Entre o final dos anos 90 e meados dos anos 2000, o Progressive House alcançou um de seus momentos de maior projeção global. Nesse processo, o nome de Sander Kleinenberg se consolidou como uma das referências do gênero na virada do milênio.
Nascido em Delft, na Holanda, Kleinenberg iniciou sua trajetória como DJ ainda nos anos 80, mas foi na segunda metade dos anos 90 que passou a ganhar destaque como produtor. Sua participação em séries como Global Underground e Renaissance Records — plataformas decisivas para a circulação mundial do Progressive House naquele período — ampliou sua visibilidade em cenas estratégicas do mercado da música eletrônica, como Reino Unido, Estados Unidos e Espanha.
Desde cedo, Kleinenberg evitou se fixar em um único formato. Enquanto consolidava seu nome com faixas que circulavam no circuito Progressive da virada do milênio, também expandia o papel do DJ para além da música, integrando imagem e som em seus sets com VJs e colaborando no desenvolvimento do mixer audiovisual SVM-1000 ao lado da Pioneer. A cabine deixava de ser apenas sonora e passava a atuar em duas dimensões.
Essa flexibilidade também se refletia nas residências internacionais — de Pacha em Ibiza a Avalon em Los Angeles — que ele descrevia como espaços onde podia experimentar, testar mudanças de direção e compreender o comportamento de diferentes públicos antes de transformar essas experiências em produção. Além disso, ao fundar seus próprios selos, incluindo a conceituada Little Mountain Recordings, Kleinenberg fortaleceu sua atuação também como articulador dentro da indústria.
Ele passou a entregar faixas extensas, densas e ao mesmo tempo etéreas, capazes de sustentar groove e emoção, que passaram a integrar sets de DJs que trabalhavam com narrativas longas e construção gradual de pista — formato dominante no início do milênio. Essa assinatura, que equilibrava atmosfera e movimento com identidade reconhecível, ajudou a consolidar um modelo de produção que atravessou a virada do século como sinônimo de sofisticação, dissolução do tempo, energia e equilíbrio dentro do House. A seguir, destacamos 11 faixas desse período de sua carreira que ajudam a compreender sua influência e o peso histórico dessa fase.
S’N’S, Stef Vrolijk, Sander Kleinenberg – Y.D.W | Strictly Rhythm (1996)
Y.D.W marca um dos primeiros registros de Sander Kleinenberg ao lado de Stef Vrolijk. A faixa se apoia em um groove contínuo e em camadas que se acumulam de forma gradual, privilegiando fluidez, emoção e construção de atmosfera. Em um momento em que o Progressive House ainda consolidava sua identidade fora do eixo britânico, a produção evidencia atenção à construção rítmica e ao desenvolvimento gradual dos elementos, antecipando a assinatura que Kleinenberg refinaria na virada do milênio.
Sander Kleinenberg – Sacred (The Sunrise Mix) | Black Hole (1999)
Sacred (The Sunrise Mix) mostra Sander Kleinenberg em um momento em que as fronteiras entre Progressive House e Trance ainda estavam sendo definidas. A versão Sunrise Mix trabalha com pads amplos, progressões melódicas ascendentes e uma construção gradual que destaca energia e um clima hipnótico, evoluindo de forma contínua, com camadas que se expandem lentamente até alcançar um ponto de maior abertura harmônica.
Sander Kleinenberg – My Lexicon | Armada Music (2000)
Constantemente lembrada por fãs e DJs das cenas de Progressive e Trance dos anos 2000, My Lexicon figura hoje entre os momentos mais emblemáticos da carreira de Sander Kleinenberg — tanto que continua sendo reinterpretada décadas depois. A faixa combina uma linha de baixo firme e repetitiva com uma melodia que flutua por camadas de pads e sintetizadores, gerando uma sensação de movimento contínuo que abraça a pista com intensidade crescente. Sua estrutura, mais associada ao Progressive House clássico com nuances de Trance, cria um efeito de imersão que muitos ouvintes descrevem como uma viagem no tempo durante a faixa.
Sander Kleinenberg – Slipper Sleaze | Armada Music (2000)
Aqui, mais uma vez, Kleinenberg entrega uma faixa feita para sustentação de pista, longa e sem pressa. Em vez de uma linha melódica cantável, o efeito está na sensação física da faixa: um baixo com presença constante e timbre escorregadio, com texturas que parecem como um glitch ao redor, criando um movimento que dá a impressão de que a estrutura está sempre mudando de forma por baixo da faixa.
Ben Shaw feat. Adele Holness – So Strong (Sander Kleinenberg Remix) | Groovilicious (2001)
No remix de So Strong, Sander Kleinenberg transforma a track original em uma atmosfera mais densa. O vocal de Adele Holness permanece como fio condutor emotivo, mas aqui ele é envolvido por uma base mais extensa, onde a introdução segura a tensão antes de liberar o groove completo, e quando o refrão retorna, soa como o ápice do percurso.
Röyksopp – Poor Leno (Sander Kleineberg’s Northern Beach Mix) | Wall of Sound (2001)
Aqui Kleinenberg entregou uma das reinterpretações mais marcantes de Poor Leno. Lançado em 2001, o remix rapidamente ganhou espaço nas pistas ao transformar o Synthpop norueguês em uma versão House de caráter solar, aberto e envolvente. O vocal permanece reconhecível, mas passa a flutuar sobre uma base mais pulsante, enquanto os sintetizadores ganham brilho e direção clara de pista — uma releitura que não envelheceu um dia sequer.
Lexicon Avenua – From Dusk Till Dawn (Sander Kleienenberg Remix) | Kaos Records (2002)
No remix para From Dusk Till Dawn, do trio britânico Lexicon Avenue, Kleinenberg trabalha dentro de um território que já lhe era familiar, mas imprime assinatura própria. A versão estende a faixa em uma construção longa e progressiva, com introdução espaçada e groove que se estabelece de forma gradual antes da entrada mais evidente dos elementos melódicos. Diferente de um remix que busca inovar sobre a estrutura da ideia original, aqui a proposta é refinamento: manter a identidade progressiva e reorganizá-la com mais clareza estrutural e dinâmica.
Sander Kleinenberg – Soul Shelter | Little Mountain Recordings (2003)
Soul Shelter é daquelas que possuem energia ascendente, mas nunca apressada; ela envolve pelo groove, pelo vocal, pela emoção transmitida. Diferente do lado mais introspectivo de outras produções da época, Soul Shelter tem uma característica mais expansiva — é música feita para aquele momento em que o club já está cheio e a noite começa a virar dia. Uma faixa que ainda soa porque continua sendo irresistível na pista.
Sander Kleinenberg ft. Miss Bunty – Work To Do | Armada Music (2003)
Em Work To Do, Kleinenberg aposta em uma leitura mais direta e vocal do seu som, sem abandonar a identidade de pista de suas primeiras produções. O vocal de Miss Bunty traz presença e personalidade e funciona como eixo da faixa. A produção aposta em um groove envolvente e caloroso, com baixo pulsante e acordes que entram em camadas bem definidas, criando uma sensação de avanço constante. Há um equilíbrio interessante entre peso e leveza: a faixa é dançante e energética, mas mantém clareza e espaço entre os elementos, o que a torna pronta para dialogar com um público mais mainstream, mas ainda reforçando a identidade que o trouxe até grandes catálogos como o da Armada Music.
Sander Kleinenberg – The Fruit | Armada Music (2004)
The Fruit marca uma mudança evidente em relação às produções mais etéreas do início da carreira de Kleinenberg. Se antes ele apostava em progressões longas e atmosfera expansiva, aqui o foco está em uma energia mais seca e direta, com menos camadas harmônicas. Há influência da House que dominava Ibiza e os grandes clubs no início dos anos 2000 — mais quente, mais corporal, menos contemplativa — e é essa mudança de abordagem que evidencia uma transição importante na trajetória do artista naquele período.
Ashtrax – Helsinki (Sander Kleinenberg Remix) | GRAND Music (2012)
No remix de Helsinki, Kleinenberg trabalha uma atmosfera mais introspectiva, mas sem pesar a mão. A faixa tem um clima mais sério e concentrado, sustentado por um groove firme que avança com constância, enquanto os sintetizadores desenham linhas tensas e elegantes. Diferente da fase mais solar dos anos 2000, aqui há mais contenção e maturidade na condução dos elementos, dentro de um registro mais sóbrio, alinhado ao contexto da época e à evolução do próprio Kleinenberg naquele momento.