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A música conecta

Guti fala sobre seus desejos e ambições na música após mais de 15 anos de jornada

Por Alan Medeiros em Entrevistas 30.04.2026

Poderíamos começar apresentando Guti como um DJ e produtor, mas talvez essa definição não dê conta do ponto mais importante de sua trajetória atual. Depois de mais de 15 anos no underground eletrônico, o artista argentino parece cada vez mais interessado em retomar sua formação como músico, multi-instrumentista e live act para recolocar a improvisação no centro do processo criativo. Ele mesmo descreve essa fase como uma busca mais clara por suas raízes latinas, conduzida por jams em casa, colaborações com músicos locais e pelo desejo de apresentar ao mundo o que ele chama de El Nuevo Sonido Latino.  

Esse movimento aparece de forma direta em You Know Ya Miss Me, EP lançado pela Crosstown Rebels em março de 2026. O trabalho marca seu primeiro material pela gravadora desde 2020 e retoma uma relação de mais de 15 anos com o selo de Damian Lazarus. Nas quatro faixas, Guti articula groove, percussão latina, instinto e liberdade de construção, tratando o estúdio como sala de estar, lugar de colisão e respiro entre ideias. O próprio release descreve o EP como uma exploração entre tradição e imprevisibilidade, onde instrumentos, eletrônica e energia colaborativa aparecem em pé de igualdade.  

Na conversa com o Alataj, esse momento ganha uma leitura mais ampla. Guti fala sobre maturidade, família, jazz, pandemia, polirritmia, Crosstown Rebels e o sentido de criar música sem partir de fórmulas prontas. Também explica como a pausa forçada dos últimos anos o fez se afastar da persona ligada à house music para reencontrar instrumentos, jams e novas formas de pensar identidade sonora. Para além de apresentar o novo EP, a entrevista ajuda a entender um artista em reconstrução, interessado em aprofundar a sua própria linguagem e em perguntar, outra vez, o que a música de pista pode ser quando nasce do encontro. Confira:

Depois de mais de 15 anos de relação com a Crosstown Rebels, o que esse novo EP diz sobre o momento exato em que você está hoje, tanto artisticamente quanto pessoalmente?

Olhando para trás, para aquele garoto que lançou aqueles discos naquela época, havia uma ingenuidade destemida em não conhecer as regras da house music. Eu era, e sempre serei, um músico de jazz encontrando meu caminho através do som. Esta versão de mim em 2026, depois de um bilhão de batalhas, continua resistindo a fórmulas e aos sons do momento. A música está mais abstrata e mais livre do que nunca. No plano pessoal, estou em um lugar muito diferente — mais centrado, com a segurança e o amor de ter minha própria família e minha própria casa. O que importa na vida muda, e você começa a focar no que é realmente importante.

Em You Know Ya Miss Me, a improvisação aparece como método. Em que momento você percebeu que esse caminho mais instintivo precisava ocupar o centro da sua música?

É até engraçado que as pessoas percebam dessa forma. Na verdade, sempre foi assim que eu fiz música. Provavelmente isso vem da minha formação. Nunca fiz música com um objetivo ou direção fixos. Eu simplesmente deixo um som me levar ao próximo. Todo o processo de composição é selvagem, rápido e um pouco caótico. Eu toco todos os instrumentos e não penso demais — é quase como se eu estivesse possuído. Deixo o instinto assumir o controle e me conduzir para lugares inesperados.

O release fala em um “novo som latino”, e seus materiais mais recentes sugerem que essa busca vem se tornando cada vez mais central na sua trajetória. O que exatamente você sente que mudou na forma como passou a se relacionar com suas raízes latino-americanas dentro da música eletrônica?

Nos últimos 15 ou 20 anos, venho fazendo parte de um grupo de artistas que explora nossas raízes latinas. A minha própria família é cheia de ritmos — do Uruguai, da Argentina, da Venezuela e da Costa Rica, só do lado da minha mãe. Sempre me interessei pelo que existe por baixo da superfície desses grooves. Quando o mundo começou a adotar os elementos mais óbvios — congas, vocais — eu fui mais fundo, tentando entender o que realmente nos define. El Nuevo Sonido Latino vem de uma versão mais madura de mim, colaborando com alguns dos melhores músicos da América Latina. Uma jam session em Miami com Miguelle & Tons e Roberto “El Lobo” Moreno mudou completamente minha perspectiva — o nível de polirritmias era alucinante.

Você sempre foi um artista muito associado ao groove, mas aqui parece haver também uma intenção de deixar a música mais porosa, mais aberta ao erro, ao respiro e ao encontro entre músicos. Esse tipo de liberdade também muda a forma como você entende a pista?

Eu não diria que estou aberto ao erro [risos], mas depois de todos esses anos eu conheço o meu groove — provavelmente conseguiria fazer isso de olhos fechados. O que estou buscando agora é algo novo: um novo ritmo, uma nova sensação, algo que me faça sentir vivo de novo. Na pista, sempre tive uma abordagem muito específica. Toco principalmente minhas próprias músicas e faixas inéditas — faço isso discretamente há mais de uma década. Isso cria um tipo de confiança. As pessoas embarcam em uma jornada comigo sem saber o que vem a seguir. E isso se torna algo lúdico, encontrar novas formas de fazer as pessoas dançarem e experimentarem alegria.

A faixa La Nueva Onda Latina soa quase como uma declaração de princípios. Até que ponto esse título resume uma visão sua mais ampla sobre para onde a dance music pode ir a partir da América Latina?

La Nueva Onda Latina me lembrou que eu ainda tenho algo significativo a dizer dentro da nossa cultura. Ela carrega várias camadas — quase metalinguísticas — mesmo sendo instrumental. Sempre tive interesse em transmitir uma mensagem por meio da repetição. Essa faixa é uma tentativa de fazer uma jam futurista que soe familiar, como se você já a tivesse ouvido antes. Mas, ao mesmo tempo, é algo novo. O que eu chamaria de futurismo tropical.

Sua bio menciona um período pós-pandemia em que você saiu “da caixa”, voltou a tocar instrumentos em casa e passou a construir jams frequentes com outros músicos em Berlim. O quanto esse processo coletivo alterou sua forma de compor e de pensar identidade sonora?

A pandemia foi um lembrete doloroso, mas importante, do porquê fazemos o que fazemos. Antes disso, eu estava constantemente em turnê, vivendo em aviões, fazendo discos sem parar. Então, de repente, tudo parou. Guti — a persona da house music — quase desapareceu para mim. Eu realmente senti que aquele capítulo tinha acabado. Então voltei para o jazz, para as minhas raízes, e comecei a criar sem nenhuma expectativa. Trabalhei em músicas profundamente experimentais, incluindo um corpo de trabalho interminável com Francesco Tristano, uma das maiores mentes da nossa geração. Também comecei o Modaltune com Sarkis Ricci e lancei meu selo El Nuevo Sonido Latino. Sem a pista, não havia razão para fazer música de pista, então precisei redescobrir tudo do zero.

Ao voltar para a Crosstown Rebels com um trabalho tão orgânico e livre, você sente que esse EP retoma uma conversa antiga com a gravadora ou inaugura uma nova fase dessa relação?

A Crosstown é um dos poucos lugares que ainda apoiam músicas que não se encaixam em nenhum outro lugar. Sim, é um selo de ponta, que entende a cena, mas ainda tem aquele espírito punk, eles lançam discos porque acreditam neles. Eles entendem que tendências vêm e vão, mas grandes discos permanecem. É por isso que o catálogo deles está cheio de joias atemporais. Se você ouvir meus lançamentos com eles ao longo dos anos, sempre houve essa intenção de empurrar fronteiras.

Ouvindo esse novo EP e olhando para sua fase atual, dá a impressão de que você está menos interessado em provar alguma coisa e mais em aprofundar uma linguagem própria. Esse é um momento de síntese, de recomeço ou das duas coisas ao mesmo tempo?

Eu não estou aqui para provar nada. Estou aqui para fazer discos que façam sentido para mim e, espero, também para a cultura. Se isso é uma síntese ou um novo começo, talvez seja as duas coisas ao mesmo tempo.

Para finalizar, uma pergunta clássica do Alataj. O que a música representa em sua vida?

A música é tudo, e está em tudo. Está nas vozes, nas memórias, nos discos que você ama, até no som dos pássaros. Eu poderia continuar falando para sempre. A música é o que faz a vida valer a pena.

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