Case | Warp Records

Por Eduardo Ramos 

A Warp Records tem 3 fases bem distintas e isso é fundamental para entendermos essa linha cronológica que desenha o trabalho do label britânico fundado por Steve Beckett, Robert Gordon e Rob Mitchell em 1989. O começo, mais ligado a um som que a imprensa chamava de Bleep – não por um acaso o nome da loja on-line da gravadora – que era algo como uma “versão inglesa” do techno de Detroit. Portanto doses cavalares do electro argumentadas com um baixo ainda mais grave e profundo (clara influência do Dub, mas em um take bem diferente dos experimentos da Basic Channel). O tal Bleep que se confunde com o começo da Warp pois era a clara representação do som/cena do norte da Inglaterra, já que o escritório da gravadora (e a loja que deu origem ao selo) era localizado em Sheffield. Possivelmente um dos momentos mais singulares da marca, onde a música eletrônica do passado (na figura de Richard H Kirk do Cabaret Voltaire, uma das bandas mais vitais da música eletrônica/post-punk inglês) abraçou o futuro (na figura do Nightmares On Wax), sem nunca esquecer de suas fundações (dub/hip hop).

O single que representa esta primeira fase é LFO do LFO. Um verdadeiro tapa na cara de Londres e um sinal do futuro, afinal Mark Bell é um injustiçado pioneiro da música eletrônica (infelizmente morto em 2014), que arquitetou algumas das mais futuristas produções das décadas seguintes, tanto com seu projeto LFO, quanto como produtor de grandes nomes como Bjork.

A segunda fase é mais clara, quando a Warp consolida-se como uma alternativa tanto para os mais ferrenhos defensores das sonoridades eletrônicas, assim como o crossover com a imprensa ligada a música independente – e por consequência a assimilação com os donos da bola da época, a MTV. O clube do norte da Inglaterra expande para cima (Boards Of Canada) para o lado (Aphex Twin) e para baixo (Squarepusher), sem esquecer suas origens (Autechre). Cada lançamento da Warp nesta fase clássica é motivo de um feriado, em um período de 5 anos, cada disco lançado é um pilar da história da música e um aceno para idéias nunca antes imaginadas.

O single que representa esta segunda fase é Windowlicker do Aphex Twin. Usando as palavras de André Barcisnki (descrevendo a Rollins Band) é algo como “ser atropelado, levantar e agradecer o condutor”, a única diferença neste caso é que o veículo é a limousine do vídeo, em toda a sua extensão. Este “curta” (como chamar de clip?) é o pico da criação de uma estética singular – cortesia tanto de Chris Cunningham quanto do escritório Designers Republic, tão parte do cast quanto Richard D. James. Windowlicker são 30 anos de música eletrônica jogados no liquidificador, misturados com césio e pronto para consumo em um copo longo com cubo de gelo. 30 anos passos e esta faixa ainda é um marco em todos os quesitos (capa/clip/produção). Não é a toa que um espirro de Aphex é suficiente para uma matéria em qualquer publicação musical.

A terceira e atual fase representa uma série de erros e acertos da gravadora, que conseguiu ir do medíocre (Maximo Park) ao sublime (Oneohtrix Point Never). A abertura estética aterrizou em uma pista de decisões dúbias de direção artística (Steve Beckett democratiza as contratações com um departamento de A&Rs) e infelizmente reflete um natural engessamento do selo de 2007 em diante.

Apesar das críticas dos velhos fãs da gravadora (como eu), é impossível não destacar que o nome Warp ainda é sinônimo de inovação e nos últimos 10 anos, ninguém inovou mais do que Steven Ellison, portanto o single que escolho para representar a terceira fase da gravadora é MmmHmm do Flying Lotus. Aqui a mudança é radical, afinal Steven vem de Los Angeles e mesmo com o fato de que artistas como o Boards Of Canada usaram e abusaram do Hip Hop, a equação aqui é invertida com o Hip Hop sendo molestado pela música eletrônica. Assim como os artistas citados acima, seu figura deu origem a uma cena sólida, neste caso o selo Brainfeeder (ironicamente não ligado a Warp, mas sim a outra gravadora tão importante quanto a Warp, a incrível Ninja Tune), a extinta festa Low End Theory e toda a novíssima cena experimental da costa oeste americana que influenciou nomes tão díspares como Nicolas Jaar, XX e toda a cena mais avançada da house music moderna.

A música conecta.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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