O duo Binaryh deu as caras para o cenário techno nacional e internacional conquistando um fato inédito. Rene e Camila foram os primeiros artistas brasileiros a lançarem pela Steyoyoke Black, selo destinado ao techno da clássica Steyoyoke, marca original de Berlim e dirigida por Soul Button – a também brasileira BLANCAh é uma das cabeças do time.

Primary Code foi exatamente o que nome propõe. Um código primário para desvendarmos e entendermos o som do projeto. Após aparições em 3 VAs do selo de Berlim, um novo EP de originais foi lançado esse ano. Boolean Logic deu o veredito: precisamos ficar de olhos bem abertos para o trabalho de Rene e Camila. Suas produções flertam com o lado mais obscuro do techno, mas não se perdem na restrição de um estilo, já que a liberdade e a emoção são dois direcionamentos clássicos que essa dupla não abre mão de trabalhar.

Após um começo de jornada empolgante, é natural que o público queira saber quais são os próximos passos do Binaryh. Por isso, encontramos a dupla para uma entrevista exclusiva. Confira o resultado desse bate-papo a seguir:

1 – Olá, Camila e Rene! Obrigado por nos atender. O processo criativo em dupla, é certamente diferente do individual. Como funciona a dinâmica do Binaryh no estúdio?

Nós estamos em contato com a música 24 horas por dia, parece que vivemos em uma verdadeira teia. Como dupla, baixamos e escutamos diversas coisas separadamente, e juntamos tudo em uma playlist ou links na web. Quando nos trancamos em estúdio a ideia é sintetizar todas as nossas referências e influências. No início queríamos colocar tudo em uma música só e obviamente não dava certo [risos], mas hoje já estamos mais alinhados então nós buscamos um start, algo melódico lento, algo mais dinâmico. Muitas vezes quebramos a cara tentando fazer uma coisa e sai outra, não temos muito controle, mas percebemos que está dando certo, no fundo no fundo, só sentamos no estúdio e nos expressamos.

2 – Os releases de vocês pela Steyoyoke Black representam uma parte importante da história do projeto. Como isso exatamente aconteceu? Vocês tem novos lançamentos agendados com o selo alemão?

A Steyoyoke Black é pura paixão, todos os integrantes amam o que fazem e diferente de outras gravadoras onde muitos artistas não se conhecem, nós conversamos diariamente. Realmente a nossa dinâmica é como de uma família. Tudo começou quando o Rene conheceu a BLANCAh. Fomos vê-la no D-EDGE e vimos que tudo que pensávamos sobre ela era verdade. Ela é pura arte e traz isso para suas músicas e sets. Ficamos amigos e começamos a mostrar nosso trabalho pra ela, que consequentemente mostrava pros parceiros da gravadora e voilà, nasceu o Binaryh.    Nos próximos meses vamos fazer alguns remixes para a Steyoyoke, um projeto novo que não podemos falar muito mas logo mais soltamos as news. =)

3 – Liberdade e excitação são palavras citadas por vocês como ponto chave da música do Binaryh. Falem mais sobre esses dois pontos.

Vemos que quando o assunto esbarra em um estilo em ascensão as coisas ficam desconfortáveis. Artistas novos querem buscar a sonoridade de artistas renomados. No nosso caso é completamente diferente, o Soul Button – owner da Steyoyoke – nos pede autenticidade e poesia, que tratemos cada música como se fosse única (um momento especial do set de alguém). Isso nos da a liberdade de fazer diferente, experimentar e arriscar. Sempre somos surpreendidos por um projeto novo que envolve todos nós. Nos sentimos realmente fazendo parte de algo e sabemos que nossa música não será apenas um arquivo no meio de uma lista. É isso que sentimos dentro da Steyoyoke Black.

4 – Fora do techno, quais outros estilos musicais chamam a atenção de vocês? Vocês procuram inserir essas referências no som que produzem?

Rene: Eu escuto quase tudo, mas claro que sempre caio em algo eletrônico. Porém esse mundo é muito amplo então vou aproveitar para contar um segredo: 90% das intro dos nossos sets são do Alva Noto, um artista fantástico que trabalha sonoridades dentro do eletrônico, vale a pena conferir.

Camila: Como eu lidei por muito tempo com pesquisa musical para o trabalho de jornalismo dentro da música eletrônica, eu costumo ouvir bastante coisas do nosso meio mesmo. Mas cresci em uma casa de rockeiros então eu adoro clássicos do rock também. E como uma boa aquariana, adoro umas coisas diferentonas, como Cocorosie, Portishead… Eu posso dizer que uma das minhas artistas favoritas da vida é a Björk. Ela é poesia pura!

5 – Como vocês avaliam o atual momento da cena nacional? Na visão de vocês, o mercado está saturado ou ainda há espaço para novos artistas?

O momento atual é ótimo. Estamos vendo artistas que não passavam por aqui há muito tempo e alguns conhecendo nosso país em diversos clubs e eventos que andam acontecendo nas grandes capitais. Sempre há espaço pro artista que pensa fora da casinha, afinal quem não gosta de se perguntar “de quem é essa música”? Basta buscar sua identidade e trabalhar sério e com amor.

6 – Inegavelmente suas músicas possuem um apelo muito forte para pista. Na visão de vocês, fazer o público dançar é a principal tarefa de um bom DJ?

Acreditamos que seja uma consequência. Quando fazemos a música ficamos imaginando ela sendo tocada em certo momento, por certo DJ, em certa pista. Isso acaba nos levando para um caminho específico. Quando fazemos música com intro imaginamos no início do set, temos momentos introspectivos e explosivos, tudo em cima de algo que imaginamos e ficamos muito felizes quando conseguimos passar isso tanto pro DJ como pra pista. Hoje o DJ precisa fazer um pouco mais e dançar acaba sendo a consequência de uma série de fatores como entreter sem impor, convidar o publico pra sua viagem, bem no estilo: vem com a gente que te mostramos onde podemos chegar.

7 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O q ue a música representa na vida de vocês?

Rene: Acho que não consigo responder isso pois vivo assim desde os meus 12 anos. Ou seja, não me conheço sem música, é algo q me mantem vivo, ativo e ainda me causa as mesmas sensações de quando criança, se fosse para definir acho que seria perto de: a música é o que me move.

Camila: Quando fazem essa pergunta pra mim sempre passam diversos episódios na minha cabeça, tipo a cara de surpresa dos meus pais me vendo tocar teclado quando eu era criança sem ninguém me ensinar (um clichê eu sei, mas faz parte), ou a reação negativa das pessoas quando eu decidi que focaria a minha formação profissional (que é publicidade e propaganda) na música. Eu só consigo chegar a conclusão de que a música é o meu verdadeiro amor. Aquela coisa da qual eu nunca desisti, assim como ela também nunca desistiu de mim e estamos aí traçando juntas esse caminho, que não é nada fácil, mas que no final, mesmo que a recompensa não venha em quantidades absurdas de dinheiro, ela vem em uma satisfação imensa e que não tem preço.

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