Quando Smack Yo’ atingiu o topo do Beatport em outubro de 2022, o mundo conheceu Beltran. Alcançar o primeiro lugar na plataforma é uma conquista relevante, mas por si só não garante futuro algum. Muitos artistas e gravadoras que ainda não estão no topo da música eletrônica conseguem chegar lá – o grande X da questão não é esse, mas como se chega e, principalmente, o que acontece depois.
No caso de Smack Yo, a ascensão meteórica da faixa pode ter passado despercebida por muitos, mas já era um indício claro de algo maior: um reconhecimento em massa, tanto do público quanto de outros artistas, de que havia ali um talento diferenciado, com um teto alto de desenvolvimento. E o maior desafio vem justamente depois. Um hit não garante os próximos passos, e quando um artista, ainda no início de sua trajetória, alcança um sucesso tão intenso, um peso recai sobre seus ombros. Conseguirá manter o nível criativo? Conseguirá sustentar os resultados?
Uma maneira interessante de analisar esse “fardo” do sucesso – a pressão de corresponder ou superar expectativas futuras – é recorrer a Albert Camus e seu ensaio O Mito de Sísifo. No mito, Sísifo é condenado a empurrar eternamente uma rocha até o alto de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta sempre que alcança o cume. Para um artista, a rocha representa a expectativa – do público, da crítica e dele mesmo – em torno do que vem a seguir. O verdadeiro desafio não está apenas em alcançar o topo, mas na capacidade de lidar com o peso das expectativas recorrentes, de seguir criando com propósito, sem se perder na busca incessante por repetir ou superar um grande feito.
E é justamente na sequência e na construção de sua identidade como artista que reside a chave para o atual sucesso de Beltran. Se por um lado Smack Yo’ segue sendo seu grande hit até aqui, por outro, seu momento atual em termos de popularidade é incomparável a qualquer outro. Como um amigo que trabalha com eventos comentou recentemente: “Beltran é um headliner de verdade”. E isso se sustenta em dois pilares: artisticamente, ele é capaz de transformar a energia de uma noite, tornando sua presença sempre marcante; comercialmente, ele vende ingressos – e não há mistério nisso, as pessoas querem vê-lo, especialmente uma nova geração de clubbers.
Atualmente, o DJ e produtor soma mais de 1,5 milhão de ouvintes mensais no Spotify, mas essa nem é a métrica mais relevante de seu sucesso. O que define a força de sua trajetória é um conjunto amplo de fatores, e entre eles, dois são essenciais: sua postura autêntica enquanto artista e sua relação com os fãs. Essa autenticidade, que se manifesta como um toque de caos que encontra harmonia, é um diferencial raro e poderoso. Números, hits e visualizações impressionantes são fáceis de obter (ou comprar), mas construir uma base de fãs reais e uma identidade artística particular é o que realmente fica. E goste ou não de sua música, é inegável que Beltran possui essas qualidades como grandes virtudes.
O lançamento de sua gravadora, Beltools, é um passo natural para consolidar essa identidade. O selo que estreou em dezembro com um EP de duas faixas originais, vai ser uma casa para suas produções mais peculiares que não se encaixam em outros, sendo assim uma parte do seu manifesto sonoro para 2025 e além: um convite para explorar os limites entre o underground e o mainstream, sem regras fixas. Mais do que um projeto individual, é justo que se diga que a Beltools é também do seu público, que literalmente veste a camisa (ou melhor, os coletes refletivos amarelos) para mostrar que fazem parte do mesmo time.
Depois da estreia do selo, o debut da Beltools como festa acontece nesta sexta-feira de Carnaval no Cultive, em Garibaldi – cidade na região onde Beltran nasceu e cresceu. Essa sua nova aparição de por lá, consolida uma relação especial entre o artista e o club, que ele próprio já reconheceu como uma peça fundamental em sua formação, ainda quando era parte da pista e não da cabine. Suas passagens anteriores pelo Cultive foram explosivas e com sold out – algo que deve se repetir neste fim de semana.
Embora Beltran não seja residente do Cultive, vê-lo construir esse vínculo com um club local que tem um dos trabalhos mais consistentes da cena clubber nacional reforça um aspecto essencial de sua jornada: o reconhecimento de suas raízes. Se existe um caminho para que um artista estabeleça uma identidade longeva e real dentro da música eletrônica, ele passa justamente por essa conexão genuína entre artista, público e cena. No fim, são esses laços que sustentam qualquer trajetória que se pretenda duradoura – e, até aqui, Beltran parece compreender isso melhor do que muitos.
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