Este sábado (14), Hernan Cattaneo fará sua última apresentação no Warung. Desde sua estreia no club, em fevereiro de 2003, passaram-se mais de 23 anos e, ao longo de todo esse período, Hernan sempre foi uma das atrações mais desejadas pelo público. O Warung possui uma história rica quando se fala em residentes e artistas recorrentes, mas não é exagero dizer que o DJ que mais se tornou símbolo do club foi justamente Hernan.
Essa relação ganhou inclusive um reconhecimento institucional quando o DJ argentino foi coroado como cidadão honorário de Itajaí, em uma cerimônia realizada no próprio Warung durante sua última passagem pelo club, em 2024. Curiosamente, em 2025 Hernan não tocou por lá — algo raro desde aquela primeira apresentação em 2003 — e que ajuda a dimensionar o peso desse retorno.
Agora, Hernan volta ao Warung para o que deve ser o mais longo de seus sets na história do club. Ele está escalado para um sunset to sunrise, começando às 18h e sem uma hora definida para terminar. Ao seu lado estará Patrice Bäumel, em um detalhe que também chama atenção: será o primeiro b2b oficial de Cattaneo no Warung.
Essa data abre espaço para algumas reflexões interessantes. A primeira delas passa pela própria natureza da relação entre Warung e Hernan, que na essência é uma relação íntima DJ/club — algo que já foi muito mais comum no passado. A cultura clubber foi mudando ao longo dos anos. Se a própria figura do residente já não tem hoje a mesma força que teve em outras décadas, imagine então a permanência simbólica de um artista que sequer ocupa oficialmente esse posto. No passado, era relativamente comum que um artista desenvolvesse um vínculo cultural e afetivo com determinados clubs.
Esse tipo de relação surgia a partir de uma combinação rara de fatores: o sucesso de algumas noites específicas, a identificação com o público local e um verdadeiro encontro entre identidade artística e identidade do espaço. Existem alguns exemplos clássicos disso ao redor do mundo, como Sasha e John Digweed com o Twilo, em Nova York, Seth Troxler com o DC-10, em Ibiza, Carl Cox com a Space, também em Ibiza, ou Laurent Garnier com o Rex Club em Paris.
O próprio Warung construiu algumas relações desse tipo ao longo de sua história. Dubfire, Sasha, Mano Le Tough e Kolombo são nomes que se tornaram particularmente grandes dentro da trajetória do club. Em alguns casos, o nível de popularidade que esses artistas alcançaram dentro do Warung chegava a extrapolar bastante a média que eles tinham em outras partes do país.
Hoje, a forma como o mercado opera — dominado por grandes agências internacionais e por um modelo cada vez mais competitivo entre eventos — torna mais difícil que esse tipo de vínculo se desenvolva. E isso é uma pena, porque relações dessa natureza funcionam como verdadeiros catalisadores da experiência que se tem na pista e até mesmo fora dela.
No caso do Warung, essa dimensão extrapola inclusive a própria cena musical. Mais do que um club, o Warung se tornou ao longo dos anos um ponto turístico importante do litoral de Santa Catarina. Dentro desse contexto, até mesmo Hernan pode ser considerado uma atração que impulsiona o turismo na região, já que cada uma de suas apresentações tem o poder de atrair pessoas de diferentes partes do estado, do país e até mesmo da própria Argentina — que, sem dúvida, estará em peso neste sábado.
Reparou no que isso significa? Um estabelecimento cultural bem consolidado é capaz de gerar ativos relevantes que movimentam a economia local em diferentes níveis. Hoje em dia esse tipo de impacto já é amplamente reconhecido quando falamos de grandes shows de estádio, por exemplo, mas ainda se subestima que a música eletrônica também pode produzir efeitos semelhantes dentro das suas próprias escalas. O fim do Warung, no entanto, tem um motivo central bastante claro: a valorização imobiliária da região. Com o tempo, o terreno onde o club está localizado passou a ter um potencial econômico que torna cada vez mais difícil justificar a permanência de um club de música eletrônica ali.
Quando o Bravíssimo — empreendimento localizado ao lado do club — conseguiu destravar os embargos de sua obra e avançar para a reta final de construção, quem frequenta o Warung percebeu que naquele momento um timer começou a rodar. Quem paga 30 milhões de reais em uma cobertura não quer ter um ambiente de festa ao lado, nem qualquer tipo de ruído sonoro que possa interferir na sua noite de sono.
Mesmo com um projeto acústico de primeira linha em sua nova edificação, sabia-se que isso provavelmente não seria suficiente para sustentar essa convivência no longo prazo. Na minha visão, o fim do Warung para dar espaço a um condomínio de luxo também acende um alerta importante sobre como o poder público de Santa Catarina lida com a tradição da música eletrônica na região e com o seu valor cultural e turístico.
Mesmo os outros três superclubs da região — Surreal, Greenvalley e El Fortin — estão localizados em áreas que um dia podem sofrer algum tipo de valorização ou especulação imobiliária. E quando esse momento chegar, o que será feito?
A música eletrônica se tornou um símbolo cultural da região e, mais do que isso, um motor importante da economia local. Em um futuro onde todas as áreas valorizadas do litoral estiverem ocupadas por bairros planejados e loteamentos de alto padrão, onde os clubs estarão localizados? Onde essa cultura vai acontecer? Esse é um dos desafios mais importantes que a cena da região terá que enfrentar ao longo da próxima década.
Mas voltando ao tema central deste texto para dar números finais a ele, vale deixar uma provocação: será mesmo esta a última vez de Hernan no Warung? No último domingo (08), o club anunciou oficialmente sua closing weekend, com três datas programadas para junho. Sempre imaginei Hernan como a última atração da história do Warung.
Quando essa apresentação de março foi anunciada, parecia muito que seria a última de todas. Depois surgiram os rumores sobre uma vinda de Laurent Garnier — que acabou sendo confirmada para abril. Além disso, Patrice Bäumel foi anunciado para esse b2b posteriormente, e um post recente no Instagram do Warung fala apenas sobre “The Last Dance” de Bäumel, sem mencionar Hernan. Seria um sinal? Ainda é cedo para dizer. Tudo isso ainda está no campo das suposições. Mas não seria surpreendente se Hernan voltasse para mais um set solo durante a closing weekend do Warung.