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A música conecta

Moxie: rádio e cultura de pista

Por Elena Beatriz em Trend 14.01.2026

Historicamente, as rádios sempre foram espaços produtivos para a música eletrônica se reinventar. Ali, artistas se conectam, gêneros se cruzam e novas narrativas se formam. A DJ e articuladora cultural, Moxie (Alice Moxom), se insere diretamente nessa construção coletiva ao utilizar essa ferramenta de comunicação como extensão direta do seu ofício, posicionando-a como um dos nomes mais consistentes da cena cultural londrina pós-2010.

Parte central de sua trajetória passa, inevitavelmente, pelo universo das rádios independentes, onde Moxie desenvolveu uma das curadorias mais respeitadas da última década. Desde seus primeiros passos, começando em 2010 na Kiss FM e, a partir de 2011, consolidando uma das residências mais duradouras da NTS Radio, com convidados que vão de Jeff Mills a Four Tet, Moxie construiu um papel raro: em uma era de streamings, fez com que o rádio mantivesse a posição de mediador cultural, onde artistas emergentes encontram espaço, e onde o ouvinte é convidado a descobrir novos movimentos. Assim, tornou-se referência pela amplitude de possibilidades de escuta promovidas e pela coerência com que narrativas musicais distintas são colocadas em diálogo simultâneo. 

Essa capacidade de antecipar movimentos se reflete diretamente em sua atuação como disc jockey e a posiciona como uma tastemaker central do underground. Suas seleções, marcadas pela fluidez do House, Techno de Detroit, Breakbeat, Electro e UK Garage, reforçam uma assinatura que representa o espírito híbrido da música eletrônica contemporânea. Além disso, artistas e sonoridades que passam por seus sets, programas ou recomendações frequentemente aparecem como presságio do que a cena londrina abraça em seguida, seja meses ou anos depois. Trata-se de um tipo de autoridade advinda da confiança que construiu ao longo do tempo.

Para além de suas habilidades como seletora e curadora, em 2016, Moxie fundou a plataforma multidimensional On Loop, posicionada como record label, festa itinerante, espaço de mentoria e incubadora de vozes emergentes. A proposta é estruturar caminhos para talentos que transcendem rótulos e convenções, oferecer visibilidade a identidades sonoras diversas e criar um espaço de conexão onde artistas em diferentes momentos de suas trajetórias coexistem sob a mesma visão e sensibilidade. Os lançamentos de On Loop, que envolvem artistas como Shanti Celeste, Desert Sound Colony, Matisa e Nicola Cruz circulam por clubs e festivais, enquanto seus eventos reúnem públicos adeptos à pluralidade. O resultado é uma comunidade conectada a afinidades reais e por um entendimento compartilhado da música eletrônica como cultura e ambiente de valor, e não apenas como produto.

Enquanto artista, Moxie reflete esses mesmos princípios. Nas apresentações, sua técnica prioriza narrativas sonoras fluídas, onde transições entre estilos são mais brandas, desenvolvendo uma atmosfera que aparenta traduzir uma conversa íntima entre ritmos e texturas. Essa dinâmica faz com que seus sets sejam experiências que guiam a pista em vez de simplesmente responder a ela. Ao mesmo tempo, a maneira como se porta se distancia de estereótipos do mercado que privilegiam superexposição visual ou performances extravagantes. Moxie sustenta sua relevância através da consistência, sabedoria e de uma curadoria contínua, preservando o valor da música em si e o espaço que ela ocupa na cultura.

A influência de Moxie se estende muito além do Reino Unido. A artista já produziu mixes para Resident Advisor, Essential Mix da BBC 1, Beats In Space e é presença regular em eventos de prestígio global, incluindo Panorama Bar, Glastonbury e Sonar, levando uma assinatura diversa, pautada na experimentação e em progressões graduais para públicos que muitas vezes entram em contato com essa abordagem via rádio/internet. No Brasil, sua presença confirmada no Gop Tun Festival 2026 (ao lado de nomes como Jayda G, FJAAK, Mount Kimbie e Sherelle) marca um momento alto dessa circulação internacional, a indica como uma das atrações mais aguardadas do circuito e insere essa trajetória em um conexão direta com cenas que compartilham valores semelhantes de curadoria e atenção à pista como espaço coletivo.

Ao longo de toda essa caminhada, a defesa da diversidade e da representatividade aparece como prática constante em sua atuação. Seja em suas apresentações, na escolha de artistas para o On Loop ou na visibilidade oferecida em seus programas de rádio, ela contribui ativamente para a revisão de padrões de exclusão dentro da indústria, ampliando possibilidades de participação e reconhecimento de culturas diversas dentro do mesmo jogo. Moxie não se apresenta como centro das atenções, mas como elemento de sustentação que ajuda a manter a inovação da estrutura, criando condições para que novas ideias circulem, se desenvolvam e encontrem sentido — e assim ela promove, paradoxalmente, a fórmula mais sólida de seu protagonismo.

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