On Air é a série de entrevistas do Alataj

O atual momento de carreira que a DJ e produtora brasileira ANNA está passando é algo raro na história da dance music nacional. Gigs por todo mundo, calendário disputado, lançamentos pelos principais labels do circuito e os holofotes da imprensa internacional voltados para o seu nome. Antes disso, apenas Gui Boratto, Marky e medalhões desse calibre conseguiram conquistar algo parecido.

Além de seu inegável talento e de sua habilidade frente as pick ups, a maturidade com que ANNA enxerga sua carreira é digna de um prêmio também – ela já falou sobre isso aqui. A busca constante pelo equilíbrio dita o ritmo com que ANNA toma suas decisões e encara seus principais desafios. Não precisamos nem falar que tem dado muto certo até aqui, não é mesmo? Seu recente release pelo selo alemão Kompakt, EP 101 da consagrada série Speicher é mais um sinal da força que a brasileira possui no alto escalão do underground global.

Nesse bate-papo exclusivo com o Alataj, ANNA fala sobre o processo criativo do EP, relacionamento com os labels que tem lançado, a importância do marido Wehbba no cotidiano e muito mais. Realmente inspirador:

Alataj: Olá, Anna! Tudo bem? Em primeiro lugar, parabéns pelas conquistas dos últimos anos, é muito bom ver uma mulher brasileira com destaque no circuito internacional. Podemos começar falando sobre sua carreira quando você ainda morava aqui no Brasil. Quais eram as principais dificuldades que você enfrentava nesse período? Mudar para Barcelona foi um ponto de virada ou as coisas começaram a se transformar ainda por aqui?

ANNA: Tudo ótimo por aqui e muito obrigada pelo espaço! Bom, eu já toco há 17 anos e só sai do Brasil há tres. Meu trabalho só teve algum reconhecimento no Brasil há mais ou menos três anos atras, mas mesmo assim eu sempre vivi do meu trabalho como DJ e produtora. Desde o começo sempre foi difícil, sempre ganhei cachês baixos, demorou para os selos quererem assinar minha musica, eu não tinha muitos requests para festas, era sempre difícil achar gigs e nunca tive a agenda cheia enquanto estava morando aí.

Mas eu não via isso como dificuldade, claro que eu queria que fosse melhor, ganhar mais dinheiro, tocar em festas melhores e tudo mais, mas eu estava feliz . Eu ainda tinha 2, 3 gigs por mês, era livre pra tocar o que gostava e eu estava fazendo o que amava, então estava tudo certo. Eu não estava trabalhando pra ficar rica e famosa, mas sim fazendo algo que me dava prazer. Chegou uma época no Brasil em que estava ficando difícil tocar o que me fazia feliz, os promoters e o publico só queriam ouvir o mesmo tipo de musica e não havia espaço pra nada diferente do que estava em alta na época. Quando eu ia conversar com meus agentes pra saber o que eu poderia fazer pra melhorar para que eles pudessem fechar mais gigs, eu ouvia que eu tinha que mudar meu som e fazer o que todo mundo estava fazendo. Isso foi minha maior dificuldade, não foi a falta de gigs, a falta de dinheiro, tocar pra pista vazia, mas sim não estar conseguindo me expressar da maneira como queria, e ter que mudar pra me encaixar em um padrão que não me agradava.

Não que eu ache errado fazer isso, mas não era o que eu queria, não era o que eu sentia que deveria fazer e o que me dava alegria em tocar – e isso me fez mudar de país. Nessa época já havia interesse de uma agência de Londres em me representar, algumas das minhas musicas já estavam tendo um pouquinho de atenção, então eu resolvi vir pra Europa mesmo não sabendo se daria muito certo ou não.

Você é mais uma artista nacional que passou a ser mais observada por aqui após o sucesso no exterior. Na sua opinião, o que precisa ser feito para mudarmos isso? Por que o público brasileiro ainda valoriza muito o que vem de fora?

Eu não sei porque isso acontece, mas eu vejo isso acontecendo em todas as áreas no Brasil e não só na musica. Nós brasileiros tendemos a dar mais valor para tudo que vem de fora do país. As minhas referências quando eu estava começando a tocar eram artistas nacionais como Mau Mau, Anderson Noise e Renato Cohen. Tudo o que eu sabia e gostava vinha deles. Talvez seja porque as grandes lendas da musica eletrônica, os principais festivais, a cultura da musica eletrônica está mais enraizada na Europa. Temos muitos DJs brasileiros que são super reconhecidos no Brasil, mas no meu caso por exemplo, que não estava fazendo o que a maioria do público queria ouvir e o que a maioria dos DJs estavam tocando, quando sai do Brasil, só fui ser reconhecida depois de ter algum destaque aqui fora, por que é onde publico que consume esse tipo de musica tem suas referencias. Acho que a chave é a diversidade, quanto mais movimentos diferentes aparecerem, maiores as chances de saírem um produtor/DJ que o público abrace, sem precisar fazer sucesso fora antes.

Solomun, Carl Cox, Laurent Garnier e outras lendas da música eletrônica apoiaram sua música nos últimos anos. Quão importante esses suportes foram no crescimento da sua carreira? Tem algum que você considera mais importante ou especial?

É muito legal quando isso acontece, é um estimulo muito grande, como se fossem sinais que você esta no caminho certo. Com o tempo isso pode começar a perder um pouco encanto, pois agora eu estou tocando com esses artistas frequentemente, lançando nos mesmo selos, indo a jantares com eles. Quando eu vejo que isso acontece eu me esforço para lembrar de como eu me sentia quando eu ainda nem os conhecia e dividir o line up com eles era um sonho impossível. Procuro dar valor a cada pequena coisa que acontece na minha carreira. A gente tende a querer mais e mais, fazer coisas mais e mais importantes e acaba esquecendo onde chegou e deixando pequenas coisas passar.

É fato que você não é uma artista de apenas um sucesso, basta um rápido olhar em sua discografia para perceber isso. Ainda assim, certamente existem faixas que mudaram sua vida e trouxeram conquistas importantes. Quais são elas?

A Odd Concept lançada pelo Diynamic foi um ponto de virada na minha carreira, todo mundo tocou ela: Carl Cox, Adam Beyer, Solomun, Ritchie Hawtin, Joseph Capriati… ela ficou 1 ano no Top 100 do Beatport, meses no Top 10. Até hoje sou bookada por causa dela. Artha lançado pelo Turbo Recordings me trouxe muita coisa também, principalmente nos Estados Unidos e Brasil. Meu remix para a faixa Stabbed In The Back do Tiga & Audion e agora a Hidden Beauties que foi a primeira track que assinei com a Kompakt são muito importantes.

Ter um companheiro de vida na mesma carreira que a sua certamente é algo muito especial. De que forma você e o Wehbba tem se ajudado na evolução profissional de cada um? 

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Seu próximo release faz parte da gloriosa série Speicher da Kompakt. Como surgiu o convite para lançar pelo selo? Ter um Speicher lançado é como um diploma de mestrado para um produtor musical? [risos]

Eu sempre quis ter minha musica lançada pela Kompakt, mas parecia um sonho um pouco distante. No começo de 2016 eu comecei a mandar uns demos para o Jon que é o A&R do label e pro Michael Mayer. Nos estávamos tentando achar as tracks certas para o meu primeiro EP, esse processo levou mais ou menos um ano. Eu toquei no mesmo palco que o Michael Mayer em 2017 no Movement in Detroit, foi quando os encontrei pessoalmente pela primeira vez, eles me disseram que estavam tentando encontrar algo diferente pro label e pediram pra eu mandar tudo que tinha feito recentemente.

Assim que voltei pra Barcelona eu mandei uma musica que eu tinha acabado de fazer e disse a eles que eu não estava muito certa sobre ela e nem sabia se estava pronta, mas, que gostaria de mostrar pra eles. Eles me responderam dizendo que era exatamente o que eles estavam procurando e que queriam assina-la. A faixa era a Hidden Beauties e é uma honra pra mim ter um Speicher, um pouco surreal até, estou muito feliz.

Ainda sobre esse lançamento, fale um pouco sobre o processo criativo do EP:

A Hidden Beauties foi feita primeiro. Nós tínhamos acabado de comprar o modulo Endorphines pro estúdio e eu estava mexendo nele pra ver os sons que saíam, foi assim que surgiu o bassline. Eu me apaixonei pelo som e decidi fazer uma musica com ele. Depois de um tempo mexendo nela, eu fiquei um pouco presa e decidi dar um tempo e assistir algumas coisas pra ver se vinha alguma ideia. Eu estava assistindo a uma entrevista do Jeff Milss e tive a ideia de fazer uma sequencia acid na 303. A fiz usando o plugin ABL2 da Audiorealism, já que infelizmente AINDA não tenho uma TB 303, e depois disso foi só acabar a track.

A The Dansant saiu depois de uma sessão no estúdio em que eu comecei sem ter nenhuma ideia em particular, eu estava apenas brincando com os equipamentos. Eu já tinha feito a estrutura toda mas ainda estava faltando o tema principal da musica, demorou uns dias pra sair na verdade… eu fiz usando o modulo Atlantis da Intelijel que eu tenho usado em quase todas as minhas músicas e é a ele que eu recorro quando estou estou presa em uma ideia. Sempre dá certo!

Diynamic, Get Physical, Suara e Rukus. Lançar por selos dessa grandeza é algo importante para qualquer produtor de música eletrônica. Focando mais no lado humano desse relacionamento, quais são os principais aprendizados que você tem tirado? Você tem vontade de ter seu próprio label no futuro?

Eu criei uma relação muito boa com esses selos, principalmente com Diynamic, Rukus e Turbo Recordings, que foram os que mais me aproximei. É tão bom quando isso acontece. O Diynamic, por exemplo, é um selo que trabalha por todos os artistas e não é concentrando em uma pessoa só, todos os artistas se ajudam, não há um clima de competição, mas sim de amizade e empenho em fazer todos crescerem. São selos assim que procuro trabalhar com. Eu penso em ter meu label mas ainda não acho que seja a hora certa.

Em 2017 você viveu algumas gigs muito importantes no Brasil, como o warm up para Ben Klock no pistão do Warung. Agora, como parte do casting da Alliance, podemos esperar Anna com mais frequência por aqui?

Espero que sim, minhas últimas tours no Brasil tem sido muito gratificantes, tenho recebido muito amor e gostaria de aproveitar para agradecer. Estou muito feliz em saber que posso voltar pra casa, tocar o que amo e ter uma receptividade tao grande. Obrigada!

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Dificil colocar em palavras isso. Música é minha maneira de mudar meu estado de espírito. A música me ajuda a ir mais além.

A música conecta as pessoas!