Em Passo Fundo reside um dos monumentos clubbers do Brasil: a Beehive, ou colmeia, como é carinhosamente chamada, possui uma história de mais de 10 anos e é uma das marcas responsáveis por fazer do Rio Grande do Sul um dos grandes polos da cultura house/techno no país. Mais do que um sistema de som e iluminação de ponta, o club gaúcho pulsa uma história bastante única que está estampada das paredes de sua estrutura, um antigo moinho com arquitetura preservada desde a década de 30.

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O potencial da marca foi trabalhado e concebido por um grupo de jovens visionários que colocou horas e horas de trabalho, além de um investimento financeiro de alto risco para fazer o uma ideia até então totalmente atípica para região se tornar realidade. Deu tão certo que a história se perdura até hoje, atualmente sob o comando de um time extremamente profissional que compõe o quadro societário da Bee. Assim como Warung, D-EDGE e outros clubs históricos para o cenário nacional e internacional, a Beehive apresenta uma soma de fatores que a torna única e transforma toda experiência vivida na casa em algo emocionante, já que história e arte se fundem para a construção de um novo futuro, festa após festa.

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Somente este ano, nomes como Ryan Elliott, Guy J e Manuel de la Mare já passaram pelo club, que em breve deve anunciar novidades para o segundo semestre. Em busca de saber mais sobre a história da colmeia, nós tivemos um papo pra lá de especial com os comandantes dessa jornada e o resultado você confere a seguir. A música conecta as pessoas!

1 – Olá, pessoal! Tudo bem? Obrigado por falar com a gente. A Beehive hoje é uma das referências máximas da música eletrônica no Rio Grande do Sul. Atualmente, vocês enxergam alguma cidade no estado com potencial para ter a representatividade que Passo Fundo tem para a cena?

Olá, tudo certo por aqui e esperamos que com todo o pessoal do Alataj também. É um prazer estar conversando com vocês e agradecemos a oportunidade. Existem algumas regiões no estado que já possuem núcleos com trabalhos sólidos. A serra gaúcha é uma região muito forte, com as cidades de Caxias Do Sul, Farroupilha e Garibaldi e nas regiões centro e centro-sul temos as cidades de Santa Maria e Pelotas. Em todas estas cidades existem bons trabalhos, sejam em clubs ou festas itinerantes, e a consequência disso é o público educado e maduro que vemos nas pistas de dança dessas regiões.

2 – A estrutura da Beehive (um moinho) é algo emblemático. Contem um pouco da história do local e como vocês chegaram nessa locação

A locação atual da Beehive é um dos prédios mais antigos da cidade, com quase 100 anos de existência. Ele foi construído junto a antiga ferrovia, hoje centro da cidade, funcionando inicialmente como um Silo que era parte do Complexo Moinhos Rio-Grandense. Posteriormente a empresa decretou falência e os imóveis ficaram abandonados por anos. Em 2006 o “Silo” foi declarado Patrimônio Histórico-Cultural da cidade de Passo Fundo.

No final de 2008, logo após completar 2 anos de Beehive (em outro local), passamos por uma grande transição. O antigo local era pequeno e por alguns motivos cogitamos a possibilidade de encerrar o trabalho. Ao mesmo tempo procurávamos uma instalação para realizar uma festa itinerante e ficamos sabendo que o imóvel estava disponível. Acabamos indo até o local e a energia foi tão grande que no mesmo dia começamos a idealizar a mudança.

O prédio estava completamente vazio. Não possuía instalação elétrica, hidráulica e o acesso para o segundo pavimento era bem precário. Isso foi bom porque nos possibilitou projetar o espaço do zero, aproveitando a posição solar que nos presenteia com o sunrise atrás do DJ, chegando no resultado que as pessoas conhecem hoje.

3 – deadmau5, Marky, Seth Troxler. Uma das marcas da colmeia é trazer artistas fora do padrão para Passo Fundo. Quão importante é isso na opinião de vocês?

Acreditamos que esse é um dos pilares da Beehive e desde o início não medimos esforços para apresentar novidades e grandes artistas para o público da região. É difícil manter um trabalho por tanto tempo focado em nomes desse porte e deste segmento, mas esta é uma das nossas missões e faz parte da essência da Beehive. Entendemos que o investimento no setor artístico ajuda a desenvolver o nosso mercado e solidifica a cena local.

4 – Dentre tantas apresentações históricas no palco da Beehive, há alguma que vocês consideram mais importante ou especial?

Nestes 11 anos realmente tivemos várias apresentações históricas. É difícil falar apenas de uma, mas podemos citar um momento que foi especial. Em novembro de 2013 recebemos o Seth Troxler. Ele chegou no dia anterior a festa, saímos para beber em um bar e ele literalmente foi a atração, interagindo e brincando com as pessoas enquanto assistíamos a um jogo de futebol. Para fechar a noite fomos jantar em uma churrascaria tradicional da cidade, provando todos os tipos possíveis de carne. Na manhã seguinte o Seth saiu sozinho pela cidade e acabamos recebendo fotos e vídeos de alguns amigos que encontraram ele na rua e em algumas lojas.

Na noite ele fez um dos melhores sets que já ouvimos na Beehive, tocando por 4hrs seguidas. Ao terminar o set ele foi para a pista e ficou curtindo por quase 1h, então retornou ao palco para fazer um b2b com os meninos do Lookalike até a hora do club fechar. Passamos no hotel para pegar a mala e deixamos ele direto no aeroporto. Pelo contexto todo e principalmente pela humildade dele, esse foi um dos momentos que mais nos marcou e por isso lembramos com muito carinho.

5 – Quais são as principais dificuldades que vocês encontram na produção dos eventos? Como vocês tem buscado solucionar isso?

Nós temos o fato específico de estar localizado no interior do estado, em uma cidade pequena. Isso dificulta a programação pois não conseguimos ter uma periodicidade maior e por isso procuramos entender melhor o calendário, montando a temporada intercalando as datas de Beehive e da Hija.

Além disso, a evidência da música popular brasileira acaba atraindo boa parte das pessoas, dividindo o público e dificultando um pouco mais. Neste ponto procuramos informar o público sobre o nosso trabalho. Desenvolvemos um guia trimestral da nossa programação e trabalhamos a essência musical da Beehive através dos nossos canais de música. Atualmente produzimos o Bee Radio em parceria com a Rádio Atlântida, que vai ao ar todos os sábados, o BeePod que é o nosso podcast e está disponível no soundcloud e mais alguns projetos no nosso perfil do Spotify.

Também temos a questão da logística, pois estamos afastados dos grandes centros e isso acaba elevando os nossos custos. Na questão do aeroporto ainda aguardamos as melhorias e ficamos na dependência do setor público. Estes são alguns pontos, mas no fim a grande dificuldade é empreender atualmente no Brasil. Comparado a isso, tudo fica mais tranquilo e fácil de resolver.

6 – O ano da Beehive começou intenso, com grandes estreias e artistas de extrema relevância. Para o segundo semestre, o que podemos esperar?

Realmente começamos o ano com força total, buscando algumas novidades e contando com alguns retornos que eram muito aguardados. O resultado desse equilíbrio até agora foi muito bom.

O segundo semestre da nossa temporada é tradicionalmente muito forte e não vai ser diferente neste ano. Em setembro teremos a comemoração dos 11 anos do club e estamos preparando várias surpresas e novidades. Além disso estamos com um verdadeiro timaço de artistas, estreando ou retornando, que vão dar o que falar até o final do ano.

Infelizmente não podemos revelar quem estará no palco da Beehive nos próximos meses, mas podemos garantir que alguns dos principais nomes que estarão no Brasil passarão por aqui até dezembro.

7 – Fale um pouco sobre a Hija, club anexo a Beehive. Como vocês tem buscado trabalhar ele em noites que a colmeia está funcionando?

A Hija foi criada com o objetivo de trabalhar uma programação mais intensa, atendendo um número menor de pessoas. A capacidade do club é 350 pessoas e nele temos uma pequena pista de dança com outras áreas de convívio.

Em algumas noites da Beehive utilizamos a Hija para diversificar a experiência do público, distribuindo melhor o line up e dando oportunidade para mais artistas, além de ter mais um ambiente prestando serviços ao público. A cabine é baixa e super próxima da pista, o que provoca uma interação legal entre DJ e público e cria uma atmosfera bem intimista e enérgica. Já tivemos momentos inesquecíveis lá, sendo em noites apenas de Hija ou com a Beehive junto.

8 – Ano passado, uma tragédia na Time Warp envolvendo abuso de drogas acabou chocando a América do Sul e em Londres, a fabric quase fechou as portas em definitivo por conta de uma situação semelhante. Qual a política de vocês em relação ao assunto? De uma forma geral, vocês enxergam que o sistema está ultrapassado no que diz respeito ao combate e redução de danos?

Este assunto é muito sério e complexo. Acreditamos que este não é um problema exclusivo da música eletrônica e que de fato as drogas em geral estão cada vez mais inseridas no cotidiano das pessoas.

Atualmente nós trabalhamos em conjunto com as autoridades, tentando coibir o uso e amenizar os danos, mas acreditamos que este método talvez não seja o mais eficaz. O problema sempre foi o abuso, portanto, uma política educativa talvez fizesse mais sentido. Sinceramente, não acreditamos que a política de combate acabe com as drogas. Em outros países este assunto é tratado de forma aberta, com entendimento que elas sempre existirão e que por isso é necessário orientar as pessoas sobre aquilo que estão consumindo. Isso não é ser a favor das drogas, mas entender que elas existem e talvez esta seja uma das formas mais diretas e eficazes de resolver ou amenizar um grande problema.

9 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa na vida de vocês?

O nosso estilo de vida. A música está presente em praticamente todos os momentos de nossas vidas. Todos nós, desde adolescentes, frequentávamos eventos de música eletrônica e foi inevitável criarmos um laço muito forte com a música. Hoje podemos dizer que as nossas vidas são totalmente influenciadas pela música, pois nos divertimos com ela, trabalhamos com ela e vivemos dela.

A música conecta as pessoas!