DJ Hell: sem papas na língua

Na música eletrônica, existem alguns nomes que são obrigatórios para quem é realmente fã do gênero. Um deles é o do alemão Helmut Josef Geier, profissionalmente conhecido como DJ Hell. Nascido em 1962 em Munique, Hell se tornou um dos principais pilares do techno na Alemanha e há quase 40 anos desempenha um papel fundamental no cenário global, seja com seus sets que já rodaram o mundo ou com seus trabalhos mais ligados aos bastidores da cena.

Além disso, Helmut também é visto como mentor do movimento musical revival que nasceu em sua cidade natal em meados dos anos 80 e mais tarde viria a influenciar o electroclash europeu. DJ Hell também é o responsável pelo famoso Gigolo Records, selo de música eletrônica criado em Munique, mas atualmente baseado em Berlim que já catapultou a carreira de nomes como Jeff Mills, Dave Clarke, Tiga, Vitalic, Bobby Konders, Miss Kittin e Laurent Garner. No fim do século passado, Arnold Schwarzenegger processou o rótulo por usar sua imagem no logo. Todo os discos a venda saíram de circulação e Helmut teve que pagar 150 mil euros pelo uso indevido da imagem do ator americano.

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O legado do DJ e produtor alemão vai além das cabines e de seu trabalho com a gravadora. Hell também trabalhou frente a clubs como o Villa Traunstein em Traunstein e junto a famosos nomes da moda, como Hugo Boss, Raf Simons, Patrick Mohr e Dirk Schönberger. Em 2003 ele foi premiado como Man of the Year pela QG Magazine na categoria Música e passou a viver em Nova Iorque. Alguns anos depois, em 2009, Helmut iniciou seu apoio ao grupo feminista ucraniano FEMEN, com total consciência de seu papel como formador de opinião no cenário.

Enquanto se prepara para exercer a curadoria do Museum of Modern Electronic Music em Frankfurt esse ano, Hell segue sua agenda de compromissos pelas pistas e seu próximo encontro com o público é no Brasil. Semana que vem ele se apresenta na Carlos Capslock, uma das festas expoentes do underground paulistano. Antes de subir no palco da Caps, Helmut atendeu a equipe do Alataj para um bate-papo exclusivo. Confira:

​1 – Olá, Helmut! É um grande prazer falar com você. Sua biografia logo de cara fala sobre o caráter de experimentação que a música eletrônica possui. Como a sociedade e principalmente os jovens enxergavam isso no século passado?

Olá! Não posso falar por todas as pessoas que vivem num mundo digital e também amam música eletrônica e a vida noturna. Os pioneiros alemães da música eletrônica estavam mais interessados em entrar em novos caminhos, experimentar os novos equipamentos analógicos e encontrar sua própria identidade nos anos 60 e 70. Aprendi com os chamados músicos cósmicos e carreguei essa mensagem em todo o mundo desde que entrei na vida noturna e comecei a produzir música eletrônica.

2 – Desde que você começou a trabalhar como DJ já se passaram quase 40 anos. De lá pra cá, como você avalia as transformações que tem ocorrido na arte da discotecagem?

Primeiramente, ainda são dois tocadiscos e um mixer o necessário para criar uma boa atmosfera dentro de um club ou vamos chamar de festa de rua. Um DJ é sempre um seletor e precisa estar preparado para o que quer fazer. A seleção de músicas perfeita se tornou importante novamente hoje em dia, pois muitas músicas boas são lançadas a cada segundo em todo o mundo.

“Um DJ é sempre um seletor e precisa estar preparado para o que quer fazer.”

Por outro lado, os DJs usam dispositivos USB ou harddrives com toda a coleção de discos para se apresentar em festivais. Nunca fui um grande defensor dos DJs de notebook, simplesmente porque nunca fiquei emocionado com o set up e com o que eles entregam. Eu sei que essa é a nova m*rda, mas não significa que seja melhor ou transporte mais emoções para a música e as pessoas fiquem mais conectadas, porque os DJs tocam 4 faixas em cima da outra.

Jeff Mills, um dos maiores DJs de todos os tempos, tocou com um 3 deck wizard no começo dos anos 90. Ele mixou três discos ao mesmo tempo – algo novo e excitante, que soava futurista na época – também incrível e poderoso. Ele era um gênio, ou ainda é no que ele está fazendo, sempre empurrou os limites e procurou novas formas de fazer o que estamos fazendo. Seu trabalho foi muito conceitual e artístico, ele também fez muitas partituras – música para filmes como Metrópolis de Fritz Lang. Espero que no futuro a música eletrônica seja mais ouvida nos filmes.

3 – Aqui do Brasil temos uma imagem muito interessante sobre a cena eletrônica da Alemanha, mas certamente há alguns problemas por aí também. Nos últimos anos, quais tem sido as principais dificuldades da cena como um todo?

Berlim tem a vida noturna mais hypada e poderosa do mundo e isso atrai muitas pessoas de todos os lugares do mundo para visitar e celebrar esse momento da vida. Quando nós falamos sobre techno, Alemanha é o principal lugar para estar e também o mais inovador. Há clubs, festivais, gravadoras, agências, DJs e produtores vindo para um sistema altamente profissional, e eles trabalham muito duro para manter assim.

Eu ouvi sobre os problemas em São Paulo e as limitações entorno de toda essa indústria. Eles não aceitam festas e o movimento eletrônico como um movimento cultural e eles não percebem quantas pessoas estão envolvidas e quantos profissionais incríveis estão vivendo disso. Sejam eles DJs, produtores, liderando agências, fazendo festivais, mantendo clubes e muito mais. Muitos empregos são envolvidos na cultura dos clubes e da música eletrônica.

Em Berlim se torna o grande poder por trás da cidade e isso poderia acontecer com São Paulo e com o Rio também. A limitação ou o trabalho contra os movimentos eletrônicos acontecem em muitos países no mundo, onde o governo tenta parar ou empurrar as festas para fora das cidades. Nós temos que lutar contra esse comportamento errado e encontrar formas de fazer o que nós queremos fazer. Nos comunicar com pessoas de poder em todos os clubes e os promoters precisam trabalhar juntos, muito próximos e lutar com poder.

“Fight for your right to party” – Beastie Boys

4 – O processo criativo de artistas veteranos como você é algo que me deixa bastante curioso. Resumidamente, como funciona sua pesquisa musical e seu tempo de criação no estúdio?

Isso nunca muda. Se você toca e viaja muito, você quer voltar para o estúdio. Se você trabalha muito no estúdio e produz o dia todo, você sente falta das festas e festivais. A Gigolo Records me mantém muito ocupado todos os dias, tomando decisões, ouvindo as demos, encontrando novos artistas, como Gezender, criando artworks ou trabalhando em conceitos de vídeos. Mas na vida real, o processo criativo não é o que você fala.

A música fala por si só, veja os artistas/DJs se apresentando ou veja suas fotos e vídeos. Isso vai explicar tudo. Eu me vejo como um DJ/artista/produtor, cada artista tem sua própria expressão de fazer o que acha que é o caminho certo. Tento encontrar novos caminhos e novas formas de procurar e encontrar novas músicas.

5 – É notório que o techno evoluiu consideravelmente nos últimos anos, com diversos nomes de uma nova geração desenvolvendo novas texturas para o estilo ao lado de medalhões com décadas de experiência. Como você avalia esse atual momento do gênero em uma perspectiva internacional? Para qual caminho o techno tem caminhado ultimamente?

Definitivamente tem uma nova onda entorno desse gênero e uma nova geração experimentando o techno pela primeira vez em todo o mundo. Eu acho que o som do Berghain tem um papel muito importante nessa nova onda do techno no mundo. A música techno se torna repetitiva e minimalista de novo, um som bastante digital e muito poderoso, muito comprimido, mas ao mesmo tempo old school.

Pra mim, Detroit e Chicago foram o centro da música house e techno que também inspirou o Kraftwerk e a dance music europeia. O sound system também tem um papel muito importante aqui, porque os promoters tomam muito cuidado para entregar os melhores como Funktion One ou outras marcas. Muitas companhias novas estão surgindo no mercado. Então você vai ter um espectro completo do que sente fisicamente, toca o seu corpo e a mente ao mesmo tempo.

6 – O que você sabe a respeito da cena no Brasil? Quais são suas principais impressões sobre o público brasileiro até aqui?

Electroclash teve um grande hype na Alemanha e aqui no Brasil todo mundo amou.
Nós trouxemos Fischerspooner, Miss Kittin & The Hacker, Vitalic, Tiga, Mount SIms, Zombie Nation, Dopplereffekt e muitos outros para o mundo e para o Brasil. Eu toco em todo o Brasil por mais de 20 anos e eu volto todo ano para ver o que tem de novo e pra onde a cena está indo. Então é claro que eu ouço sobre as ótimas festas de rua em São Paulo e todos os novos DJs e artistas surgindo desse novo movimento, mas eu também ouço que agora tudo está indo para galpões (warehouses) e grandes noites, isso é incrível porque é assim que tudo começou em Chicago nos anos 80. O Warehouse foi um dos primeiros clubes de música techno e house em Chicago e o DJ Ron Hardy era o super-homem por trás de tudo.​

7 – Fale um pouco sobre sua experiência morando em Nova Iorque e como cidades como Berlim, Munique e NY influenciaram sua forma de trabalhar com música

Eu amo NY, tive o melhor momento da minha vida quando morei lá. Essa cidade é inspiração todos os dias. O poder da cidade toca você onde quer que você vá e o que quer que você faça.

Berlim é a meca de uma nova geração e se torna um grande ímã para jovens criativos de todo o mundo. Munique era parte ou a cidade principal quando se tratava de disco e house com Giorgio Moroder, Donna Summer e uma canção chamada I feel love. Foi produzida em 1979 e parecia ser o futuro, o remix de Patrick Cowley a levou para o espaço.

8 – Gigolo Records: ter seu próprio selo deu mais liberdade para sua evolução enquanto artista?
Claro! Com a Gigolo não houve compromissos, sem interrupções, sem limites, sem caminho de volta. Era sempre – all you can eat!
9 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?
Tudo. Hell é a minha vida!

A música conecta as pessoas! 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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