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Alataj Talks | Qual o futuro da música eletrônica no Brasil nos próximos 4 anos?

O ano de 2019 começou com diversas mudanças para o Brasil e talvez a principal delas se refere a esfera política. Jair Messias Bolsonaro assumiu a presidência da república e com ele uma linha de governo diferente da trabalhada anteriormente deve ser implementada pouco a pouco. Dentro do cenário eletrônico, alguns olham com otimismo, principalmente por conta de possíveis melhorias na economia do país. Outros, temem que o conservadorismo, uma das frentes do novo governo, possa vir a atrapalhar o desenvolvimento da indústria eletrônica nacional. Nós aproveitamos o momento de reflexão e convidamos 4 profissionais que figuram entre os mais inteligentes e sensatos do país para responder a seguinte pergunta:  Qual o futuro da música eletrônica no Brasil nos próximos 4 anos?

Augusto Olivani [Selvagem]

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Eu vislumbro um futuro da música eletrônica no Brasil mais organizado e integrado. Acho que os eventos do gênero atingiram um nível de produção bem alto, com opções para diferentes perfis e uma boa safra de DJs e produtores, mas ainda acho que tudo está pouco espalhado pelo país. Gostaria de ver mais cenas locais se fortalecendo, em diferentes regiões do país, saindo dessa dependência do eixo sul-sudeste – e mesmo assim de algumas poucas cidades. É muito legal ver locais como Santa Maria e capitais como BH e Curitiba tendo um novo protagonismo. Mas para que a saúde do circuito melhore, precisamos de mais.

Também gostaria de ver mais circulação de DJs não apenas dentro do Brasil e um intercâmbio maior com os países da América do Sul – é um tanto ridículo que sejamos vizinhos e nossos olhos estejam virados geralmente pra Europa e pros Estados Unidos. Por último, quero ver os produtores nacionais reunidos de uma forma mais homogênea. Temos muitos produtores talentosos hoje, lançando suas músicas, mas é um cenário fragmentado e isso não também faz sentido. Há pouca troca ainda e também não existe uma distribuidora que trabalhe com a maioria deles pra representá-los não só no Brasil como no exterior.

Eli Iwasa [Caos Campinas]

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Sempre tento manter o otimismo, mas o plano do novo governo definitivamente coloca a cultura em segundo plano, com um perfil que vai contra os valores da música eletrônica, de sua história e do que ela representa. Uma das coisas mais interessantes que aconteceram na cena de São Paulo foram as festas undergrounds, e isto deve ser afetado diretamente nos próximos 4 anos – elas nunca deixarão de existir, mas ter apoio do poder público é fundamental para que elas não enfrentem tantas dificuldades na produção ou que recebam pouco caso para regularização.

Infelizmente há o perigo dos clubs e eventos tenderem a um caráter mais homogêneo e menos inclusivo que antes, espero que consigamos superar tudo isso. Ao mesmo tempo, todos os novos movimentos culturais importantes nasceram de momentos de crise, e isso serve como força propulsora para criatividade, onde a força, conforto e escape da realidade dura, e o sentimento de uma comunidade são encontradas na música. Vamos continuar fazendo nosso trabalho, fomentando a cena, promovendo a música e idéias que acreditamos, na democracia que uma pista de dança deve ser. Música une!

Fran Bortolossi [Colours]

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Eu sempre sou bastante otimista. Analisando os últimos 2 anos, quando a crise bateu com certa força no mercado do entretenimento, houve uma diminuição considerável na quantidade de eventos. Acabou sobrevivendo marcas e empresários/promoters sérios e que de fato tinham conhecimento para acrescentar.

Hoje, comparado a 4 anos atrás, nosso mercado está muito mais rico, com opções musicais incríveis. Devagar o Brasil vai assumindo o protagonismo (o qual já deveria ter assumido há anos) da América Latina como o melhor país para festas eletrônicas.

Acho que precisamos seguir com trabalhos consistente, apresentando música e artistas de qualidade.
Acho que a tendência é aumentar os trabalhos autorais, com sampling, porém utilizados de forma criativa. Também apostaria no menor interesse do público por essa forma banal de bootleg muito utilizado pela maioria dos DJs nacionais, principalmente os de brazilian bass e gêneros que estão em “moda”. Se seguirmos apostando na música de qualidade e artistas competentes, a tendência é termos um cenário musical mais rico e cultural.

Mohamad Hajar Neto [detroitbr, T2 Eventos]

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Estamos em um momento peculiar da nossa história, no qual é difícil prever o que vai acontecer não somente com a cena eletrônica, mas no Brasil como um todo. Tudo depende das posturas do novo governo em diversas áreas, especialmente economia e cultura. Economia porque vivemos uma das mais intensas crises dos últimos tempos, se ela não for solucionada o mercado terá cada vez mais dificuldades para manter-se consolidado. Cultura porque caso o conservadorismo de fato venha a mostrar todas as suas garras, um cenário como o eletrônico, no qual minorias desfrutam de protagonismo e drogas são vistas de uma maneira liberal, pode vir a se tornar alvo da “higienização social” que tende a acontecer pelas mãos do governo extremista que foi eleito. Não acredito que isso vá acontecer de maneira direta, mas talvez indiretamente veremos uma supressão dos eventos independentes e até mesmo êxodo de artistas, insatisfeitos com as condições locais.

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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