, você vai notar uma série de diferenças, mas a essência de ambos movimentos continuam a mesma, a começar pelas origens. 

Tanto o Hip Hop quanto a Dance Music foram criadas por negros e hispânicos nos subúrbios de cidades americanas como Nova Iorque, Nova Jersey, Detroit e Chicago. Os dois movimentos surgem em um momento complicado nos Estados Unidos, a falta de oportunidades e o preconceito sobre negros e imigrantes é tremenda, a força policial abusa de sua autoridade sobre essa parcela da população, além de serem excluidos nos mais diversos setores da sociedade, como educação e cultura, esportes e política. Como em vários outros momentos da linha do tempo humana, sempre que uma parcela da sociedade se vê acuada perante o restante, movimentos de reação surgem e a Dance Music e o Hip Hop são exemplos perfeitos desses movimentos. 

Nos anos 80, a Disco Music passou por um momento de estagnação causado pelo domínio que a indústria fonográfica – comandada por brancos – teve neste movimento musical. Inúmeras tentativas de descreditar o estilo foram feitas e os motivos são ridículos, como a homofobia. Uma das mais impressionantes foi o Disco Demolition Night, um evento – se é que podemos chamar assim – que aconteceu em 1979 na cidade de Chicago. Em um estádio de baseball lotado, palavras de ódio e preconceito eram ditas enquanto uma pilha imensa de vinil foi explodida. Sim, explodida. Nem preciso falar do quebra pau que isso virou, né? Vale demais você dar um Google sobre esse fatídico dia. 

A Dance Music – ou como chamamos, Música Eletrônica – nada mais é que o Disco tentando se reerguer. Com todo auê causado pelos protestos contra o estilo, o movimento foi duramente enfraquecido fazendo toda uma rede de profissionais buscar outras alternativas para continuar a fazer o que sabiam e é aí que surge o Hip Hop, um estilo que deixa de lado as letras românticas e batidas mais lentas e foca em mensagens sobre bons momentos e também muito protesto social. 

O lado emo da Disco Music passou a ser explorado por artistas que, sem saber, estavam fazendo House e Techno, tornando-se a trilha sonora das pessoas LGBTQI+, que preferiam as qualidades da Dance Music ao Hip Hop na sua grande maioria, além do fato de que, infelizmente, o Hip Hop, em alguns de seus biomas, não recebia a comunidade LGBTQI+ de braços abertos. 

Mas o Hip Hop e a Dance Music não soam diferentes? 

Não, nem um tiquinho sequer. Eu sei, pode ser que na sua mente você enxergue óleo e água e eu entendo. Todos nós fomos condicionados a separar os estilos em caixinhas graças as indústrias fonográfica e do entretenimento, que transformaram a música em produtos. Não vou me ater a esse assunto pois ver todo esse movimento é compreensível, já que é o caminho natural de tudo que dá certo no mercado e ganhar dinheiro é bom e todo mundo gosta, né? 

Sabe por que o Hip Hop e a Dance Music não são tão diferentes quanto pensamos? O primeiro motivo é que ambos movimentos foram geridos pela Disco Music, e neste momento, caso você esteja ouvindo a playlist, vai estar ouvindo algo bem familiar ao seus ouvidos, uma sonoridade que festivais como Dekmantel adoram explorar. Você achava que era Disco ou House, né? Pois é, eu falei que talvez você gostasse de Hip Hop e nem sabia.

O grande elo entre a música entre os dois estilos é que ambos se ergueram através de samples e, como de se esperar, o mesmo sample que era usado para fazer Rap era usado para fazer House. E o jogo segue assim até hoje em alguns estilos tanto do Hip Hop quanto da Dance Music.

Além dos samples, as batidas do Rap, House e Techno também eram construídas pelos mesmos equipamentos, como a TR-909 e a TR-808. E, pasmem, O Hip Hop e a Dance Music também compartilhavam dos mesmos profissionais quando o assunto era estúdio. Você sabia que o Kenny Dope do Masters At Work era um DJ de Hip Hop e beatmaker antes de ser o que é hoje? Em uma entrevista concedida recentemente ao Duck Sauce, duo formado por A-Trak e Armand Van Helden, Dope disse que começou a fazer House Music por conta da alta demanda que a loja de discos em que ele trabalhava tinha. Quando ele viu que sabia fazer House Music e que além disso tinha curtido fazer, foi um caminho sem volta. Um exemplo nacional que temos de artista que começou no Hip Hop migrou para a Dance Music é o DJ Marky.

Não demorou muito para que cada estilo passasse a amadurecer suas personalidades, assim digamos. O Hip Hop a partir da metade dos anos 80 passou a ter uma sonoridade mais crua e impactante, valorizando as rimas dos MCs no então recém-criado Rap. Já a Dance Music tomou um caminho de longas versões. Músicas extensas e de repetições cadenciadas passaram a ser a camiseta preferida da House Music e do Techno, que a essa altura ainda não se chamavam House e Techno. Mas essa é uma história para o próximo capítulo de The Brothers Beats e que será contada por ela, Laura Marcon. 

Peace Out!  

A música conecta.

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