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Vitrola review | Gal Costa – Índia

Ah, a Gal… Se tem uma artista que me faz suspirar de amores dentro da música brasileira é a baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos, ou melhor, Gal Costa. Na minha opinião Gal tem um timbre tão ímpar, é suave, mas ao mesmo tempo imponente. Sua voz é capaz de te abraçar, acalmar e em outros momentos animar, agitar e te levar para além deste universo. Não por menos ela é considerada uma das maiores vozes da MPB de todos os tempos e até hoje é aclamada em todos os trabalhos que apresenta.

Como fã de carteirinha, poderia ficar linhas e linhas falando sobre a história dessa grande artista, mas vou me ater a uma pequena linha cronológica de sua carreira para chegarmos até esse álbum em especial do qual vamos falar. Gal iniciou sua carreira de intérprete em 1965 e logo de cara já se uniu a outros grandes nomes da música brasileira, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Pouco tempo depois, juntamente com Maria Bethânia, Gal era uma das vozes mais potentes do Brasil e, principalmente, uma das figuras mais importantes do movimento revolucionário Tropicália.

Gal era sem sombra de dúvidas uma máquina musical que ia da voz calma e doce para gritos e grunhidos de um Rock psicodélico impressionante. O movimento da Tropicália,  contudo, perdurou curto tempo eis que, com o regime da ditadura militar que imperava na época, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e exilados na Inglaterra por alguns anos. A partir de então, a baiana passou a trabalhar solo e então chega Índia, um álbum emblemático em sua carreira e que demonstrou em definitivo seu status de uma das intérpretes mais desafiadoras do Brasil.

A obra foi lançada em 1973 e impressiona desde a imagem da capa – que fora proibida pelo governo – até a miscelânea musical proposta pela artista. Das nove faixas que compõe o álbum, Costa homenageia o patrimônio musical de seu país e ao mesmo tempo avança com bravura na era pós-tropicalismo, cada vez mais reprimida pelo regime militar. A começar pela capa. Censurada pelas autoridades logo do seu lançamento, a imagem que acompanha Índia pode parecer normal hoje em dia, mas ainda impressiona: Gal colocou à mostra seu próprio corpo de forma erótica, num clima tropical e que dá o tom do nome que intitula a obra.

Nas faixas você encontra uma variedade de estilos impressionante que começa com a doce voz da intérprete na faixa Índia, passa por gêneros folclóricos portugueses, Funk, linhas inclinadas às raízes musicais nordestinas, algo que poderia ser considerado um Pop da MPB à época até chegar em um clássico da Bossa Nova. Além da faixa-título, destacam-se a balada romântica Volta, o Funk vamp Ponto de Luz, o folclórico Milho Verde e Desafinado, canção do eterno João Gilberto.

Outro destaque – que sempre acompanha a artista, por sinal – é a produção da obra como um todo. Gil é o diretor do álbum e outras faixas tem a colaboração não apenas do parceiro Caetano, mas também de outras lendas da música como Arthur Verocai. O álbum foi, sem sombra de dúvidas, um marco na história da artista, que provou ser capaz de mergulhar por águas diversas dentro do infinito mar da música, diferentemente de seus trabalhos anteriores, que traziam uma abordagem muito mais psicodélica. Um clássico da Música Popular Brasileira. 

A música conecta.