Quando decidi fazer um intercambio de 6 meses na cidade de Valência na Espanha não conhecia muitas coisas sobre a cena da música eletrônica underground da cidade. Sabia que o techno era forte em Barcelona, e fiquei animada por estar pertinho da cidade, pois não seria muito difícil e caro ir até lá para ver alguma gig.

O que eu não imaginei quando cheguei aqui e comecei a pesquisar sobre os clubs da cidade é que encontraria em Valência uma cena forte e que faz parte da história clubber da Espanha. Atualmente a cidade tem vários clubs que recebem nomes importantes da música e alguns menores, proporcionando pra quem quiser, uma programação de quinta a domingo.

O que mais me surpreendeu foi que a cena na cidade tem muitos e muitos anos, e conta com um dos clubs mais tradicionais da Espanha: Barraca Music, que completou 50 anos no último mês de dezembro. Chamado Barraca por causa do seu formato original, um tipo de construção especifica da região valenciana (que é conhecido como Barraca), e que é onde o club se mantem até hoje, sendo a pista principal a mesma desde o início.

A casa foi uma das precursoras do techno dentro da Espanha, e nos anos 70 e 80 vivenciou seu auge fazendo parte e sendo talvez a principal boate da Ruta Destroy. A Ruta Destroy ou Ruta del Bakalao foi como ficou conhecido o maior movimento clubber da Espanha, que começou no final dos anos 70. As festas duravam dias, e Valência se destacava por causa do Barraca, que tinha festas que duravam de sábado a noite até domingo pela tarde. Sempre com um som inovador e um ambiente livre de preconceitos, que deu espaço para muitos artistas, com sons experimentais e diferentes crescerem e se desenvolverem.

A comunidade valenciana começou então a se destacar por ser um dos lugares que mais estavam florescendo culturalmente dentro da Espanha, não só no techno mas também em outras vertentes mais undergrounds, como house e minimal. É claro que a Ruta Destroy não ficou conhecida apenas pelas coisas boas. Infelizmente, por ser um movimento de muito ócio, e por causa do abuso de drogas durante os muitos dias de festas, pessoas acabaram morrendo, e nos anos 90 a sociedade espanhola com a ajuda da grande mídia, começou a demonizar o movimento que acabou perdendo a força. Apesar disso, até hoje o techno é parte da cultura de Valencia, e ainda se mantem com as várias boates que existem na cidade e nas suas redondezas.

No último dia 13 fui conhecer Barraca, que fica próxima da praia e de outras belezas naturais dos entornos de Valência e o que vi foi completamente diferente do que já experimentei nos clubs do Brasil. Numa boate sem muitos luxos, luzes e grandes decorações, havia a maior quantidade de pessoas aparentemente apaixonadas por techno que eu já vi. O sound system da boate era muito bom e por as pistas serem fechadas e pequenas, ficava ainda mais potente, dificultando a conversa muitas vezes. A sensação que tive durante a noite inteira é de que estava descobrindo o underground de raiz.

A estrela da noite era Maya Jane Coles, que apresentou um set incrível, e que apesar de ser conhecida por produzir um som mais voltado para o deep house, adotou uma linha intensa tocando um techno reto – penso que para seguir a tradição da casa – mas com algumas  melodias que não deixaram ela perder sua identidade. Para mim é sempre especial ver os grandes nomes femininos da música eletrônica tocando, porque a quantidade de mulheres nos line ups das festas é sempre muito pequena, e como headliners é ainda menor. Além dela outros grandes nomes como Stephen Barnem, Rafa Siles, Affkt e Sinista Tamamovic tocaram durante a noite. Contribuindo para que minha primeira experiência clubber nessa cidade histórica, fosse inesquecível. A música conecta as pessoas! 

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